Está na hora de atinar

Só foge para os extremos quem não encontra soluções no centro. Run for cover, o mesmo apelo que levou à eleição de Trump e à vitória do Brexit num referendo, abre caminho ao estilo de discurso que fez eleger André Ventura para o nosso Parlamento. Desencantadas pelas vigarices praticamente impunes que atrofiam o país e pelas promessas por cumprir num contexto do salve-se quem puder partidário, as pessoas já nem procuram respostas: buscam réplicas das suas questões por responder. E são essas que os populistas lhes entregam de bandeja, desabafos prontos a consumir e o ombro amigo da voz grossa que só promete o fim de coisas, sem propôr qualquer alternativa credível em sua substituição. Talvez uma autocracia, não incluída no menu principal.

 

Existem reformas indispensáveis por cumprir, por falta de vontade política - queremos todos acreditar nesse pecado menor - ou por efectiva incapacidade para solucionar alguns problemas que um mundo em evolução acelerada acarreta, o cenário mais aterrador porque empurramos para a frente com a barriga os embriões de broncas que nos irão empurrar para um precipício no futuro. Já tivemos um vislumbre do que isso pode implicar para uma família comum, na ressaca da crise mundial que nos destapou a careca de um Estado ineficaz a gerir as suas (também nossas) contas, de uma vulnerabilidade brutal do sistema político face às trapaças do sistema financeiro e mesmo da sua descarada conivência com as mesmas.

Neste contexto, quase faz sentido que no terceiro país mais seguro do planeta as pessoas amedrontadas por uma realidade local específica optem pelo vozeirão que lhes promete segurança, mesmo que nada ofereça em troca para garantir a confiança na sua capacidade para fazer melhor quando se trata da realidade de todo um país. Como, de resto, é explicável que pessoas com escassa formação, alheadas por este ou aquele motivo da realidade para lá da sua, votem por simpatia clubística, em protesto contra o sistema ou apenas porque se deixam impressionar pela rudeza apelativa de um discurso que destoa daqueles que tentem pautar-se por alguma sensatez.

 

Outra postura

 

À esquerda, à direita ou assim-assim chegaram ao país político diversos sinais de uma sede de mudança ainda letárgica, sem rumo definido, mas esclarecedoras acerca da atenção que cada vez mais pessoas se vêem obrigadas a prestar às pequenas alternativas. O Chega, pelo radicalismo, terá sido o mais visível, mas a Iniciativa Liberal personifica igualmente uma faixa de cidadãos que acredita ter encontrado as tais respostas e soluções em falta, nomeadamente através do recurso à tecnologia avançada que hoje substitui as antigas caixas registadoras. Como o PAN já havia indiciado, com a sua aposta num segmento de mercado, o da ecologia e do ambientalismo, cujos potenciais eleitores não se revêem na timidez da actuação dos partidos tradicionais e acabam por confiar a sua capacidade de decisão a quem não faz a mínima ideia de como gerir um país só por se ter especializado em canis.

 

O Chega é apenas o lado mais sombrio de uma apatia desencantada, de uma revolta fabricada pela soma dos diversos desconfortos devidamente enfatizados por quem saiba ao que vem. Contudo, tal como qualquer proposta vazia de conteúdo ideológico ou de um rumo coerente e realista, sem uma matriz clara, só representa uma ameaça seja para quem for se os berros populistas continuarem a encontrar eco na inépcia de quem detém o poder. Dar um bom exemplo, mais do que nunca, é para os governantes não menos do que um dever. Com lealdade e dedicação à causa pública, com coragem para decidir em vez de adiar, sem espaço de manobra para desleixos ou compadrios, sem mácula num comportamento tão zeloso na moralidade como na legalidade. Tudo o que venha abaixo disto, pelas repercussões possíveis, pelas alternativas terríveis, constituirá pouco menos do que uma traição ao país e à própria democracia.

publicado por shark às 14:44 | linque da posta | sou todo ouvidos