Quinta-feira, 16.12.10

(EN)FORCADO AMADOR

Decidiu enfrentar com coragem o momento, oferecer o peito à morte como um soldado sem medo, olhos nos olhos com a besta interior que há muito o queria tomar de assalto consigo a fugir, lá dentro, fora de si naquele momento em que reunia finalmente a determinação necessária, a loucura temporária que a própria lei aceitava como desculpa para quem a conseguia provar.

 

O sol poente reflectido no seu olhar marcava a hora adequada para o duelo dramático que se propunha, olhos nos olhos de um cego para reinar e assim poder mandar em si mesmo e tomar a mais radical das decisões, tanto tempo depois, tantas hesitações e agora via a besta preparada para avançar, diante do seu olhar iluminado, alucinado, alaranjado pelo final de um dia que escolhera para último dos seus.

 

A corda pendurada no galho mais grosso da árvore isolada no cimo de um monte e a besta a soprar mais adiante, preparada para atacar, lá dentro, fora do mundo que aquele momento se preparava para despedir enquanto alojamento de uma vida insatisfeita com a qualidade do serviço prestado.

O olhar perdido no horizonte onde o sol já pousava para assistir na bancada ao momento de um fim, a besta a correr enfim na direcção do cobarde herói que fugia mas pensava que fazia frente ao medo com a força de um nó, um homem nu, um homem só, em cima de um banco de cozinha, ofegante, com a besta poderosa num frente a frente, um homem enlouquecido, das coisas boas esquecido, a sós no redondel, os nervos à flor da pele e o banco inclinado quase sem querer e o nó a apertar o pescoço pendurado de um corpo iluminado pela derradeira luz, a pega de caras consumada sem público a aplaudir.

 

O homem sentado a rir do acto falhado, a corda a partir e a besta dominada num momento trapalhão, o homem nu sentado no chão, as lágrimas limpas dos olhos para aproveitar o resto do ocaso de que apenas por mero acaso seria espectador.

 

O tempo prolongado pelo ímpeto desastrado de um aspirante a matador.

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publicado por shark às 00:52 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Terça-feira, 30.11.10

NUNCA JAMAIS

Nunca te deixes influenciar por aquilo que te possa demonstrar num momento de desnorte, acredita que foi pouca sorte teres a desdita de te confrontares com o outro lado de amores que se querem secretos, que nem sempre se revelam discretos e podem explodir numa simples exibição de uma mera irritação com o rumo que a vida por vezes toma, a que se pode juntar a soma de pequenos focos de incêndio, aqui e além, na mente de quem possa não estar assim tão bem quanto seja seu desejo provar.

Nunca te permitas ignorar tudo o resto que se esboça quando não meto a pata na poça, leviano, e te induzo naquilo que é um engano, a descrença, quando não te privo de argumentos para a esperança, sempre que exibo outra face livre de tudo o que nas horas más me entorpece a consciência do quanto vales para mim.

 

Nunca aceites chegado o fim da resistência, o esgotar da paciência que talvez não faça por merecer a todo o tempo, enfatiza o encanto de que sou capaz no todo que se faz de partes tão distintas, o monstro que me pintas quando te desiludo mas também o que mostro quando tudo não me basta para ti e tento ir mais além, as coisas que faço bem e te rendem à evidência de que a tua tolerância não é investida em vão.

Nunca rejeites a voz do coração quando te verga a uma verdade talvez para ti incómoda, quando a realidade te faz sentir estúpida por cultivares tamanha paixão por um homem que por vezes se revela tão distante da forma como o consegues sentir e por vezes não consegues entender o porquê.

 

Nunca esqueças que para lá do que se vê existem razões inexplicáveis para as coisas aparentemente impossíveis de aceitar.

Nunca inferiorizes o amor ou a paixão perante uma simples reacção impulsiva, deixa que o instinto sobreviva ao duelo com o vilão em que se transforma a razão quando ameaça a felicidade com base numa lógica sem capacidade de entender as emoções, que se baseia em equações sem que nada se prove porque afinal a prova dos nove bate certa no teu peito acelerado que se prefere enganado nas conclusões do que privado das sensações que lhe ofereço quando aceitas as desculpas que te peço, por vezes sem emitir um som, e fechas os olhos, enfeitiçada, ao meu lado menos bom.

publicado por shark às 15:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Domingo, 14.11.10

À SAUDADE QUE MORREU

Saudade adormecida, verdade que se encontrava perdida no beco das negações.

O mimo das emoções fantasiadas, as palavras que se viram negadas quando se erguia mais alto o silêncio contraditório da voz da razão. Palavras que o coração bombeava mas a boca sempre calava quando acabavam de atingir, como um náufrago afogado à beira-mar, o ponto que julgavam ser o da sua salvação.

 

Saudade esquecida, mentira que se julgava escondida na travessa das omissões.

A farsa das imitações mal conseguidas, as palavras que se viram traídas quando subia mais alto o tom acusatório no calor da discussão. Palavras renegadas pelo coração mas que a boca sempre gritava quando tentavam agarrar-se, como trapezistas em plena queda no vazio, a algo que as poupasse à inevitabilidade da sua perdição.

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publicado por shark às 22:28 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quinta-feira, 21.10.10

IMPLOSÕES

Como um barril de pólvora, num canto escuro de um armazém qualquer, parado a observar o seu próprio rastilho a queimar a um ritmo incerto, sem conseguir avançar com uma estimativa para o momento de explodir, sozinho naquele depósito de munições à espera de respostas, de soluções, para os problemas que o consumiam naquele rastilho em sentido figurado a queimar e quem aparecia fingindo soprar apenas ateava a chama e assim antecipava a conclusão do processo inexorável, a explosão inevitável que haveria, talvez hoje, talvez num outro dia, de oferecer todas as respostas por omissão das perguntas que aquele barril de pólvora, isolado num canto do paiol, se colocava, pouco iluminado através das frinchas pelo sol poente, parado a observar o seu próprio rastilho a queimar, conformado, desistente.

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publicado por shark às 11:50 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Segunda-feira, 11.10.10

PARECE QUE SE CHAMAVA JOSÉ

O tom lilás das paredes da sala acentuava a escuridão natural no exterior daquela casa construída onde mais ninguém quereria viver. O sol raramente conseguia romper a barreira de nuvens quase permanente, uma neblina insistente que dava à casa ali plantada um estatuto de assombrada e nem o carteiro lá ia, de resto nada o justificava, pelo estranho temor que inspirava aquele micro-clima azedo que seria o escolhido de um homem sozinho como albergue dos seus dias sem interacção social.

 

As gentes do povoado mais próximo, quilómetros abaixo, tantas curvas apertadas que mais pareciam anos-luz, desejavam tanto a sua presença fugaz como ele estimulava a dos que temiam aquele que não se deixava conhecer.

Era apenas um homem e o seu destino, um eremita, um inquilino daquela gruta com telhado construído apenas para lhe disfarçar a condição. Era um homem sozinho que alimentava de forma voluntária aquela solidão, entretida no cultivo do terreno minúsculo que se conseguia resgatar no meio da aridez circundante onde nem a chuva era abundante senão nas encostas daquela montanha inóspita sem nada que pudesse ser interessante para alguém que não uma pessoa diferente como aquele homem sozinho na casa onde a luz feria os olhos quando acontecia porque quase nunca existia e mesmo aí ninguém a incentivava a regressar.

 

Era escuro também o olhar daquele homem sozinho que plantava o que comia e ainda lhe sobrava um pequeno espaço rodeado de rede onde um pequeno bando de galinhas mais um galo cobridor que também funcionava como despertador faziam criação.

Ninguém sabia o que aquele homem sozinho fazia antes de pagar a construção daquela casa cinzenta na fachada como a expressão do homem que um dia a mandara construir a um empreiteiro da região. Mas a ninguém ocorria perguntar algo ao homem sozinho que cultivava o silêncio com a sua atitude tão agreste que quase soava hostil aos habitantes da pequena vila instalada no sopé da montanha, indignados pela ignorância, intimidados pela irrelevância das suas opiniões quando se perdiam em especulações acerca do homem sozinho que há mais de vinte anos pisara pela primeira vez aquele chão.

 

Por isso o deixavam em paz no cume, isolado, embora entendessem como um pecado a sua rejeição, a forma como não lhes confiou o privilégio da integração e dessa forma acabaria por ser ele quem descaradamente os excluiu do seu mundo a sós no topo da montanha onde ninguém gostava de ir.

Chocava-os essa forma de estar, individualista, do homem sozinho que abandonava a vista no horizonte limitado pelo nevoeiro cerrado e recordava sem cessar tudo aquilo que o levara a optar por aquela existência medonha aos olhos de quem não lhe conhecia as fundações e precipitava conclusões para colmatar o desconfortável vazio de informação.

 

Pouco mais sobrava do que o esqueleto quando o encontraram tombado sobre o tampo da mesa de cozinha, muito tempo depois da sua última passagem pela povoação, apanhado de surpresa pelo coração enquanto recordava os filhos desavindos, emigrados, que deixariam ali ficar, abandonadas no cimo da montanha, a casa e as memórias de um homem sozinho cujas ruínas jamais alguém voltaria a pisar.

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publicado por shark às 14:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quarta-feira, 01.09.10

TRANSIÇÕES

Sentou-se à beira de um precipício, de uma maneira que facilitasse o suplício da vertigem que se queria impor, talvez uma última viagem para um sítio que a fé pintava melhor, a hipótese radical de decidir o seu próprio final ignorando o pecado mortal subjacente a essa forma indecente de voar para a deserção.

 

Olhou em volta para se certificar da solidão que mais o serviria, a decisão que tomaria sem influências do exterior, sozinho naquele lugar inacessível a quem o pudesse dissuadir caso entendesse partir de repente, inclinando o corpo para a frente, a gravidade da situação, a vontade de contrariar o instinto de conservação que o fazia hesitar.

 

Enchia o peito de ar como se tentasse ganhar a coragem que sabia não passar de mais uma miragem sem nexo no horizonte da sua alucinação e acelerava ainda mais o coração que parecia querer reclamar o seu direito a participar no momento da votação, qualquer que fosse a opção tomada, a democracia de fachada à mercê da cabeça que arrastara tudo o resto até ali.

 

À beira de um precipício, ganhando o tempo necessário para o despertador tocar e assim o salvar, acordando-o para o pesadelo alternativo que, no seu entender demente, a realidade tinha sempre presente para lhe oferecer.

publicado por shark às 15:24 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 21.08.10

PAREDES MEIAS

O papel de parede florido começou a descolar, começou a descascar a fruta podre, estava por detrás uma parede esburacada pelo tempo e pelas infiltrações que a corroíam aos poucos e o papel, cheio de flores, conseguira até então esconder a quantidade tão imensa de humidade que se podia ali plantar um pequeno jardim.

 

Começou a perceber, por fim, a dimensão do equívoco quando do papel de parede florido já só restavam pequenos ramalhetes pendurados em pregos que antes haviam servido para as imagens entretanto amarelecidas de um tempo passado a fingir.

Só sobravam lembranças antigas de dias em que aquela casa sabia sorrir e as paredes pareciam canteiros e tudo era possível de ambicionar, um palácio até.

 

Canos ferrugentos à vista, como veias numa ferida aberta impossível de sarar. Aquela parede parecia possível reparar, mas não passariam de remendos que apenas adiariam, como o papel colado, adesivo, um final que não poderia ser feliz.

A parede degradada, apesar de disfarçada, não tinha salvação e agora a constatação era impossível de ignorar, o papel florido a destapar a gangrena interior e já jaziam murchas as suas flores aos pés da parede que cuspia agora aquela pele para que a deixassem morrer enfim.

 

Resistia a olhá-la assim, numa espécie de despedida, mas sabia que a vida não poderia continuar com a ferida a infectar e o tempo implacável a tornar cada vem mais inviável uma qualquer reparação, panaceia, parecia-lhe má ideia prolongar a vida daquela casa de uma forma artificial.

 

Acabaria afinal por montar uma tenda lá fora, incapaz de se afastar daquelas paredes que abraçara como refúgio e que justificavam um subterfúgio que o mantivesse por perto até que as ruínas desabassem sobre o seu sonho pueril e pusessem fim à esperança patética que alimentava no coração de que talvez ficando sozinhas aquelas paredes lograssem a sua regeneração.

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publicado por shark às 15:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Segunda-feira, 16.08.10

AMOR URBANO DE PENDOR MODERNO

Descobriram-se em simultâneo, numa troca de olhares ocasional. Como que hipnotizados, fixaram os olhos um no outro e sentiram por dentro o germinar de uma nova e poderosa emoção que não ousaram tentar reprimir.

O tempo, contudo, não parava de correr e eles sabiam mas apenas conseguiam contemplar aquela visão que os apanhara de surpresa e agora dominava tudo aquilo que os rodeava e afinal parecia apenas um cenário, um enquadramento perfeito para uma história de amor que parecia ter pernas para andar.

Ou rodas, como os comboios que partiam agora da estação em sentidos opostos, duas carruagens com cada um dos elementos daquele romance em hora de ponta a caminho de um subúrbio qualquer.

 

O apito ainda ecoava na estação do metropolitano quando ambos distraíram a atenção com pensamentos corriqueiros, sem paciência para alimentarem a fugaz fantasia porque esta certamente incluiria um final feliz e afinal isso podiam desbundar na boa e sem esforço no cinema ou nas telenovelas.

publicado por shark às 16:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 26.07.10

...ACONTECER

Grita a tua dor, grita o teu amor, agita o teu interior numa imparável revolução que alastre ao teu coração e o liberte da tensão e o desperte para uma emoção genuína, grita a vontade libertina agachada numa cela criada pelo teu temor de sentires a rejeição dos que atinam com a supressão daquilo que lhes pertence e amocham sob o domínio de tudo e todos em seu redor, a gigantesca multidão como um rolo compressor que esmaga a ambição e destrói aos poucos a capacidade de decisão que sabes possuir e por isso deves gritar para que te ouçam e fiquem a conhecer aquilo que estão a perder na sua letargia de seguidores de um modelo comprovadamente infeliz.

 

Ignora aquilo que se diz por aí, o eco da voz do dono, abafa com os teus gritos de revolta o som do sono que tenta adormecer a tua vontade de lutar contra tudo o que te pode privar da felicidade impossível sem a liberdade de gritar o que a alma te sussurra durante os sonhos que aceitas impossíveis de concretizar até ao dia em que decides transformar a voz numa arma e gritar à beira de uma falésia a tua verdade sem grilhões e libertar as emoções do jugo fascista que a maioria impõe.

 

Grita até doer. E depois trata de fazer...

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publicado por shark às 18:02 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Sábado, 05.06.10

COMO UMA DISTRACÇÃO PUERIL

Como a leitura do oráculo gravado na parede de uma gruta onde o nosso destino se previu.

Como a iluminação súbita no túnel do cliché, dolorosa no primeiro impacto e saborosa depois, a luz intensa que purifica a escuridão, que a desvenda na solidão que a conduz sempre às mesmas rotinas de auto-destruição da mais inocente ilusão plantada num jardim secreto dos bastidores.

Como o culto de velhos amores em segredo desvendado pelo ar incomodado perante a evocação de alguns, o ritual sagrado de quem jamais admite esquecer e nunca aceita desistir e joga sempre em mais do que uma frente da batalha por uma felicidade qualquer.

 

O prazer da mentira e da omissão, nada mais se espere de entre os poucos que sobram quando se abdica da beleza em prol de uma esperteza sempre saloia porque corrói quem ludibria e fortalece quem se deixa embarcar na experiência de brincar com a alternância entre a dor do conhecimento em excesso e o sorriso da ingenuidade juvenil.

O céu sempre azul numa pequena porção da existência que se conserva ao abrigo da luz que a pode estragar, tirar-lhe as propriedades mais nutritivas, o apelo das coisas proibidas a que nos sentimos no direito para lá de qualquer tipo de respeito que possamos ter em consideração.

O apelo de um tipo de emoção impossível de obter no contexto de uma vida normal, da monotonia habitual dos dados adquiridos como algumas e alguns tendem a olhar quem distraído se deixa andar e não recorda a possibilidade da evolução de uma fragilidade para um caminho alternativo que implica sair e não permite prosseguir aquilo em que, na verdade, nunca se acreditou.

 

A dificuldade de quem um dia amou mas perdeu a lanterna ao longo do percurso pelo breu, caminhando às cegas até se viciar nessa forma de percorrer o caminho sempre a sós, companhia ocasional encontrada no decorrer de uma cabeçada, de um encontrão, firme na decisão de jamais largar o volante de qualquer meio de transporte que será sempre só seu e nunca lhe ocorre partilhar como é corrente definir entre quem confia sem reservas, ao ponto de deixar de fazer sentido o jogo escondido na batota das ligações.

 

E depois as decisões sempre influenciadas pelas características que permitimos reveladas a bem ou a mal quando aparentemente até insistimos em manter acesa a vela da esperança no meio do vendaval.

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publicado por shark às 17:56 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sábado, 22.05.10

PRIMEIRO ABRAÇO

Leu-lhe no olhar a tristeza e a desilusão de quem viu terminada uma relação que era sonhada para a vida inteira.

Depois leu da mesma maneira a frieza emocional instalada pela revolta sentida na ressaca de maus momentos pelos quais não teria que passar se não tivesse que enfrentar todos os desafios e ameaças de uma vida a sós.

Percebia a sua tendência para desatar os nós nos laços que criava a custo, reflexo condicionado de fracassos que iam retalhando em pedaços a esperança numa felicidade de longa duração, protegia o coração de quaisquer desgostos que lhe acrescentassem uma espécie de calo que endurecia o olhar que lhe lia agora, um olhar que via de fora mas sentia como seu.

 

E foi isso que transmitiu no primeiro abraço que lhe deu.

publicado por shark às 12:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Sexta-feira, 30.04.10

A HIERARQUIA DA RELEVÂNCIA

Percorreu, ensonado, a longa distância que os separava, deliciado por antecipação com o que adivinhava seria a reacção dela à surpresa que lhe preparara ao longo de dias.

Cansado, chegou finalmente ao destino e tentou controlar a emoção que o desesperava por faltar ainda tanto tempo, minutos, eternidade, para poder abraçá-la outra vez.

Ansioso, fumou um cigarro e depois dirigiu-se para o ponto onde iria encontrá-la, preocupado por poder escapar-lhe algum pormenor que não poderia confirmar porque assim iria estragar a surpresa planeada com todo o carinho e atenção.

Esperou, sempre com a cabeça no ar para se certificar que não a perderia no meio da pequena multidão, saudades mal contidas, vontades reprimidas pela distância que os separara até esse dia que sentia especial.

 

A boca denunciou-lhe a alegria quando a viu, num sorriso que ela não devolveu, visivelmente aborrecida com algo mais importante do que o facto de ele estar presente e com isso nem contar.

Tentou perceber o que se passara, grave certamente, para justificar tão estranha reacção.

 

E foi quando recebeu a explicação que percebeu, na hierarquia da importância, a dimensão da sua irrelevância perante o desgosto que outro lhe dera e que se sobrepunha de forma conclusiva a qualquer emoção que a sua presença inesperada pudesse suscitar, e que concluiu, desencantado, que o amor já tinha acabado ou aquela pessoa não era quem julgara até então.

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publicado por shark às 10:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (14)
Terça-feira, 27.04.10

AMOR DE UMA VIDA QUE FOI

O amor de uma vida que foi numa causa perdida que se dilui aos poucos na amálgama de emoções congeladas pelo frio interior, ilusões, talvez pela constatação de que é mais forte a recordação do que a circunstância que a transformou num passado que se deseja repetido, inconsciente, devaneio de uma mente dividida entre o lado confortável da vida e o desassossego inerente a uma paixão descontrolada.

 

O melhor amante numa vida passada, desinteressante por comparação porque ofereceu o coração em vez de usar a cabeça, sem o gosto da aventura e da incerteza, uma relação jamais perdura desprovida da defesa natural para uma presença eventual que nunca enfrenta o perigo de se assumir como um dado adquirido a sua manutenção.

 

O primado da razão como um torno implacável da utopia impraticável que se alimenta de uma força que não provém da cabeça mas de outro lado qualquer, a energia que faz valer o tempo que a vida nos dá. Teimosia ou insistência, obstinação ou persistência que fazem avançar o quebra-gelos na superfície de um mar que às tantas solidificou.

A pessoa que tanto (se) desejou, despromovida à condição de quase uma obrigação a cumprir, um ritual que deve servir, reforçada, a solidez desmascarada pela lucidez traiçoeira que constitui uma ratoeira para todas as coisas que se querem ignorar.

 

A coragem para lutar que enobrece quem consiga perceber que a vida acaba logo ali e que nada vale por si, sem a resistência emprestada por quem tem consciência da hora sortuda que constitui o acaso que nos cruza com quem faz acontecer. A atenção que faz por nos merecer quem consegue despertar sob o gelo de qualquer mar o sono de um vulcão que explode numa erupção de vontades e de ansiedades e de saudades a cada instante, que sacode debaixo dos pés o chão e leva o coração ao rubro como um motor acelerado, prego a fundo, à solta e sem freio no horizonte interminável de uma planície banhada pelo sol.

 

O amor de uma vida que foi, magistral, de olho no tempo onde se perfila o renascimento tão plausível como a alternativa provável à luz da experiência que tanto esclarece como baralha a existência, à vista desarmada, com o inevitável desacerto na previsão especulada.

publicado por shark às 14:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (14)
Domingo, 25.04.10

AQUELA PESSOA

Aquela pessoa deitada, pela multidão ignorada, é uma pessoa que não aceita que lhe estendam a mão.

Aquela pessoa prefere ficar no chão, tenaz, para poder acreditar que é capaz de sobreviver sem a ajuda de alguém.

Aquela pessoa levanta-se sozinha e a mão não será a minha que poderá ser estendida em algum momento da vida daquela pessoa cujo tempo esculpiu na expressão resistência e na vontade determinação, persistência, num caminho que não admite alguém possa traçar a seu lado ou ainda menos em seu lugar.

Aquela pessoa sacode, orgulhosa, o pó. E acredita que mais vale só, mesmo deitada, do que mal acompanhada por quem se arrogue interferir na sua forma de agir perante as coisas que a atormentam.

Aquela pessoa é daquelas que tentam inventar pretextos para justificar toda a dor reprimida, todos os silêncios de uma vida ao leme da sua condição e em função da sua consciência, pois é uma pessoa sem paciência para se discutir.

 

Aquela pessoa já seguiu o caminho que pretende iluminar com a sua luz, pelo seu pé.

Aquela pessoa já escolheu um destino que sem vacilar construiu, pois só assim conduz a sua própria fé.

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publicado por shark às 01:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Terça-feira, 20.04.10

DEIXA-TE EM PAZ

Deixa-te estar onde não te consiga alcançar a minha mão ou mesmo o olhar, ilusão, que te adora a prudente distância, como recomenda a prudência quando o fruto é proibido e o pecado é garantido pela mais ténue cobiça.

 

Deixa-te estar onde apenas o pensamento alcança e o tempo aniquila qualquer esperança que possa trair a lucidez, inatingível, para que não seja concebível qualquer desvio ao rumo traçado, qualquer gesto mais tresloucado que resultaria em catástrofe emocional.

 

Deixa-te estar onde afinal é o teu lugar e permite-me evitar a memória do momento em que um estranho cruzamento de caminhos, coincidência, desvendou a existência de uma vida sem lugar para mim.

 

Deixa-te estar assim, distante, que só o facto de estares ausente me protege de tentações, de me enredar em emoções demasiado intensas que não passam de pequenas peças de um puzzle onde não me deixas encaixar, de um teatro tão amador que não concede margem de manobra sequer para alimentar um sonho qualquer quando fecho os olhos no camarote de onde assisto, a prudente distância, como recomenda a prudência quando os dedos anseiam tocar tudo aquilo que me oferece o olhar ou a recordação que me acelera o coração, à tua passagem pela vida que só me inclui em pequenas parcelas e na maioria delas não passo de um figurante acidental.

 

Deixa-te estar como é normal na tua forma de encarar o presente, uma mulher independente que não hesita soltar o lastro depois de apagado o rasto deixado por quem teve, como eu, oportunidade de olhar para o céu mas depois o perdeu por detrás do nevoeiro que se instala a tempo inteiro em teu redor quando o futuro te soa melhor assim, à distância, no aconchego de uma solidão acompanhada ou de uma companhia mais adequada ao que te apeteça sentir.

 

Deixa-te estar, não precisas responder às perguntas repetidas que não passam de causas perdidas de um mero peão nesse tabuleiro onde és rainha poderosa, uma torre com parede rochosa quando entendes jogar sob regras que não pretendes, na realidade, definir, pois a tua vontade de decidir é soberana e só fazes o que te dá na gana e sem ceder a pressões.

 

E eu deixo-me ficar, sem ilusões, num canto secreto onde tento permanecer tão discreto que acabes por me deixar, à distância, a negar em vão a tua importância enquanto os meus olhos fechados servem de telas para os filmes passados, vidas paralelas, neste espaço interior onde projecto histórias de amor que não passam de ficções para entreter os corações de quem se deixe estar, como tu, a observar ao longe, de fora, o futuro que finge agora tudo aquilo que pareceu num passado que apenas o prometeu.

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publicado por shark às 11:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (29)
Domingo, 11.04.10

AMOR SOPRADO

Naquele campo de trigo conseguia seguir o vento com o olhar, conseguia perceber-lhe o vaguear pelas espigas.

Ali acompanhava as danças sob a luz do sol que nasceu anunciado pelos sopros do céu numa esplendorosa alvorada, testemunha convocada pelo acaso para a plateia de um espectáculo privativo, para observar de tão perto a beleza de um dia no seu parto alaranjado, o escuro da noite rasgado pelos primeiros raios no horizonte para lá da barreira que as serras desenhavam para lhe esconder a magia.

 

Mas esta irrompia por detrás, com toda a força que o sol é capaz de exibir quando chega a hora de expulsar a madrugada para outro lado qualquer, longe daquele campo de trigo onde conseguia apreciar o vento a dançar sobre as espigas pintadas pelas cores emanadas a leste, de onde o dia se agitava numa brisa que se desenhava de forma suave no solo que nesse momento sentiu como fazendo parte de si. Ou o contrário, com os seus pés a criarem um contacto que julgava imaginário, raízes de energia, com a terra que o recebia como mais uma árvore para alimentar, e percebeu que a brisa começava a acariciar-lhe os cabelos que abanavam como pequenos galhos, como pétalas de flores, como se o vento tivesse amores para consumar enquanto decorria a celebração do calor que já se fazia sentir, com o sol a espreitar por cima dos picos mais altos que o faziam sorrir com a pose que não se coadunava com a pequenez relativa, uma pose altiva desmascarada pela grandeza do astro-rei.

 

E o vento passeava pelo jardim do palácio improvisado, o mundo inteiro concentrado naquele campo de trigo onde a testemunha involuntária o conseguia seguir, gravando na memória sensações inesquecíveis que acrescentaria com o amor que fazia agora no chão com a companheira de emoção naquele dia em que o vento, enciumado, tentou em vão destapar com o despeito soprado sobre o trigo que os escondeu, quem olhava para outro lado e nesse momento, nesse pedaço de tempo, já não o seguiu.

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publicado por shark às 22:24 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Segunda-feira, 05.04.10

REGRESSA A TI

Regressa, não deixes que se despeça de ti a pessoa que foste, a pessoa que és para lá das conjunturas e circunstâncias. Olha para dentro e recua no tempo para encontrares a pessoa que falta, adiciona à pessoa que ambiciona ser mais e melhor, acrescenta uma forma de sentir o amor que não queres perdida pelas vielas para onde a vida tentou empurrar, a pessoa que foste, a pessoa que és na essência, recupera a consciência e abandona esse torpor.

 

Regressa, vasculha o interior dessa alma inquieta e filtra enquanto desperta do sono apenas aquilo que te faça sentir mais feliz. Descarta tudo o que se diz e pega fogo às memórias malditas, incendeia as lembranças proscritas e redescobre-te no meio desse calor. Aprende a dar valor ao que verdadeiramente te interessa, não deixes que se despeça de ti a pessoa que foste, a pessoa que és para lá das contingências, de infelizes coincidências cujo preço já pagaste com o pouco que recebeste em troca de tanto que tens para oferecer.

 

Regressa, que o tempo está a passar depressa e essa tua viagem é de ida e volta.

E não deixes mais à solta essa pessoa que te fugiu, acredita que com o tempo aprendeu, neste presente mais perto do coração, o teu futuro mais certo.

 

A tua própria lição.

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publicado por shark às 23:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Quarta-feira, 31.03.10

NA LINHA DE UM HORIZONTE MENOR

Sentiu escapar-lhe por entre os dedos, como areia da mais fina, cada uma das certezas que os factos insistiam desmentir.

Sentiu que estava aos poucos a partir a corda que amarrava o barco ao cais e este partiria também, um dia, para um ponto tão distante do seu apertado horizonte que deixaria de o ver.

Sentiu que estava a perder porque percebia, nas coisas de que desistia, o prenúncio mais óbvio de uma capitulação.

 

Sabia que a desistência jamais seria uma opção que tomaria de forma consciente, mas olhava o presente e constatava que começava a desaparecer muito daquilo que o podia prender à esperança.

Sabia que cada vez mais perdia a confiança num futuro melhor, diante do muro erguido devagar nas progressivas ausências, nos silêncios crescentes, nas tendências preocupantes e sobretudo nas omissões.

Sabia que sentia as mesmas emoções mas não podia forçar uma realidade virtual com a insistência artificial numa aposta quase perdida, numa imagem esbatida de um sonho que desvaneceu.

 

Sentiu aquilo que sabia mas nunca conseguia aceitar.

E descobriu, a custo, que insistia numa ilusão com laivos de uma utopia impossível de concretizar.

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Quinta-feira, 18.03.10

ALMA DE GAZELA

Sentindo-se cativa, a gazela selvagem começou a definhar e nada parecia resultar no sentido de lhe devolver a energia que o seu tratador bem sabia ser maior quando, num tempo anterior, ela corria à solta pela savana e nada a abrandava, nenhum leão a caçava por quão perto chegasse da corredora.


Prisioneira por distracção num breve momento de hesitação, tentava nem olhar para os grupos a passar lá fora, para lá da cerca que a separava da vida como a conheceu.
Olhava para o céu e parecia que voava por instantes, mas depois ficava como pouco antes. Prostrada num canto sem reagir, frustrada por não sair daquela prisão que a limitava no desejo que outrora a motivava para correr.

O tratador, cada vez mais afeiçoado ao seu espécime capturado por mero acaso que a sorte lhe concedeu, olhava igualmente o céu e interrogava a consciência por não possuir a sapiência suficiente para lhe dar a volta e incentivá-la a sentir-se solta o bastante naquele campo imenso que colocara ao seu dispor. Mas ela sabia muito maior o lado de fora e a sua alma corredora não suportava aquela condição que parecia afectar-lhe o coração em algum ponto da cabeça, cada vez mais tensa pela necessidade indomável de espernear.

 

Sentia a falta de contactar com a sua espécie, de poder vaguear em território de predadores em busca da adrenalina que lhe faltava agora e isso atrofiava a sua vontade de correr.
Parecia desfalecer quando tentava uma curta caminhada, o tratador com uma esperança renovada que acabava por ficar pelo caminho da gazela até à porta ou mesmo a uma janela de onde pudesse ver e sentir o sol.
Tinha dias, por alguns instantes, em que quase conseguia sentir-se como dantes mas depressa desistia do esforço em vão. Na cabeça ou no coração algo a impedia de recriar a sensação cuja ausência sentia como uma saudade mas na dura realidade esse esforço que a consumia não bastava para inverter o processo a decorrer.

 

Era ingrata a missão do tratador cuja ilusão de guardar só para si aquele magnífico exemplar igualmente sucumbia aos poucos à verdade diante do seu olhar. Tudo fazia para rejeitar o impulso de abrir o portão e confiar à gazela a decisão de ficar onde fome jamais passaria e nenhum predador a atingiria como as cicatrizes na pele provavam ter sido sua provação.
Contudo, a sua lucidez não lhe permitia ignorar que desfez uma força que tanto admirava e em cativeiro definhava e o seu peito batia descompassado perante o ar desconsolado da sua refém.


Já nem sabia se fizera mal ou bem quando a salvara, sonhador, com a sua habilidade de tratador, de um destino que julgava pior se o caminho anterior a conduzisse a alguma armadilha das que a vida coloca.

Um dia decidiu e o portão finalmente abriu para que a gazela escolhesse a opção que melhor lhe serviria.
Prendeu os olhos, como nunca fazia, num ponto fixo do horizonte e tentou fingir-se ausente para não a perturbar e para de alguma forma lhe permitir quebrar quaisquer laços que a amarrassem ao lugar onde cada vez parecia menos pertencer.
Recordou-a em liberdade, alegre, sempre a correr.

 

E deixou-se ficar à espera, imóvel, até o sol desaparecer por completo no céu, ansioso por encontrá-la ali dentro enquanto voltou, sem pressas, a fechar o portão.

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publicado por shark às 23:28 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)

A ESPAÇOS

Espaços em branco preenchidos pelos dados adquiridos numa ilusão barata.
As peças do puzzle em falta que afinal não encaixam, diferentes fusos horários, recortadas à pressa em tamanhos vários de forma grosseira e depois sai sempre asneira e fica a ilustração por completar.
A interrogação que paira no ar, ameaçadora, fantasma que aparece na hora fatal em que a história se conta mal e não desemboca num final feliz.
Uma árvore arrancada do solo pela raiz, como uma verruga. O tempo que se arrasta como uma tartaruga pelo areal de uma praia tão deserta que questiona a decisão mais correcta que antes se tomou quando o mapa do tesouro ainda tinha uma cruz.
O urro do vendaval que se produz acossado pelo temporal à vista no horizonte, o céu como uma ponte sobre o mar para cada nuvem se reunir às suas parceiras onde a terra começa ou acaba consoante a perspectiva.

 

Espaços vazios ocupados pelos sonhos retirados de cena no cinema interior.
As pastas de arquivo por arrumar, informação inacessível, reunidas em pilhas com altura variável em função de uma arbitrária definição de prioridades, na memória algumas verdades incómodas por com elas se comprovar a existência da mentira que naufragou no meio de uma borrasca.
A preguiça que se torna hipócrita na negligência da desculpa escrita tão ingénua que se torna confrangedor interpretá-la, fraca camuflagem para aquilo que se transforma numa miragem quanto mais próxima estiver do interlocutor.

 

Braços abertos para o amor pela vontade de o abraçar. E olhos sempre fechados, os pormenores ignorados pela necessidade de o preservar.

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publicado por shark às 00:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quarta-feira, 10.03.10

ESPAÇA TEMPO

Um espaço vazio no tempo, consciência dessa falha, dessa ausência que se espalha como vento, invisível, no momento terrível da constatação que é afinal uma confirmação de pressupostos anteriores.
Um espaço oco por preencher com amores de ficção, no sítio onde a verdade começa a doer, aguçada. A vontade sem força, esgotada pelo combate contra a brisa endiabrada que a verga sem perdão, o bater do seu coração mais lento enquanto se esgota o tempo no espaço que deixará vazio de si.
Debandada, desistência, promessa adiada, paciência..., para outra vida que consiga acompanhar a passada do furacão, esse vento destruição de si mesmo também, dissipado depois do seu tempo acabado, do seu momento programado para soprar. Com força para zarpar ao encontro de outro lugar onde exista um espaço vazio.

 

A tempo de não congelarem as lágrimas sob o rigor de um clima mais frio.

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publicado por shark às 23:44 | linque da posta | sou todo ouvidos
Segunda-feira, 01.03.10

TAL E QUAL

Saber deixar correr. A vida, tal e qual. Como um rio sem barreiras ou o sexo sem fronteiras que acontecem porque sim. Indomáveis, imparáveis no seu curso, no leito, nas batidas que se sentem no peito quando as margens se deixam beijar, os corpos a latejar pelo sangue que corre também nas veias amantes como a água naqueles sulcos permanentes de vida a acontecer, tal e qual.

 

E é preciso saber, sem dúvida, deixar correr dessa maneira livre e espontânea, simples e consentânea com o ritmo acertado pelos ponteiros desses relógios tão certeiros que o destino cuida de gerir por nós de forma tão aleatória como a que define o percurso de cada rio até à foz onde desagua e se transforma, por osmose desequilibrada nas proporções, numa nova força, salgada, uma outra energia qualquer, exactamente como gostamos de conceber o melhor fim.

 

Tal e qual, a vida. A correr, deixada assim, à solta pelo tempo marcado para percorrermos o caminho desde a nascente até onde se verifica o ocaso de cada luz individual. Como um rio banhado pelo sol com raios de calor.

 

Como um corpo e uma alma obrigados a deixarem (es)correr, tão simples, o amor.

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publicado por shark às 00:22 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quinta-feira, 25.02.10

O OBSERVADOR

Ela sabia que na janela aparecia um homem interessado em observar. Sempre à mesma hora, todos os dias, no período que reservava para limpar o chão da loja onde trabalhava, do outro lado da mesma rua onde sabia existir o seu voyeur particular.
Depois do desconforto aprendeu a apreciar a situação, o homem que olhava provocava-lhe tesão com o seu interesse descarado, com o seu olhar deliciado com as formas do corpo que ela tentava agora enfatizar.
Deu por si a vestir-se para lhe agradar em cada manhã e tentava insistir nas posições mais reveladoras, decotes arrojados e saias mais curtas no Verão. E ele oferecia-lhe a emoção de constatar que cada dia a começar não prescindia do miradouro na janela onde se fixava naquela mulher apetecível como se sentia, importante para aquele observador insistente e dedicado.

 

Durou alguns anos, o ritual, até ao dia em que ele deixou de aparecer à janela para a espreitar e ela nunca chegaria a saber o que o levara a abdicar de ser o único homem a dar-lhe prazer, sem sequer a tocar.

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publicado por shark às 11:23 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Terça-feira, 09.02.10

EMUDECIDO

Vivia na mesma gaiola onde um dia nasceu. Nada mais conhecia do que aquele espaço e vivia feliz, cantava de uma forma que agradava e tratavam-no bem, sorriam e não raras vezes diziam que era a alegria daquela casa.
Mas um dia colocaram a gaiola muito perto de uma janela e conseguiu pela primeira vez espreitar a rua, outro mundo, e reparou lá ao fundo num bando de pombos que passeavam pelo céu e pareciam celebrar o calor do sol.
Olhou as próprias asas e foi então que se apercebeu da realidade da sua condição, passava o dia inteiro num doce cativeiro em vez de partilhar a alegria de voar em liberdade com os seus iguais.

 

E foi nesse dia que decidiu não cantar mais.

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publicado por shark às 10:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Segunda-feira, 08.02.10

CUIDADOS PRIMÁRIOS

Com pressa. A tapar a pequena fresta por onde se escoa a vida, ao ritmo do tempo que lhe resta, cada oportunidade perdida uma pequena tragédia pois não existe forma de recuar no tempo que continua a escapar a todo o momento pela ferida que se abre em cada vida no milagre de nascer.

 

Liga dura. O campeonato a disputar, até morrer, pelo direito a viver nas melhores condições possíveis, enfaixado o destino por um manto de incógnitas que não permitem vislumbrar o seu futuro por acontecer e que dizem previamente traçado por forças que não podemos entender porque nos são infinitamente superiores, as sortes e os azares que definem o percurso sempre difícil pelo tempo de que dispomos para o percorrer.

 

Penso rápido. Acelero o raciocínio para jamais atrasar cada decisão a tomar porque pode fazer-se tarde, o tempo é como chama que arde até se extinguir para quem deixa de o sentir, no golpe final do tal destino cruel no seu gosto irritante pelas interrogações. A incerteza de possuir ou não a esperteza suficiente para as opções a fazer, para entender o carácter urgente de saber escolher o desvio mais adequado para fintar o tempo apressado que nos toca de raspão (em termos cósmicos) e nos fere o coração com o mesmo empenho com que o mima com tudo aquilo que de bom a vida nos dá.

 

Enquanto andamos por cá inventamos emergências, atordoadas as consciências pela necessidade de aproveitar o tempo que resta para prosperar ou apenas garantir a sobrevivência, o mote para cada urgência que tornamos prioritária nos dias que não fazem história porque os esbanjamos na triagem das prioridades que apenas servem para nos manter alienados em realidades forjadas em função de objectivos traçados sem ter em conta o tempo que é quem manda afinal e esse não distingue o que é bem do que é mal e segue o seu caminho aleatório pelas diferentes percepções que dele se recolhem, como um rolo compressor sem critério nem rigor excepto na futilidade da sua medição.

 

O tempo que cada coração entende bater até chegar o momento de morrer o corpo que alberga tudo aquilo que somos afinal e que se transfere para outro lugar qualquer como precisamos acreditar para o tempo se justificar de alguma forma, o que desperdiçamos na ilusão de que lutamos mesmo para o viver melhor neste confronto permanente entre o sentido do dever que nos é incutido, vá-se lá saber porquê, e o apelo reprimido do instinto que tudo vê com maior nitidez e nos alerta para a lucidez indispensável que nos acorde para a mais que provável constatação da necessidade de cuidados intensivos para o coração e nunca os primários, as pequenas doses de anestesia ou uma ligeira profilaxia para a sua dor quando lhe falta o amor ou outros remédios essenciais.

 

E os efeitos placebo que aceitamos normais são tempo perdido porque este acaba esvaído na sua lenta hemorragia na realidade com que cada dia nos afasta, (im)pacientes, do prognóstico acertado quanto às hipóteses de salvação.

 

O preço de um diagnóstico errado à doença de um tempo flagelado pela sua mutilação.

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publicado por shark às 11:51 | linque da posta | sou todo ouvidos

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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