Sábado, 19.05.12

A POSTA QUE FICA TUDO EM ÁGUAS DE BACALHAU

Se uma jornalista inventa uma história rocambolesca de pressões e de ameaças por parte de um Ministro, essa pessoa certamente não estará no seu perfeito juízo.

Porém, se um Ministro efectivamente produz essas pressões e ameaças num claro abuso de poder então essa pessoa é perigosa e não estará no seu devido lugar.

Por outro lado, se uma jornalista passa por um momento desses e todo o seu jornal não se insurge de imediato, em bloco e em primeira página, a história assume contornos mais débeis do ponto de vista da credibilidade da jornalista mas mais complicados de entender se vier a verificar-se que não se tratou de pura invenção.

Naturalmente, se o Ministro pediu desculpas é imprescindível esclarecer a que se referiam as mesmas porque se pediu desculpa pela pressão e pela ameaça mentiu quando negou esses (f)actos. E se os praticou estaremos perante um abuso de poder que se estende ao pandemónio que todos percebemos existir nos serviços secretos da nação e torna o dito Ministro num governante a afastar rapidamente de qualquer poder público.

E se a jornalista inventou toda aquela história deverá ser internada de imediato numa ala psiquiátrica, pois quem inventa histórias que envolvem ministros sabe que só com provas sólidas e cópias em triplicado se evitam sarilhos mesmo muito sérios.

 

O restante folclore é serradura para os nossos olhos. Se esta embrulhada não ficar esclarecida behond any reasonable doubt estamos perante mais uma prova concreta de que das duas uma:

ou está tudo doido mas agora isso deixou de constituir um problema para a sociedade ou está tudo doido mas agora isso serve de pretexto para os tiranetes se acreditarem impunes mesmo quando é exposta a natureza vil a que se permitem no exercício das suas funções.

publicado por shark às 19:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Terça-feira, 24.04.12

A POSTA QUE TAMBÉM NÃO SOMOS A ALEMANHA

A extrema-direita, nem que seja por ficar em caminho no raciocínio da coisa, é tradicionalmente nacionalista. Por isso constitui-se uma ameaça séria para o conceito de uma união Europeia que roçou o federalista no tempo das vacas gordas e já se adivinham algumas surpresas eleitorais num futuro próximo em países como a França, a Áustria, a Holanda (a queda do actual Governo pode antecipar este caso em concreto) e vamos ver o que nos chega dos países mais a leste deste paraíso em acelerado processo de infernização.

 

O nacionalismo é um apelo lógico quando um país mergulha numa crise e esse apelo ainda faz mais sentido enquanto reacção instintiva quando as crises decorrem no contexto comunitário. Se o problema vem de fora é natural que nos queiramos fechar cá dentro…

O problema do nacionalismo é o descontrolo inevitável destas ideologias radicais quando levadas à prática, conduzindo as pessoas para comportamentos e para visões do mundo onde proliferam o racismo, a xenofobia e outras justificações de treta para o que corre mal e não dá jeito assumir como culpa dos próprios.

Contudo, o amor a uma Pátria é como o amor a uma pessoa: existem excessos na dosagem do ciúme, do instinto de posse e de outras emoções que podem ser explicadas pelo amor mas que o deterioram. Mas se entre pessoas pode apenas perder-se a relação, entre pessoas e a sua Pátria pode matar-se (alegadamente) por amor ou, pelo menos, com essa estima a servir de pretexto para formas indignas de se ser nação.

 

Por isso, e apesar de nunca ter simpatizado com a ambição federalista ou qualquer outra que transcendesse o plano económico de uma aliança entre Estados, receio o brotar dos papagaios que arrastam as hordas de skinheads, por tabela, as legiões de desempregados e de desencantados de uma forma geral que acreditam na salvação da Pátria por via da violência implícita (e muitas vezes explícita) em alguns pressupostos que são caros a quem ergue o estandarte do nacionalismo de direita por falta de comparência das versões menos hostis do mesmo ideal que, pegando de novo na questão amorosa, pode ser vivido de muitas maneiras.

 

No entanto, nem tanto ao mar nem tanto à terra, receio igualmente o efeito pernicioso da manifesta falta de emoção, chamemos-lhe assim, por parte de quem nos governa. Não inspiram, não agregam e acima de tudo não mobilizam.

Portugal definha em muito mais aspectos do que os directamente ligados a dívidas externas ou ratings marados que atrofiam as finanças ao ponto de gerirmos a nossa vida não ao mês mas à semana. Ou ao dia.

O país está a perder o amor próprio e só o facto de já terem percebido que os do lado não se estão a safar silenciou os bígamos iberistas que nesta altura já nos teriam devolvido a Castela que o feriado mais incómodo até já foi eliminado e tudo.

 

E da parte do Governo em funções, tão prestável e solícito a acatar e implementar todas as imposições estrangeiras sem olhar a danos colaterais, não emana qualquer tipo de sinal que se substitua à mensagem radical dos que por cá ainda não pintam nada mas só até ao dia, acabando na verdade por inspirar alguma vergonha por se ser português, algo que me repugna só de escrever, martelando sem cessar a única mensagem que disponibilizam como ponto de partida para reencontrarmos o orgulho hipotecado e a identidade nacional ameaçada ou pelo menos aparentemente muito desorientada:

 

Não somos a Grécia…

publicado por shark às 10:36 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Terça-feira, 06.03.12

A POSTA QUE O QUE FAZ FALTA É ACORDAR A MALTA

Desabafava tempos atrás o Primeiro-Ministro no exílio, José Sócrates, que não há coisa pior para um político do que uma crise. Concordo.

Deve ser terrível para quem não tem ovos sequer para uma omoleta de promessas e se vê obrigado a substituir o sorriso polaroid por uma carranca mais consentânea com o figurino geral.

Isso preocupa-me enquanto cidadão dependente de uma política mais sorridente, claro.

Porém, embora admita essa ligeira consternação pelo drama humano de um político sem coelhos na cartola ou, no caso concreto, mesmo já sem cartola, tenho que puxar a brasa à minha sardinha de pelintra e aproveitar a engenharia do raciocínio acima:

Não há pior para um gajo teso do que a falta de dinheiro.

 

Isto dito assim parece bem menos profundo do que é. Mas mesmo as ideias de quem não completou a licenciatura mas assume isso com toda a frontalidade podem ter baixios.

O problema não é menor, se tivermos em conta as proporções entre a aflição do político obrigado a gerir uma crise e a de um gajo teso intimado a resolvê-la.

De resto essa diferença passa pela descontracção com que o actual PM assume a sua determinação em gozar as férias no Algarve como de costume, enquanto para a maioria dos tesos isso das férias é apenas mais um período no qual se torna demasiado óbvia a falta de liquidez.

 

Mas dizia eu que a falta de dinheiro atrapalha imenso o gajo teso. Isto acontece porque o sistema está pensado no sentido de punir quem se atrasa a cumprir, numa lógica perversa porque desenhada para enterrar ainda mais quem já nada em problemas. Ou seja, a pessoa tem falta de dinheiro e isso implica penalizações pecuniárias que a agravam.

É fácil de perceber como a coisa funciona numa dinâmica trituradora de efeito dominó que só abranda quando o gajo teso já nem mexe porque nada sobra para lhe confiscar, numa bola de neve que se torna imparável depois de somadas todas as alcavalas.

Este ciclo vicioso acaba por ilustrar aquele que os governantes sentem na pele de terceiros quando se vêem a braços com uma crise não propriamente sua, com as perdas e penalizações e juros a não permitirem a saída do vermelho porque, lá está, a lógica do sistema não engloba a abébia para os prevaricadores: se tem pouco e não chega, para castigo fica sem nada. Ou ainda pior, fica com menos qualquer coisa do que nada porque as dívidas são para honrar mesmo quando já não existam meios para o efeito e empréstimos são para quem deles não precise porque até consegue pagar a respectiva prestação.

 

Nestes becos com saída garantida do sistema a falta de dinheiro é mesmo do pior porque a quem menos tem é a quem a coisa mais faz doer, implacável na sua purga dos que não merecem pertencer ao mundo dos que valem apenas porque têm e os restantes constituem-se embaraços, maus exemplos como grãos numa engrenagem pensada para a prosperidade globalizada e incapaz de processar a situação inversa.

E enquanto aos políticos apanhados por uma crise é atribuído um rótulo de incapazes que os afasta do centro do poder político mas os aproxima do poder financeiro ávido de retribuir uma simpatia para encorajar outras, aos gajos tesos apanhados no mesmo contexto é exibido o chicote do flagelo social associado ao estatuto de caloteiro para os manter à distância de qualquer poder que não aquele que lhes permite votar nos que depois retribuirão o gesto, nunca se abstendo, uma vez esmifrados até ao tutano, de os votarem ao maior ostracismo que a democracia permita e a sociedade seja capaz de tolerar.

publicado por shark às 15:02 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Domingo, 05.02.12

A POSTA FICCIONADA QUE QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE É VIRTUAL

- Porra, pá, que isto da internet está a tornar-se muito desagradável.

- Então, que se passa?

- É a toda a hora e a todo instante, um gajo a ir por um caminho na Comunicação Social e eles a darem cabo de tudo e a irem por outro nas redes sociais e o caraças, pá. Isto é um inferno!

- Tem calma contigo, colega, isso é coisa que pode ser resolvida como temos feito nos outros canais de propaganda ao dispor.

- Pois, eu já ouvi falar de algumas alterações nesse sentido...

- Vês? É só uma questão de tempo até lhes cortarmos o pio, a intimidação produz efeitos extraordinários nas multidões mais apáticas. Basta irmos apertando o cerco, nem precisamos de fazer à descarada como nas ditaduras. E só por isso já nos distinguimos delas, as ditaduras.

- Tou a ver, é como arranjarmos pretextos de treta para matarmos pessoas nesses países. Pelo menos arranjamos os pretextos e isso faz a diferença.

- Claro que faz toda a diferença, isto de governar em democracia tem que ser gerido com mais inteligência. Por isso já estamos a tratar de obter pela lei, nisso da internet, o que os outros impõem pela força. E acabamos na mesma com a única oposição ao nosso esquema digna desse nome, que o líder da oposição institucional, mesmo a afirmar que estamos a destruir a Pátria, já deixou claro que só pretende o tacho lá mais para 2015. Até lá podemos partir à vontade que ele depois recolhe os cacos na boa. É limpinho. Até empresas privadas. E temos do nosso lado na forma de fazer as coisas o bom exemplo de uma liga de combate à pirataria, uma irmandade de fazer corar de inveja o Lord Nelson. São uma frota pequena, mas com nomes sonantes e muito empenhada!

- Nota-se a motivação, é?

- Não, nota-se o desespero de causa. Está mesmo muito empenhada. Mas isso não diminui o brilho do seu sentido de oportunidade. E juntando meia dúzia de caras conhecidas acaba por induzir o público a reconhecer legitimidade à coisa, o que acaba por nos abrir as portas para as podermos fechar.

- Realmente, silenciando esses poucos palermas da internet acaba-se a contestação que ainda resta. Só é pena eles depois ainda poderem recorrer aos sms para organizarem as suas caldeiradas, como fazem na Grécia e na Primavera Árabe...

- Ó colega, francamente... Então porque julgas que se fala de gente das secretas de alguma forma ligada às empresas do ramo?

publicado por shark às 18:12 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Sábado, 31.12.11

A POSTA QUE VAI CHOVER

Terá existido com toda a certeza uma boa razão, um fundamento qualquer, para um dia alguém, um grupo, ter decidido que valia a pena chamar seu um pedaço de chão. Até aí a terra era de todos por igual, na teoria que a prática aparentemente trauliteira e sem dúvida territorial dos primeiros bandos nómadas em qualquer sítio onde parassem por algum tempo desmentiu.

Era de todos sim, mas espartilhada em função da respectiva ocupação por parte dos colectivos então dispersos para quem a partilha de recursos poderia equivaler à hipoteca de uma sobrevivência já de si precária.

 

Mas um dia lá apareceu quem gostou imenso da vista num sítio qualquer e achou que aquilo era bom demais para repartir à balda com os de fora, os estranhos em que passariam a tornar-se todos quantos não pertenciam ao grupo ali sediado. O conceito de estrangeiro nasceu aí, tal como teve embrião o de país ao qual nessa altura só faltavam fronteiras desenhadas à porrada, na versão igualmente trauliteira mas alegadamente mais civilizada da demarcação de territórios original.

No fundo a ideia era a mesma, definir com clareza quais os membros de um clã instalado em determinado espaço e distingui-los dos outros, os tais de fora, que se haviam instalado noutro sítio qualquer há tanto tempo que até já falavam entre si com linguagens incompreensíveis e exibiam costumes e objectivos diferentes de toda a vizinhança que entretanto decidira imitar o tal primeiro exemplo de um espaço de alguém, de um grupo, que pusera fim à liberdade de circulação tal como os nossos antepassados com maiores afinidades com os símios a experimentaram.

 

A coisa refinou com o tempo, sobretudo para se adaptar ao crescimento populacional que a vida mais pacata, sedentária, acarretou. Para evitarem escaramuças e confusões até tentaram firmar acordos que permitissem dividir os territórios com os respectivos limites bem definidos para ninguém reclamar como seu um pedaço fronteiriço qualquer, mas a História não esconde que essa solução nunca se revelou consensual.

As nações foram sendo moldadas pelas alianças de conveniência, pelos oportunismos de circunstância e acima de tudo pela força dos que mais a tinham para impor a vontade dos homens afirmando-a de Deus.

Mas a malta, os que não tinham alternativa, lá ia ficando e aos poucos se iam habituando a falar igual aos vizinhos e a cantar as mesmas músicas e a contar as mesmas histórias da vida que acontecia dentro de um espaço a que chamavam seu porque fazia parte de uma enorme propriedade colectiva chamada país.

 

Muito tempo depois da criação do primeiro aglomerado populacional com território reclamado como seu e pouco tempo decorrido sobre a perda de milhões de vidas à conta da cobiça expansionista, a galinha do vizinho, alguém percebeu que a melhor forma de acabar com essas cotoveladas, com esses chega para lá que o desenvolvimento da tecnologia militar ameaçava transformar num armagedão, seria unir os vários grupos distintos de um mesmo continente em torno de uma lucrativa e muito fraterna união das que se fazem à força dos milhões.

 

O problema é que esses visionários concentraram-se imenso na parte do lucrativa e ignoraram o risco de a coisa dar para o torto e tornar-se quase impossível de sustentar a parte do fraternal.

As mesmas populações reconhecidas pela paz e pela prosperidade que a ligação mais próxima com gente estrangeira parecia garantir viraram o bico ao prego quando começou a faltar o pilim e de um dia para o outro começaram a erguer-se os estandartes do salve-se quem puder e, como é tradição, os mais fortes e endinheirados olharam primeiro para os seus umbigos quando passou a estar em causa a salvação, assim o acreditam, de apenas alguns.

 

E se as fronteiras do passado começaram a redesenhar-se com enorme definição, pelo menos nas prioridades dos mais poderosos, as perspectivas para o futuro europeu ameaçam tornar-se num borrão, numa pasta disforme de incógnitas onde o cinzento predomina no céu cada vez mais escuro, mais carregado com a ameaça permanente de um tremendo temporal.

publicado por shark às 00:01 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Domingo, 18.12.11

A POSTA NUMA DÍVIDA SOBERANA

Embora não seja coisa engraçada acho sempre imensa piada aos desabafos daqueles que choram a perda da soberania por via do torniquete que a crise nos aplicou.

A anedota encontro-a no facto de os maiores chorões se apregoarem adeptos de uma Europa fraterna, unida, quase irmã à luz dos impulsos federalistas dos mais interessados numa integração total e muito para além da economia que acaba sempre por constituir o motor para estas uniões de fato e gravata só para a fotografia institucional ser composta.

 

É complicado para mim entender estes receios hipócritas emanados dos mais entusiastas por aproveitarem o pretexto da crise para aprofundarem os laços da união que prova só funcionar na perfeição quando o dinheiro não é problema. Soa-me paradoxal, o instinto protector da soberania ameaçada pela ingerência nas Constituições dos países – o limite ao défice quantificado nos desígnios alegadamente superiores das nações – e a coragem unionista necessária para aceitar a imposição de regras que descaracterizam os países e forçam a importação de um modelo de sociedade muito parecido mas de forma alguma tão igual como o desejariam os snobes do norte europeu mais endinheirado.

 

Se antes a retórica política ainda defendia a custo a paridade, os mecanismos de protecção dos países mais pequenos ou periféricos que garantiam a igualdade no peso decisor dos diversos Estados, agora temos alemães e franceses a ditarem os caminhos a seguir como se o poder do dinheiro se sobrepusesse aos restantes. E afinal prova-se que se sobrepõe, como o demonstra a anuência dos restantes e a falta de tomates generalizada para assumir um murro na mesa para perguntar: afinal quem manda aqui?

 

Todavia nem perguntam e já nem tentam esconder, desorientados pela falta de soluções para o sarilho nascido da sua incompetência e da dos seus antecessores, intimidados pela condição de reféns do medo de se verem arrastados para o vórtice do furacão que já varre a Grécia, a Irlanda e Portugal, enquanto Itália e Espanha tentam escapar ao vendaval para não desabar toda a estrutura pelo efeito dominó.

São as regras do jogo jogado sobre as brasas do colapso iminente da tal união monetária que todos adivinham ser a única que interessa verdadeiramente e sem a qual tudo o resto é folclore.

Um jogo em que parecemos mergulhados no grupo mais perdedor, com a tal soberania derrotada em qualquer dos cenários concebidos pelos especialistas na matéria. Precisamente os que mais contribuíram para esta inevitabilidade aparente de perdermos pelo caminho uma realidade chamada Portugal, hipotecada aos mais poderosos pelo peso do dinheiro depois de séculos a impedir que tal acontecesse pela força das armas.

 

É um facto que devemos temer pela soberania, sobretudo pelo impacto da apatia e da cobardia generalizadas perante um descalabro que até faz ministras chorar e que entrega aos poucos o futuro do país nas mãos ávidas de quem não o sente dessa forma, como uma Pátria antiga capaz de feitos de dimensão mundial mas convertido em presa fácil numa impiedosa coutada de piranhas multinacionais.

É outro facto que ninguém pode garantir coisa alguma como moeda de troca para o estrangulamento de cada vez mais famílias e empresas à mercê de um sistema implacável onde nos endividamos perante quem nos empresta e quando voltamos a precisar damos de trombas com a verdade da condição financeira das instituições que nos poderiam valer até chegar o momento de ver tudo deitado a perder na frieza que os números negativos traduzem e implicam.

 

E na verdade quando se chega a esse ponto, as perdas das soberanias já pouco ou nada nos preocupam.

publicado por shark às 00:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Segunda-feira, 24.10.11

ACORDO DINHEIRO

Continua sem fumo branco, a prolongada tentativa de encontrar uma solução para salvar a união €uropeia.

publicado por shark às 01:01 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 28.08.11

NÃO NOS CONTEM QUE É SEGREDO

Se há coisa que me provoca calafrios é a existência de serviços secretos.

Por muito que faça todo o sentido a justificação oficial para a sua existência, a protecção contra os terroristas e outras ameaças desse calibre, a defesa do Estado contra os cidadãos maus deveria ser possível sem que para isso fossem criados grupos de pessoas que para saberem tudo precisam saber demais.

O poder confiado a esses grupos de pessoas é tremendo, na prática maior do que o dos próprios órgãos de soberania pois nem eles estão acima do raio de acção dos espiões cujo desempenho começa a ser pouco secreto no que respeita aos excessos que lhes denunciam uma rédea solta que jamais uma Democracia deveria tolerar.

 

Agora reparem: apenas por estar a escrever isto posso tornar-me num alvo desses serviços secretos que colocam telemóveis de jornalistas sob escuta só para tentarem caçar uma potencial toupeira nos seus túneis de informação.

É um facto, não é ficção. O optimismo não é a melhor resposta perante a possibilidade de os factos já vindos a público não serem excepções mas sim a regra de uma organização sem controlo efectivo por parte do seu criador, o que tantos os factos como a ficção demonstram ser o embrião de alguns dos piores monstros que o mundo conheceu.

Com aquilo que sabemos, sempre muito menos do que sabem alguns, já podemos concluir que tanto o processo de recrutamento como o de fiscalização desse poder perigoso são mancos e a própria Democracia pode ver-se coxa pelos danos sofridos, por exemplo, na liberdade de expressão.

 

Isto não é uma brincadeira de miúdos, é uma ameaça séria ao Regime. Muito mais séria do que a de Portugal ser alvo de atentados ou de um golpe de Estado que tanto do ponto de vista das probabilidades como da capacidade de resposta da Nação constituem medos inexpressivos quando, e é bom que o façamos, os comparamos com a entrega às cegas de poder quase ilimitado a fulanos capazes de o utilizarem em benefício próprio ou de instituições privadas cujos objectivos já se provam tortuosos na adopção destes esquemas que vêm a lume nas parangonas.

A ameaça de serviços secretos com rédea solta é invisível por inerência se os seus espiões não se revelarem tão trapalhões no encobrimento do seu rasto quando fazem das suas.

Ficamos, pois, à mercê do bom fundo desta malta ou apenas do nível das suas ambições pessoais.

É disso que se trata quando olhamos com atenção para estes sinais de balda onde ela nunca pode existir.

 

Já estamos a pagar a inépcia por parte daqueles a quem confiamos os poderes legítimos do Estado de Direito que escolhemos para nos organizar enquanto país.

Mas se olharmos para o que pode representar em matéria de custo a entrega de meios a organizações capazes, se extrapolarmos a partir do que já se sabe não podemos ignorar tal hipótese, de manipularem a legitimidade em prol de interesses nada públicos, a factura da nossa negligência pode levar-nos a hipotecar muito mais da qualidade de vida do que a falta de dinheiro nos possa acarretar.

publicado por shark às 13:10 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Domingo, 21.08.11

A POSTA QUE É MAU TERMOS MEDO DOS BONS

De cada vez que vejo imagens relativas ao abuso de autoridade por parte de um corpo policial obrigo-me a refrear a ânsia por segurança que, sobretudo em tempos mais agitados como os que se avizinham, tendemos a privilegiar em detrimento do bom senso que nos alerta para a brutalidade e a privação de direitos, liberdades e garantias que o excesso de preocupação com a segurança oferece de bandeja aos poderes a quem dê jeito eliminar em absoluto qualquer tipo de contestação.

 

Agora vêm de Espanha, numa santa ocasião, os momentos neandertal protagonizados por homens cegos pela força que lhes é confiada sob o pressuposto de saberem ponderar o respectivo uso. E não usam, abusam, tal como as imagens, que a tecnologia e a liberdade restante permitem divulgar, confirmam.

É uma ameaça séria, esta do abuso da força por parte de um Estado que é quem solta nas ruas estes fulanos a quem confiamos a nossa segurança e por isso acaba por ser directamente responsável pelo comportamento de indivíduos armados que queremos, no mínimo, inteligentes o bastante para distinguirem um transeunte inofensivo de um potencial agressor.

Só não entende a dimensão do problema quem não levou bastonadas apenas por escolher as ruas erradas a percorrer. A revolta é imensa e maior ainda deverá ser a preocupação de todos perante estes episódios que se multiplicam, resguardados perante uma imaginária licença para abusar concedida pelo medo acéfalo da maioria dos cidadãos.

 

Em causa estão duas opções: ceder ao medo de bandidos, de terroristas, de distúrbios, de tudo quanto possa constituir uma ameaça à segurança e exigir mais (e mais violenta) polícia nas ruas até essa polícia ter força demais (o embrião de um Estado policial com fachada democrática) ou, em alternativa, não deixar impunes estes desvios comportamentais por parte dos agentes da autoridade e escolher o caminho das melhores polícias (tamanho não é documento) devidamente equipadas e com formação rigorosa mas igualmente fiscalizadas na sua actuação.

Deveria ser uma decisão fácil, mas aparentemente não é e os políticos, tão receosos da perda de controlo das multidões como da do apoio das classes mais abastadas que pressionam no sentido de salvaguardarem a sua segurança pessoal, nunca hesitam em colocar-se do lado de polícias prevaricadores não só por estes serem os seus instrumentos mais eficazes de repressão a movimentos contestatários mas porque censurar actuações indevidas acarreta um custo político que nunca estão dispostos a pagar.

 

Sempre defendi a existência de corpos policiais de elite, bem pagos, bem equipados, capazes de ombrearem sem medos com o que de pior a sociedade produz.

Porém, da mesma forma defendo, ainda com mais ênfase, o cuidado no que concerne à legislação que proteja os cidadãos da perda de algo sem o qual todos os excessos acabam permitidos e todos os medos acabam transferidos para um mal muito maior: a liberdade de expressão e de circulação que parecem cada vez mais incomodar os poderes que elegemos (também) para nos garantirem a preservação desses direitos.

 

Quando as polícias perdem o controlo ao ponto de se tornarem num papão para cidadãos cumpridores da lei, como as imagens divulgadas documentam com frequência e disseminação perturbadoras, só os imbecis conseguem ignorar o sinal de alarme que essas situações representam e a impunidade subsequente que se camufla por detrás de inquéritos feitos por juízes em causa própria até se tornar num monstro cujos abusos ninguém saberá depois como conter.

publicado por shark às 19:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Terça-feira, 26.07.11

ONDE PARAM OS MILHÕES???

Tenho conhecimento pessoal, não ouvi dizer, de um caso concreto que me suscita enorme apreensão acerca da verdadeira condição da banca em Portugal, nomeadamente o Millenium BCP.

Em causa está uma bagatela, um crédito à habitação no valor de cerca de 20 por cento do imóvel que garante a operação financeira, pedido por alguém sem incidentes bancários e com fiadores de solidez comprovada.

Depois de dados todos os passos necessários, avaliação, recolha de documentos, já passaram 30 dias. Um mês, sem qualquer resposta. Nem mesmo uma desculpa forjada, tamanha é a evidência de que pouco há a explicar.

Nenhum banco demora um mês a recolher informação acerca de alguém e ainda menos leva esse tempo a avaliar a capacidade de endividamento, a dimensão do risco em causa num empréstimo cujas características levaria à aprovação e à marcação da escritura em pouco mais de 48 horas. E sei do que estou a falar.

 

Que hipóteses restam para o banco em causa nem sequer comunicar a decisão relativa à aprovação depois de passadas quatro semanas sobre a abertura do processo?

O raciocínio requerido não é muito para se concluir que só a falta de liquidez, e tendo em conta o valor em causa estamos perante uma falta de pilim mesmo muito assustadora, pode estar nos bastidores do embaraço de quem aceitou o negócio em causa e agora se vê a braços com uma situação cujas respostas concretas não poderá fornecer sem comprometer seriamente (ainda mais) a imagem de um banco cujas acções valem metade de uma bica.

 

Repito, para que percebam bem o que está em causa: um negócio dos que sempre estiveram no topo das prioridades comerciais de qualquer banco nos últimos anos, com margem de risco quase nula e envolvendo uma verba insuficiente para comprar um T1 na Brandoa está pendente de resposta há um mês inteiro.

 

E não ouvi dizer. A verdade é mesmo esta, escarrapachada onde mais nos dói.

publicado por shark às 22:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Domingo, 17.07.11

O AI JESUS DOS FRANGOS

Depois da aposta veemente num dos mais desastrados (e mais caros) guarda-redes que o futebol português conheceu, o espanhol Roberto, Jorge Jesus insiste na tentativa de conquistar o patrocínio da Casa dos Frangos de Moscavide ou mesmo do Aviário do Freixial.

 

A Imprensa desportiva dá Eduardo como certo no Benfica...

publicado por shark às 09:50 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sexta-feira, 15.07.11

A POSTA NA CONFIANÇA TRANSBORDANTE

Uma pessoa percebe o quanto o faz de conta(s) nos aldraba quando é preciso divulgar as conclusões dos testes de stress a dezenas de bancos europeus e decidem marcar a coisa para uma sexta às 17 horas para acontecer apenas depois de encerrarem os mercados.

 

Para evitar estragos maiores.

publicado por shark às 10:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quinta-feira, 14.07.11

A POSTA QUE FAÇO NA MESMA

Pelos vistos a coisa obedece a um padrão qualquer. Quem se afirmou favorável à despenalização do aborto passou a ser a favor da respectiva prática. Quem advoga a eutanásia é um entusiasta do homicídio. E quem rejeita os excessos legislativos no que respeita ao tabaco veste de imediato a pele do adepto fervoroso da prática fumadora.

 

Uma pessoa acredita que o senso comum consegue distinguir a defesa da liberdade de escolha, no caso do aborto, e a apologia da sua prática. Mas isso do senso comum foi chão que deu uvas no tempo em que as consciências pareciam uniformizadas num conjunto de valores que se queriam universais à força mas depressa a liberdade, essa marota, os liberalizou ao ponto de quase se substituírem os valores colectivos pela soma de uma colorida paleta de interpretações individuais.

A verdade dos factos ensina-nos que, sobretudo nas questões ditas fracturantes, a emoção sobrepõe-se à lucidez e por isso a compaixão para com o sofrimento terminal de alguém que me move na defesa do direito individual à escolha do momento do fim será sempre distorcida na perspectiva de quem se sinta insultado por essa heresia como muitos a sentem.

 

Na Islândia, esse país gelado com molho de lava quente, depois de serem banidas coisas tão perniciosas para cérebros congelados como a pornografia, parece que a próxima cruzada nacional incidirá no tabagismo.

Ao que sei os islandeses estão a considerar algo que nem aos fanáticos anti-tabagistas norte-americanos lembrou: condicionar a compra de tabaco à emissão de uma receita médica para o efeito.

Ou seja, e espero ter percebido mal, a pessoa tem que ir ao Centro de Saúde para obter o ámen de um médico para poder comprar um maço de tabaco.

E lá estou eu outra vez na função de advogado do diabo por sentir como uma heresia tentarem impor uma espécie de pedido de licença, de beija-mão, a quem gosta ou depende do consumo de uma substância que a partir desse precedente passa a estar na fronteira da ilegalidade que tresanda ser o objectivo último de quem decide assim.

 

Mais uma vez não estão em causa as melhores intenções de quem gostaria de ver erradicado no futuro o consumo do tabaco. Esse é o ponto de convergência entre mim e os paladinos anti-tabagistas e sou um apoiante fervoroso de todas as iniciativas tendentes a afastar os mais jovens do contacto com algo que os pode matar no futuro (como o uso de um motociclo, mas esse ainda não entrou na lista negra proibicionista).

Porém, o abuso de poder inerente a esta interpretação da pessoa que fuma, a este misto de infantilização com marginalização sistemática por via legislativa, pode provocar uma alteração de mentalidades que na minha visão do mundo não encaixa.

Estes cruzados das causas politicamente correctas nunca saciam a sua ânsia proibicionista e compram guerras à peça para se manterem activos na perseguição de tudo quanto consideram feio, sujo ou mau. E assim vão impondo um modelo de perfeição com base na intensa pressão exercida sobre quem possa dar corpo às suas pretensões.

 

É esta a ameaça que representa para mim o mesmo que o sexo, o tabaco, as drogas leves e qualquer fonte de prazer vulnerável do ponto de vista de uma moral duvidosa nas cabeças pseudo-impolutas de autênticas seitas que se congregam em torno das batalhas por uma sociedade sem vícios públicos e, numa intrusão inadmissível, cada vez mais também os privados.

É esta a minha opinião e defendo-a com todos os argumentos ao meu alcance.

Mas não vou por isso tentar mudar a dos outros à força. A da Lei ou outras.

publicado por shark às 11:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Segunda-feira, 11.07.11

O PONTO DA SITUAÇÃO? É UM PONTO DE INTERROGAÇÃO...

Ora vamos lá ver...

A Europa está a sangrar euros e a hemorragia chamada dívida pública não estanca e hoje bastou falar-se na Itália em apuros para as bolsas darem um enorme trambolhão.

Do outro lado do Atlântico temos os norte-americanos a braços com a possibilidade de a falta de acordo político os arrastar para uma situação parecida com a da Europa em matéria de calotes.

A África enfrenta (mais) uma seca prolongada, com toda a morte directa e indirecta que isso implica no continente mártir.

As Américas do Sul e Central transformam-se aos poucos no papão que nos tempos da Guerra Fria arrepiava as espinhas no mundo ocidental.

Temos o Japão como se sabe e da China não chegam os melhores rumores.

Em diversos países árabes do Norte de África ainda estão por completar as respectivas revoluções e ninguém parece ter certezas quanto aos rumos que irão ser tomados.

E por falar no Irão, há demasiado tempo que ninguém fala das alegadas monstruosidades (os pretextos) em embrião no próximo alvo dos ocidentais se entretanto não se esgotar o pilim para sustentar uma máquina de guerra capaz da proeza de imitar no Irão o que logrou no seu vizinho Iraque.

Depois tem havido uns vulcões, uns tornados e outros abanões na já frágil estrutura que mantém isto tudo a funcionar como se espera.

 

Mas mesmo assustador, para além de começarem a ficar escassos os destinos de férias pacatos, é analisar um a um os líderes da maioria das nações que referi e saber que serão eles, neste momento de suspense da História, a tomar as decisões fulcrais.

publicado por shark às 23:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Terça-feira, 21.06.11

A POSTA QUE ME VEJO GREGO PARA SER OPTIMISTA

A gente aqui sossegadinhos à espera dos frutos do milagre económico que um novo Governo permite sonhar e às tantas por esta hora os gregos descompõem a cena no Parlamento deles e fazem-nos a folha por tabela...

publicado por shark às 22:36 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)

A POSTA EMPRESÁRIA EM NOME INDIVIDUAL

veículo de mercadorias

 

Foto: Shark

 

 

Um dos sinais mais visíveis da entrada de Portugal na Europa dos ricos (os gregos devem fartar-se de rir desta) foi a súbita proliferação dos veículos comerciais ligeiros, os populares diesel com dois lugares que renovaram num ápice a frota de velhas carrinhas com bancos rebatidos nos dias úteis, com os putos a viajarem deitados nas caixas de carga dos carros de trabalho que também eram de passeio se a polícia não os topasse nessa ilegalidade óbvia.

Os comerciais ligeiros passaram a ser o símbolo do dinamismo da economia agora animada pela entrada de milhares de cidadãos no mundo dos negócios, no grande boom dos empresários em nome individual que podiam agora adquirir um veículo a gasóleo que dava um jeitão para ir à terra no fim-de-semana, beneficiando da poupança do Imposto Automóvel nos veículos de mercadorias e sem terem que optar por uma Ford Transit ou outro matatu(*) dessa dimensão.

 

As contas dessa altura eram feitas com base no pressuposto de que a prestação do Aluguer de Longa Duração (ALD) se pagava a si própria apenas com base na poupança resultante da diferença de preço entre combustíveis.

A malta fazia as contas aos quilómetros que percorria habitualmente, substituindo o preço do litro da gasolina pelo do diesel e depois somava-lhe a estimativa dos quilómetros necessários a mais, no âmbito do negócio em part-time e respectiva expansão, para a prestação mensal ficar coberta por inteiro nessas contas iluminadas pelo brilho no olhar de quem podia pela primeira vez sonhar com um carro novo, mesmo com uma rede separadora entre os lugares propriamente ditos e o tal espaço versátil misto passageiros/carga.

 

Este deslumbramento pelintra, cuja euforia levou muitos, burros (como este vosso amigo), a abandonarem bons empregos para embarcarem na aventura mercantil traduziu-se também no aparecimento dos centros comerciais que albergaram os sonhos dos lojistas maçaricos e acrescentaram à prestação do carro mais um ror de despesas fixas que a banca, sempre solícita nesse expediente, não tardaria a suportar em prestações suaves sob a forma de créditos pessoais “para obras em casa” que depressa começaram a apertar os calos empresariais e ainda nem tinha começado o descalabro financeiro que aterrou nos colos de uma multidão alimentada pela ilusão de uma vida melhor e depressa.

 

Comerciais muito ligeiros

 

Entretanto, os comerciais ligeiros envelheceram antes do final do contrato de ALD e parte dos lucros obtidos pelos comerciantes júnior seriam investidos na diferença entre um chasso desvalorizado à bruta pela própria lei da oferta e da procura e um carro novo a estrear com imensa cavalagem e prestação a condizer, mesmo com um generoso valor residual deixado para o fim que nunca acontecia.

O fim, mas o da ilusão, acabaria por chegar para muitos com o súbito desaparecimento dos bólides às mãos das empresas contratadas para os recuperarem depois de várias prestações baterem no poste.

E com a aflição da esmagadora maioria desses pequenos empresários em nome individual falidos começaram a diminuir de forma drástica as vendas dos diesel dois lugares enquanto aumentavam na proporção os trabalhadores precários, aqueles que aceitavam quaisquer condições para poderem pagar as dívidas às instituições financeiras e ainda conseguirem honrar compromissos como a renda da casa ou a escola dos filhos.

 

Antes da entrada na terra da fantasia milionária, quando a classe média se concentrava na procura dos melhores e mais estáveis empregos e depois acrescentava o tal part-time na economia paralela, a tal dos bancos rebatidos nas carrinhas, o lucro era limpo, livre de encargos, e a gestão familiar era feita com base na poupança desse dinheirinho a mais que dava para as férias e outros luxos menores.

Mas depois de reconvertidos à máquina montada para facilitar o endividamento, a certeza de um permanente florescimento da economia que toda a gente acreditou possível, os portugueses (como outros europeus) alteraram o paradigma e as contas passaram a ser feitas em função de estimativas de crescimento, as falsas expectativas que tornaram a poupança num desperdício de tempo para quem queria ter já a bochechos aquilo que poderia ter depois sem alcavalas e toda a gente em redor fomentava, o Estado também – por muito que não fosse esse o discurso institucional -, esses investimentos na qualidade de vida muito acima do que os rendimentos permitiriam, mesmo que jamais acontecesse uma crise que os pudesse comprometer.

 

Mas está a acontecer.

E mais uma vez a frota de veículos de mercadorias começou a ser renovada em consonância...

 

 

(*) Os matatus são carrinhas de nove lugares do tipo Toyota Hiace que prestam uma espécie de serviço alternativo de transporte público em vários países africanos.

 

publicado por shark às 11:25 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 19.06.11

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA

Um gajo chamado Paulo Morais que, fiquei agora a saber, foi vice-presidente da Câmara Municipal do Porto afirmou perante outras câmaras (as de televisão) que o principal centro de corrupção deste país chamado Portugal é nada mais nada menos do que a Assembleia da República.

Ou seja, o indivíduo aponta para um dos principais pilares do sistema democrático como um dos seus principais cancros, com o beneplácito, entre outros, do Bastonário da Ordem dos Advogados (também presente na ocasião).

Das duas uma: ou o Paulo Morais sabe do que está a falar e pode prová-lo e estamos perante um assunto demasiado sério para ser remetido para o momento fait divers dos noticiários ou, assim seja, trata-se de mais um papagaio irresponsável dos que minam a credibilidade da democracia por lhes prestarem demasiada atenção.

 

 

Em qualquer dos cenários possíveis acima, ou eu estou mesmo a tornar-me num outsider disto tudo ou deveriam produzir-se consequências.

Começo pelo cenário aparentemente menos grave para o país.

Podemos então pressupor que o tal Morais é um daqueles fala-baratos que se empoleiram num qualquer palanque de circunstância e manda umas bocas para chamar as atenções.

Bom, nesse caso, o tal Morais é uma ameaça para a Democracia porque ao enxovalhar os seus órgãos representativos está, por inerência, a enxovalhar o sistema no qual pelos vistos até já protagonizou um cargo com alguma relevância mesmo em termos nacionais. E então será normal prever que o fulano vai ser chamado a uma comissão parlamentar de inquérito para fazer prova das suas alegações e, neste cenário, ter que desmenti-las e sofrer as consequências legais das suas difamações de um todo que engloba centenas de potenciais suspeitos.

 

Mas existe a hipótese sinistra de o Paulo Morais ser afinal um homem que sabe demais e por algum motivo entendeu tornar públicos os seus conhecimentos na matéria, embora sejam sempre de desconfiar as acusações atiradas a eito para uma plateia sem nomes que as possam consubstanciar.

Se esta for a realidade factual estamos perante uma acusação da maior gravidade pois a corrupção ainda é um crime e trata-se de um problema de consequências imprevisíveis pelo que pode representar.

Nesse caso, julgo eu, impõe-se na mesma chamar o Paulo Morais perante um qualquer mecanismo da Justiça que lhe imponha a concretização das suas insinuações, nomeadamente pela nomeação directa das pessoas envolvidas e dos exemplos concretos da tal corrupção que estará sediada num, senão no, mais importante dos mecanismos de defesa desta Pátria e da sua população.

 

O que me assusta no meio disto tudo é a reacção relativamente indiferente da Comunicação Social ao teor de uma acusação tão séria à Assembleia da República. Relegando um facto destes para um plano secundário só podemos concluir que ou os jornalistas são todos uns imbecis (o que alguns até parecem comprovar) ou estão de alguma forma coniventes com o tal fenómeno de corrupção que um tipo que nem é um ilustre desconhecido alega, não é o Coelho da Madeira ou assim, e assobiam para o lado de forma displicente e que os torna suspeitos de cumplicidade num esquema organizado de destruição do país (sim, é esse o efeito da corrupção por onde ela passa).

 

Seja como for, eu sou um cidadão português e preciso de acreditar em duas coisas: que a Assembleia da República é constituída pelos representantes eleitos pelo povo de que faço parte para falarem e agirem por mim (e eu não pactuo com a corrupção) e é uma instituição na qual posso depositar a minha confiança e, a segunda coisa, que a Justiça deste país possui os meios ao seu alcance para averiguar de imediato a veracidade das alegações do Paulo Morais e, uma vez apurados os factos, dar início à punição dos (alegados, eu sei) prevaricadores.

 

Se falhar qualquer das duas convicções acima enumeradas resta-me optar entre a emigração, a apatia cobarde ou a luta armada.

publicado por shark às 16:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Sábado, 11.06.11

A POSTA NUMA JUSTIÇA MENOS CEGA

Sou propenso à adopção de um Código Penal mais severo para os crimes que a todos enojam. Nisso, Lei alguma deveria contrariar a voz do povo a quem visa proteger . O que sentimos, o grau de repulsa, deveria determinar a medida da compensação que as punições representam, a par com a necessidade de preservar a sociedade de algumas aberrações que preferimos enclausuradas.

Contudo, e em perfeito antagonismo com o espírito da coisa acima descrito, tendo a dedicar alguma solidariedade para com aquele tipo de criminoso que em nada nos intimida porque não magoa seja quem for nem lesa os interesses de quem é mais vulnerável às perdas.

 

Mais concretamente, falando dos três piratas informáticos que foram agora presos acima de tudo pela ameaça que representam em termos de propagação do apelo à desobediência civil e de payback relativamente a grandes corporações e poderes políticos que cada vez mais percebemos estarem na origem de quase todos os males do mundo, não consigo sentir-me, enquanto cidadão, hostil a esses três marginais que o são (considerando as opções milionárias possíveis para gajos tão bons nisto da informática) por opção própria e porque acreditam que é preciso alguém tomar iniciativas para despertar as gentes da letargia que é o seu maior inimigo nesta guerra em que somos cada vez mais os perdedores.

Nesta perspectiva vejo os três homens agora apanhados como vítimas do desequilíbrio de forças que tentaram combater com a sua sabedoria num domínio onde se podem explorar as escassas vulnerabilidades do sistema montado para nos transformar a todos em escravos camuflados de uns quantos poderosos, como no passado aconteceu com diferentes contornos e protagonistas mas idênticas motivações.

São presos políticos aos meus olhos e não passam de vítimas, de prisioneiros de guerra num conflito para o qual ainda muitos não estão mobilizados porque não perceberam a dimensão do problema que nos afecta a (quase) todos por igual e que é a perda de controlo do sistema financeiro devido ao erro de construção de base do sistema capitalista que faz depender a respectiva sobrevivência de um ritmo de crescimento impossível de garantir sem perdas significativas de regalias por parte daqueles que o sustentam, a multidão dividida para que continuem a reinar os responsáveis por todos os excessos que nos ameaçam.

 

Não é de ideologias que se trata, mas da constatação óbvia da falência do modelo em que investimos a maior quota das nossas existências, afastados daqueles que mais amamos e daquilo que mais gostamos de fazer com o tempo curto de que dispomos.

É essa verdade que arrasta homens como aquele trio agora detido para uma luta que só assusta aqueles que julgam terem mais a perder e nos tratam a todos como crianças de colo incapazes de sobreviver sem os brinquedos que a máquina se esforça tanto para tornar indispensáveis nas nossas consciências moldadas de acordo com a voracidade mercantil.

 

É essa a realidade que me leva a criar empatia com estes zés do telhado a quem acredito que um dia, num futuro não muito distante, iremos homenagear como heróis de uma revolução que está a acontecer à revelia da esmagadora maioria daqueles a quem ela mais pode interessar e da qual ainda nem se deram conta.

publicado por shark às 15:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Segunda-feira, 23.05.11

A POSTA NA DEMOCRACIA DE TELENOVELA

Confesso-me saturado deste jogo do descrédito entre socialistas e social-democratas. A cada dia a Comunicação Social confronta-nos com uma nova suspeita, uma nova acusação, um novo aditamento à lápide da credibilidade das principais alternativas para um país em aflição.

Vejo os principais candidatos a Primeiro-Ministro de Portugal aproveitarem o único debate para se provarem mentirosos, algo de prever desde o desabafo de Passos Coelho quanto às negociações com Sócrates sem a presença de testemunhas e que nos deixou apenas com a certeza de que um dos dois é um mentiroso.

 

Claro que é fácil apontar de imediato o dedo ao suspeito do costume, mas confesso que me basta ficar com a certeza de que tenho cinquenta por cento de hipóteses de contribuir para eleição de um fulano sem honra e sem palavra, algo inerente à condição de aldrabão seja de quem for, para me sentir desconfortável.

Além disso, não é difícil encontrar mentiras (ou omissões, ou incoerências ou o que quisermos chamar-lhes) no percurso e no discurso do oponente mais destacado ao líder socialista. Basta estarmos atentos ao que os jornalistas nos oferecem para percebermos que não há inocentes nesta forma corrente mas nem por isso correcta de fazer política.

É perturbador assistir ao esforço permanente de emporcalhamento recíproco que se adivinha para os próximos dias pelo que já se vê, algo que no mínimo afasta as prioridades sérias do centro das atenções numa altura em que os indecisos são às centenas de milhar.

 

E ainda mais assustador o cenário se torna quando olhamos com mais atenção as restantes alternativas ao nosso dispor...

publicado por shark às 20:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Terça-feira, 17.05.11

CRISIS? WHAT CRISIS?

Dá a sensação, pela atitude, que muita malta verbaliza a crise mas pouca acredita mesmo a sério que ela se venha a fazer sentir com maior dureza ainda.

publicado por shark às 13:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Sábado, 14.05.11

DIREITA VOLVER

Assusta-me, esta evidência de que o CDS/PP está mais preparado para ser Governo do que o principal partido da oposição.

publicado por shark às 15:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 09.05.11

ELES QUE SE FEDEREM

Um dos argumentos que habitualmente me esfregam nas ventas de cada vez que arrisco assumir o meu eurocepticismo é o de que enquanto entraram os milhões que melhoraram a nossa condição de vida não refilei.

Por acaso até refilei, quando percebi que investimos os ditos em cursos de formação da treta enquanto outros apostavam na dinamização da economia onde ela mais precisava. Mas isso não evita deixar-me sempre em maus lençóis perante aqueles que acreditam numa Europa unida e até federada.

 

Jamé, digo eu, a essa ideia tão peregrina aos meus olhos como a de uma Ibéria que me revolve as entranhas por lhe perceber a única e mesquinha motivação económica, equivalente em muitos aspectos às que impulsionam os euroentusiastas.

No entanto, e mesmo podendo alongar esta posta até quase à fronteira com Espanha com uma argumentação mais sustentada, existem alguns fundamentos que acredito razoáveis para esta minha aversão a qualquer tipo de fusões ou de federações ou mesmo de uniões que transcendam a simples associação de interesses económicos e financeiros, com Schengen e tudo mas sem o alinhar pela mesma bitola dos outros em matérias que dizem respeito apenas à soberania nacional da qual não abdico, ainda que muitos a dêem por perdida na sequência dos nossos problemas com o pilim.

 

Eu não acredito no modelo europeu de tendência federalista e jamais o levarei a sério enquanto nos Estados Unidos da Europa não deixarem de existir coisas tão estapafúrdias nesse contexto federal como haver diferentes salários mínimos nos Estados-Membro. É como imaginar salários mínimos distintos na Estremadura e no Alentejo.

Também não papo o grupo de uma Europa federada com exército comum enquanto houver países como a França e o Reino Unido a intervirem na Líbia tendo a Alemanha a manifestar o seu repúdio para quem a queira ouvir.

Aliás, isso deixa-me até de pé atrás quanto ao discernimento dos nossos parceiros europeus em caso de conflito de interesses directo entre dois ou mais dos restantes países da União. Basta uma seca prolongada para a questão das fronteiras mudar de figura e percebermos o que vale de facto esta subordinação a um poder central europeu.

 

Claro que toda a gente adivinha o apocalipse subsequente a deixarmos de pertencer a essa árvore das patacas que afinal produz euros, mas eu sou daqueles que gostam de acreditar que é na adversidade que os portugas mostram o seu melhor e recuso-me a aceitar a noção de que somos um país de putos incapazes de se orientarem a sós e sem a mão que nos embala o berço, sem esses tutores que, de resto, nem se têm revelado tão incólumes assim aos abanões externos desta maravilha que é a economia global.

 

Por isto e mais uns pós não embarco no grande sonho europeu. Não o acredito viável, não o acredito indispensável e não o acredito capaz de sobreviver aos extremos da adversidade, tão evidentes os nacionalismos à flor da pele.

 

E por isso, mais uma questão de instinto que me diz ser mesmo uma má ideia e a hesitação finlandesa comprova, só aceitaria uma ligação europeia isenta de interferências em assuntos que, em última análise e com ou sem tratados, quando toca a doer cada país trata dos seus.

 

Eu sou um português em aflição e mesmo assim sinto-me capaz de tratar dos meus.

publicado por shark às 14:56 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Sábado, 07.05.11

PRESOS POR TER NET E PRESOS POR NÃO TER

Sempre investi no optimismo moderado no que respeita ao efeito da circulação acelerada da informação na internet. Se, por um lado, as revoluções já iniciadas e as que não tardarão a produzir-se em nações onde tal seria impensável, com as redes sociais a assumirem um protagonismo que me favorecia a melhor expectativa, acabam por constituir uma vitória para valores que nos são gratos, liberdade e democracia, não é menos verdade que a internet pode constituir uma ameaça real para qualquer cidadão pela crescente credibilidade atribuída a tudo quanto circula sem filtro na rede que apanhará sem dúvida muito peixe graúdo pela exposição dos seus esqueletos ocultos mas da mesma forma poderá conferir golpes irreversíveis em reputações comprovadamente imaculadas.

 

O dilema existe e já deu origem a algumas intervenções do foro jurídico, primeiras investidas do longo braço da lei no mundo virtual onde impera, pela própria dinâmica da net, a da selva. Os mais habilidosos têm ao dispôr uma ferramenta onde estão agora a entrar, depois da fornada inicial de gente maioritariamente jovem ou com formação superior, pessoas de todas as idades e percursos, fascinadas pelo fenómeno e sem o calo que as defenda das múltiplas armadilhas tão fáceis de criar por qualquer espertalhão.

A opinião pública, cada vez mais determinante nas opções dos decisores políticos a nível mundial, está pela primeira vez na História a fazer-se fora do âmbito dos media ou da propaganda tradicionais e já existem sinais claros do quanto cresce a influência deste novo meio na evolução das ideias e na formação de opiniões.

 

É aqui que entramos no terreno movediço do embuste, da bombástica divulgação de factos e até de alegados documentos cuja autenticidade ninguém pode validar, coisas que acabam por se desmascarar por questões de pormenor tão infantis como os seus criadores. O problema é que os diversos poderes podem dispor dos melhores e a neblina do anonimato é fácil de arquitectar.

Ou seja, é perigosamente fácil dar início a pelo menos um boato suficientemente propagado para obter o efeito da mentira mil vezes repetida e que no caso concreto pode ecoar junto de milhões.

 

Parece uma questão irrelevante, uma ameaça hipotética. Mas não é. A net, ironicamente um símbolo moderno da liberdade de expressão, é uma ameaça tão séria para as democracias que a promovem como para as ditaduras que a tentam silenciar.

 

Se para os tiranos em funções a internet pode assemelhar-se a um aríete capaz de fazer desmoronar a muralha da desinformação sempre tão eficaz na subjugação dos povos, para os aprendizes de feiticeiro que tanto se esforçam para dominarem os media pode antes surgir como a chave da porta para a propagação de elementos fulcrais para influenciarem com igual eficácia as multidões necessárias para, por exemplo, alterar o sentido de voto num plebiscito eleitoral.

 

E se os meios se distinguem em tudo, nos fins existe um paralelo assustador e para o qual o único mecanismo disponível, o recurso à Justiça, assume quase sempre o rosto do papão para a liberdade sagrada que os cibernautas exigem mas em última análise podem com essa euforia libertária hipotecar.

publicado por shark às 22:52 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Terça-feira, 26.04.11

A POSTA QUE O PASSADO JÁ NOS ENSINOU E O PRESENTE EXAMINA

Assistimos, e a coisa arrasta-se há semanas, às imagens de gente abatida a tiro por polícias, exércitos ou mesmo mercenários contratados por poderes contestados pelas respectivas populações.

É hediondo sob qualquer perspectiva e até o mais convertido a qualquer causa deveria enojar-se de qualquer participação directa ou indirecta em tal infâmia.

Quando um líder ordena o uso de força excessiva contra os seus cidadãos comete uma traição à sua Pátria, para além de incorrer precisamente naquilo que qualquer sistema democrático pretende impedir, o abuso de poder que só é possível quando um povo confia aos seus governantes o livre arbítrio na escolha de como proceder quando, por exemplo, um número significativo de pessoas se revolta e sai à rua para manifestar as suas razões.

Esse poder excessivo só se faz sentir quando não existe ou simplesmente soçobra a democracia a sério num país e de repente, como se tem visto ao longo da História da Humanidade e se vê agora em directo pelos canais de televisão ou na internet, as populações vêem virar-se contra si os meios adquiridos sob o pretexto de manter a ordem e preservar a soberania. Se para invocar este último os tiranos necessitam de uma ameaça externa, um inimigo forjado ou mesmo real, para o primeiro existe a necessidade de regras elementares de contenção e de poderes efectivos para contrariar eventuais excessos na respectiva interpretação.

 

Ou seja, os povos que agora morrem pela mudança foram os mesmos que se deixaram embalar no canto de sereias maquiavélicas e ignoraram a emergência da democracia como único entrave a este tipo de situações.

E é precisamente a democracia que muitos no nosso lado burguês da questão, este hemisfério norte à beira de uma convulsão por contágio facilitado pelos efeitos de uma crise financeira sem final previsto, contestam agora enquanto culpada de todos os males de que a incompetência de muitos, a ganância de uns quantos e o oportunismo de alguns saem incólumes por via do branqueamento mediático das suas (más) acções.

O passo seguinte deste meu raciocínio é simples.

 

A manter-se este ritmo crescente de abandono dos mecanismos da democracia ao nosso dispor, abstenção crescente e similares, descrédito permanente das classes políticas e dos próprios órgãos do poder e outras cavadelas na sepultura onde onde um dia a nossa liberdade irá jazer, o caminho ficará escancarado para os espertos, os carismáticos, os populistas, os extremistas que angariam apoio popular pelo timbre mais grosso na postura e no discurso, potenciais ditadores daqueles que o passado provou exímios na manipulação da própria democracia enquanto trampolim.

Aconteceu no passado, no nosso passado, e no de muitas outras gentes incapazes de discernirem a tempo dos custos elevados, dos riscos exagerados que corremos quando desertamos ou enfraquecemos a difícil construção de um regime decente com um sistema funcional.

 

Os povos que agora morrem pela mudança foram os mesmos que não levaram a sério a hipótese de um futuro com as contas trocadas, os mesmos que sempre partiram do princípio de que o bom senso ou, no mínimo, um pouco de decência por parte dos seus líderes e respectivos séquitos de acólitos bastaria para manter as coisas tranquilas e se evitar sempre o pior.

Portugal ainda é um membro de pleno direito da União Europeia, mas encontra-se refém de uma decisão a tomar por outra nação, a Finlândia, que pode, há quem o afirme, empurrar-nos para a bancarrota e para todas as consequências a nível social que isso implica. Para cenários caóticos como os vividos pelos gregos mas com a situação económica sob a alçada desta Europa egoísta e ingrata que nos pode deixar cair, coisa impensável não muito tempo atrás e aparentemente impossível de se verificar perante idêntico problema em Estados-Membro com mais relevância económica ou apenas com mercados maiores e mais apetecíveis do que o português.

 

Perante a simples, e espero que remota, possibilidade de nos entregarem à nossa sorte no vórtice do furacão tudo passa a ser possível no contexto de degradação da imagem dos diversos poderes em quem deveríamos confiar para combatermos o que de mau aí venha. Tudo passa a ser possível, aumentando de forma exponencial o risco de coisa séria na inversa proporção da perda efectiva de credibilidade e, por inerência, de autoridade dos escolhidos para nos conduzirem por tal breu.

Isto não é ficção, as lições da História, da nossa História, estão aí para o provar.

 

E olhando o exemplo dos outros, os que vivem (e morrem) agora no caos de autênticas guerras civis que a falta de uma democracia sólida declarou e analisando bem as escolhas dos países mais poderosos quanto aos palcos da sua intervenção, não vejo no horizonte, em caso de bronca da grossa, alguém interessado em nos deitar a mão.

publicado por shark às 21:23 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Quarta-feira, 20.04.11

A POSTA QUE ÀS VEZES MAIS VALE O SOFÁ

Com pelo menos uma televisão (SIC Notícias) a transmitir em directo a partir das imediações do Estádio da Luz, os desordeiros assumem aos poucos o protagonismo que o futebol acaba por perder no meio da balbúrdia.

Depois dos desacatos ocorridos no período que antecedeu o último Benfica-Porto, as claques organizadas já justificam cobertura em directo à chegada para poderem entoar cânticos insultuosos para os anfitriões e adversários, borrifando gasolina no ambiente já sobreaquecido por algumas escaramuças.

 

E então é este o clima retratado pelas imagens que nos chegam ao ecrã: um sururu envolvendo adeptos benfiquistas, com cidadãos a reclamarem alegada carga intempestiva por parte da polícia; a chegada do autocarro com a equipa portista, recebido com bolas de golfe, a chegada da ululante claque portista, evocando os melhores dias de Átila e os seus hunos, com o repórter de imagem a filmar um tapete de vidro partido (garrafas) até chegarem os gorilas da segurança do próprio estádio para impedirem a recolha de imagens do ambiente magnífico que os clubes proporcionam para as famílias se motivarem a irem ver bola ao vivo.

Tudo isto em escassas dezenas de minutos, mais de uma hora antes do início da partida propriamente dita.

 

Um gajo, sensatamente abancado no seu sofá à prova de tumulto, assiste a este directo televisivo e, naturalmente, cogita.

É muito preocupante o nível de tensão que rodeia todos os clássicos do futebol português e o poder intimidatório das claques parece aumentar a cada jornada (dita) desportiva, acrescendo o visível excesso de zelo, na proporção, por parte dos agentes da autoridade cada vez mais incapazes de conterem a multidão agressiva ou simplesmente assustada.

A preocupação é legítima, pois se contra os abusos dos hooligans ou similares podemos contar com os polícias, nos abusos destes últimos não podemos contar com a ajuda dos outros.

 

Entretanto parece que sim, vai haver um jogo de futebol. Mas, conhecendo o calibre dos intervenientes e a sua apetência pela picardia, há fortes hipóteses de o espectáculo, triste, acabar por se transferir do relvado para as bancadas.

publicado por shark às 19:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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