Segunda-feira, 07.06.10

A POSTA QUE SEI MESMO

Eu sei o que é o amor.

Ou melhor, acredito nesse pressuposto com a mesma intensidade que outras pessoas dedicam à Fé.

 

Claro que não nasci ensinado e os pais nunca têm muito tempo ou jeito para nos explicar esse mistério da vida, pelo que lá fui percorrendo os caminhos ou os calvários que fazem parte do doloroso processo de aprendizagem que envolve tanta ruptura e subsequente desilusão.

É que os outros, no meu caso concreto as outras, também não nascem ensinados e nos primeiros tempos da paixão pode aplicar-se a velha máxima de que quando a pessoa não sabe dançar até parece que a pista está torta.

Esta fase, que julgamos sempre ultrapassada no final da tempestuosa adolescência, pode ser a responsável por tudo o que sabemos (ou não) acerca do amor. Mas também pode não fazer a mínima diferença.

E depois andamos, adultos, de volta das cábulas para não metermos o pé na argola outra vez.

 

Mas nem é o caso, o meu.

Eu sei o que é o amor.

Sei como o sinto, sei como o anseio, sei como o abraço como a única coisa digna de ser vivida ao longo do tempo que o acaso me oferecer.

Até acredito que sei como é isso do amor nos outros (nas outras, que eu sou muito cioso das minhas preferências), que o identifico no carinho de um gesto ou na luminosidade de um olhar.

São manias, bem sei, mas os outros acreditam no Divino e eu não me ralo nada com isso.

O amor não é visível, por ser um conceito abstracto, senão nas suas manifestações.

O que se faz e o que se deixa por fazer. O que se diz e o que se faz. O que se revela de empenho, de vontade, de necessidade, de resistência.

É esse o amor que se vê, que eu vejo com a clareza bastante para me arvorar da autoridade de dizer que sei o que é.

 

E depois há o amor que se faz na cama que não nos deixa mentir. O amor acaba por se exprimir no meio da voracidade carnal, é transparente, enquanto o sexo é amante mas acelera o coração por mera fadiga e a emoção é muito mais de arritmias.

 

E ainda há o amor incondicional, não é utopia, aquele que fala sempre mais alto do que os obstáculos e os sentimentos mesquinhos que lhe surjam pela frente, que o atrapalham, e nunca mente na hora de se provar genuíno, sem condições.

 

A sua sinceridade espontânea, coitado, até é o que o deixa, muitas vezes, em maus lençóis.

publicado por shark às 22:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (22)
Sábado, 05.06.10

A POSTA NO CAPÍTULO A SEGUIR

O olhar que me ofereces, esse amar que fortaleces contra todas as expectativas, essa vontade de manter (cada vez mais) vivas as certezas de um futuro promissor no qual consideras essencial a minha presença efectiva, não como uma figura decorativa para exibir numa qualquer condição ou para preencher temporariamente uma omissão num domínio qualquer.

O sorriso de uma mulher, transparente, uma sensação melhor, tão diferente da que nos depara todos os dias em rostos hipócritas que nos tentam impingir emoções quando apenas pretendem manter ligações oportunistas na fachada de ilusões contrabandistas que despertam a chama em si.

Um sorriso acolhedor, uma sensação sempre melhor que abraça o olhar que pouso nos lábios que beijo a seguir.

O cheiro que me faz sempre lembrar o motivo que me leva a insistir nessa miragem, nessa hipótese num milhão de ao longo da viagem não precisar da memória para reviver dentro de mim uma história que ambos provamos não ter pressa de conhecer o seu fim.

publicado por shark às 18:53 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Sábado, 22.05.10

PRIMEIRO ABRAÇO

Leu-lhe no olhar a tristeza e a desilusão de quem viu terminada uma relação que era sonhada para a vida inteira.

Depois leu da mesma maneira a frieza emocional instalada pela revolta sentida na ressaca de maus momentos pelos quais não teria que passar se não tivesse que enfrentar todos os desafios e ameaças de uma vida a sós.

Percebia a sua tendência para desatar os nós nos laços que criava a custo, reflexo condicionado de fracassos que iam retalhando em pedaços a esperança numa felicidade de longa duração, protegia o coração de quaisquer desgostos que lhe acrescentassem uma espécie de calo que endurecia o olhar que lhe lia agora, um olhar que via de fora mas sentia como seu.

 

E foi isso que transmitiu no primeiro abraço que lhe deu.

publicado por shark às 12:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Sábado, 15.05.10

NOUTRO MUNDO

Imagina-te num local a bordo de uma nave espacial com as estrelas a brilharem como velas no céu que invade a redoma e produz pequenas explosões de luz na retina desses teus olhos que me contemplam como uma miragem ao longo desta viagem que embarcámos a dois.

Imagina-te pouco tempo depois, despenteada, com uma expressão de pessoa amada, na ponte de comando, no sítio onde se vai alterando a rota em função daquilo que nos impuser o coração a cada momento que vivemos nesse tempo sonhado, quem sabe concretizado num dia amanhã. Imagina-te transportada para uma galáxia distante, nos braços do amante escolhido, do teu homem preferido no tempo em que o quiseres, espaço fora, aqui e agora, a bordo da tua imaginação onde me anseio tentação irresistível, acredita que é possível sentires assim sempre que penses em mim presente em cada vez mais passado e no futuro abraçado num local a bordo de uma nave espacial a caminho de um mundo deserto onde iremos assistir todos os dias, para sempre, a pelo menos três nasceres do sol.

publicado por shark às 13:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Terça-feira, 27.04.10

AMOR DE UMA VIDA QUE FOI

O amor de uma vida que foi numa causa perdida que se dilui aos poucos na amálgama de emoções congeladas pelo frio interior, ilusões, talvez pela constatação de que é mais forte a recordação do que a circunstância que a transformou num passado que se deseja repetido, inconsciente, devaneio de uma mente dividida entre o lado confortável da vida e o desassossego inerente a uma paixão descontrolada.

 

O melhor amante numa vida passada, desinteressante por comparação porque ofereceu o coração em vez de usar a cabeça, sem o gosto da aventura e da incerteza, uma relação jamais perdura desprovida da defesa natural para uma presença eventual que nunca enfrenta o perigo de se assumir como um dado adquirido a sua manutenção.

 

O primado da razão como um torno implacável da utopia impraticável que se alimenta de uma força que não provém da cabeça mas de outro lado qualquer, a energia que faz valer o tempo que a vida nos dá. Teimosia ou insistência, obstinação ou persistência que fazem avançar o quebra-gelos na superfície de um mar que às tantas solidificou.

A pessoa que tanto (se) desejou, despromovida à condição de quase uma obrigação a cumprir, um ritual que deve servir, reforçada, a solidez desmascarada pela lucidez traiçoeira que constitui uma ratoeira para todas as coisas que se querem ignorar.

 

A coragem para lutar que enobrece quem consiga perceber que a vida acaba logo ali e que nada vale por si, sem a resistência emprestada por quem tem consciência da hora sortuda que constitui o acaso que nos cruza com quem faz acontecer. A atenção que faz por nos merecer quem consegue despertar sob o gelo de qualquer mar o sono de um vulcão que explode numa erupção de vontades e de ansiedades e de saudades a cada instante, que sacode debaixo dos pés o chão e leva o coração ao rubro como um motor acelerado, prego a fundo, à solta e sem freio no horizonte interminável de uma planície banhada pelo sol.

 

O amor de uma vida que foi, magistral, de olho no tempo onde se perfila o renascimento tão plausível como a alternativa provável à luz da experiência que tanto esclarece como baralha a existência, à vista desarmada, com o inevitável desacerto na previsão especulada.

publicado por shark às 14:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (14)
Quarta-feira, 07.04.10

À PRIMEIRA VISTA

Um olhar cristalino, um sentimento genuíno daqueles que julgamos perdidos quando a infância se despede.

Um olhar que nos impede de ignorar a mensagem por detrás, aquilo que a alma é capaz de revelar quando se permite espelhada sem reservas no lago tranquilo das emoções serenadas pelo tempo seu amante.

Um olhar que não se revela distante numa pose encenada, não se camufla numa visão mascarada por falsos pretextos, fracos contextos ou qualquer outra distracção desnecessária.

Um olhar que espelha uma memória conservada da emoção menos filtrada pelo processo de erosão que não acontece no coração (que só entende a liberdade) mas apenas na mente que reinventa a realidade ao sabor de caprichos do tempo que arrasta como uma brisa aleatória os detritos de uma história rabiscada numa folha de rascunho condicionada por meros factores circunstanciais.

 

Um desejo sem estímulos artificiais contido num beijo clandestino, apressado, que sela um pacto firmado no devir da confiança que um olhar pleno de esperança jamais consegue ocultar.

publicado por shark às 11:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Terça-feira, 30.03.10

VOLTAS TROCADAS

Teria preferido que a esbofeteasse. Mas não. Ele estendeu a mão e acariciou-lhe o rosto como nunca antes o fizera. E sorriu.

Desarmada, conseguiu suster a custo as lágrimas e entretanto apaixonou-se um pouco mais.

publicado por shark às 19:36 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Domingo, 21.03.10

ANESTESIA

Varre para um canto, ignora, as coisas que te perturbam agora e abraça o passado recente com uma força urgente para preparar um futuro que aconteça. Não deixes que se esqueça o objectivo prioritário e varre o que se revelar desnecessário para debaixo do tapete virtual, concentra-te no essencial como o sintas se é verdade que acreditas, e não se trata de palavra vã, na pertinência de referir a existência de um amanhã.

 

Limpa da memória a parte menos bonita da história por instantes, recorda os momentos importantes que justificam a manutenção deste desafio ao coração e tira as tuas conclusões.
Lembra-te da força das emoções em causa, mesmo perdida, da vontade do outro como era sentida num tempo que ainda não acabou e que nos resta para fazermos do amor uma festa e não uma fonte de ralações que destrua aos poucos as ligações adormecidas, as convicções abaladas, por tudo aquilo que urge varrer para um canto anestesiado, para que deixe de doer.

publicado por shark às 14:33 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 20.03.10

SEMPRE QUE A AMAVA

Sempre que a olhava percebia o privilégio. Sempre que a deixava cometia um sacrilégio e cumpria penitência, perturbado pela sua ausência, abrindo o peito aos requintes da maldade de um algoz chamado saudade que o consumia na câmara lenta, uma sensação que atormenta, um relógio imaginário com os ponteiros em sentido contrário, em rota de colisão com o caminho do coração acelerado pelo tempo quase parado, paradoxal, numa ansiedade fora do normal que o agitava por dentro e lhe baralhava as reacções.

 

Sempre que a pensava incutia mais tentações na vontade que já sentia de a tocar de verdade e de a arrepiar como se sabia capaz. Sempre que a deixava para trás, no seu ponto de partida, sentia a despedida como um castigo, a saudade sem abrigo exposta no olhar que a revelava, a imagem de um calendário com os dias em sentido contrário, no beijo demorado que anseia o tempo parado, contra-senso, e dessa forma acaba por anunciar, intenso, a chegada de um outro tempo que tanto custa a passar.

publicado por shark às 00:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Quarta-feira, 10.02.10

FICHEIRO SECRETO

Ouviu soar a campainha às primeiras horas da manhã e interrompeu de imediato o que estava a fazer. Abriu a porta e deparou-se com o rosto do seu amante secreto, expressão determinada.
Afastou-se para lhe dar entrada e mal teve tempo para balbuciar um bom dia enquanto ele fechava a porta com um pé e a agarrava com os seus braços fortes com a firmeza que lhe conhecia e a arrastava aos poucos para o quarto onde ela bem sabia o que a esperava, já meio despida e ele todo espalhado por cima de si.

 

Ambos sabiam que o tempo urgia e nenhum tempo se perdia a conversar, era o prazer a comandar mais o instinto que os mantinha rotinados naquela visita ocasional mas frequente o bastante para que já nem precisassem de combinar, ele só precisava de aparecer com aquela vontade tremenda tão bem reflectida no seu olhar.
Como uma boneca de trapos via-se colocada na posição que ele decidia enquanto a comia, sôfrego pelos dias de ausência que se impunham para evitarem repetir algum tipo de convenção naquilo que nem assumiam como uma relação mas apenas como um imperativo carnal, uma terapia sexual para algumas das suas lacunas por preencher.

 

E ele preenchia tudo aquilo que havia, dominador, e devassava-lhe o interior com a força do seu desejo, o gosto do proibido que afinal era consentido mas só podia acontecer assim, de surpresa, num momento qualquer do dia onde se cruzassem ou nos raros dias em que soubessem o paradeiro um do outro, o que lhes denunciava à partida a sede daquela fonte de vida que os estimulava a um ponto tresloucado e os empurrava para aquele ritual mantido em segredo mas quantas vezes acrescentado em tesão pelo risco corrido sempre que ele aparecia sem avisar.

 

E ela entregava-se sem hesitar porque não conseguia dispensá-lo dos seus dias tão iguais, tão isentos de emoções poderosas como aquela que sentia quando ele a possuía assim, palavras poucas e só mesmo no fim de alguns minutos de uma atracção animal, inexplicável, que mantinha aquela loucura indispensável entre duas pessoas sem ligação emocional assumida, ligadas apenas por laços de um passado recente que deveria ter-se esgotado num presente que os impedia (mas apenas em teoria) de viver aquele pecado a dois.

 

Ele limitava-se a seguir o seu caminho depois de cumprido o desígnio que o motivava, sabia que pouco durava aquele momento que ela encaixava no seu corpo e no seu tempo e num espaço remoto da consciência que anestesiava e assim não atormentava com sentimentos de culpa que pudessem destruir o encanto daquele apelo que pretendia manter porque sentia que precisava daquela pica que lhe dava o sexo porque sim.


Não aceitava que um dia chegasse ao fim, aquela explosão aleatória de tesão tão necessária para o seu equilíbrio mental, que do ponto de vista emocional estava bem servida porque tinha, para além daquela relação clandestina, quem lhe fornecia o carinho e o amor mas lhe falhava com aquele furor que ansiava muitas vezes num fogo que a consumia e só aquele homem possante lhe conseguia apagar.

 

Por isso ela às vezes até queria e lutava para impor a si própria um dia para aquela situação insana acabar mas nunca não conseguia mais do que apenas adiar.

publicado por shark às 11:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 01.02.10

SENTIDOS PERMITIDOS

Como passar as narinas com suavidade por uma pétala e sentir a fragrância natural do amor que expele cada poro numa pele desejada, numa flor reencarnada em corpo de mulher que se cheira e se quer no preciso instante em que o potencial amante recebe o impacto do odor que lhe desperta no interior aquela vontade que se tem de ir mais adiante, mais além, e mergulhar sem demora no canteiro daquele jardim.

 

Como deslizar sem fim a atenção de um olhar pelos contornos de uma paisagem esculpida pelo vento, pela erosão, e disparar o coração num galope desenfreado pelo corpo de mulher deitado numa cama onde queremos estar para ocuparmos aquele lugar vago no paraíso que chama por nós, enfeitiçados pela imagem que recolhemos ao longo da viagem em que os olhos nos transportam sem pressas até junto das portas do céu.

 

Como passear as cabeças dos dedos no mais sedoso tecido, pelo corpo de mulher despido, acariciar a textura perfeita e receber em troca a maravilhosa sensação de perceber amor e tesão concentrados num único e prolongado arrepio que parecem percorrer de imediato um fio condutor, energia, das coisas ligadas à corrente do amor que se faz também pela forma sensual de tocar a perfeição com o ardor da paixão e a suavidade de quem caminha sobre papel de arroz.

 

Como escutar um rio desde a nascente até à foz, o desenho dos cabelos compridos espalhados pelo corpo de mulher, pelas costas, pelas margens beijadas enquanto a água se agita como fervente no seu percurso urgente até ao ponto de chegada onde a força do mar é reforçada para o confronto com falésias mais resistentes do que o betão das barragens que inventam cascatas quando o rio se agiganta e se faz ouvir imponente na vontade de prosseguir até ao fim do caminho traçado naquele corpo molhado de prazer.

 

Como saborear um corpo de mulher com o gosto do amor no paladar, o sexo a latejar a verdade e a consequência do coração a reagir ao sabor mais apreciado, o do corpo tão amado naquele instante em que se transforma num corpo amante e se torna mais salgado pelo suor libertado e, ao mesmo tempo, adocica o tempero da emoção que se beija e que se lambe, que se chupa e se invade com ímpeto de um exército conquistador, senão com os sentidos alerta e com a alma desperta pelas sensações mais intensas que podemos experimentar?

publicado por shark às 00:36 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Domingo, 31.01.10

A POSTA NOS ESPAÇOS EM BRANCO

O alívio tão evidente quando não precisa de estar presente a lembrança, o excesso de confiança que tudo pode degradar, corrosivo, com o calcanhar de Aquiles possessivo a tirar com uma mão aquilo que não deu com a outra.
A desculpa sistemática que se torna automática quando a soma das coincidências já minou as paciências dos dois lados da barricada numa batalha perdida por não existir um alvo a abater, pontapé para canto que já nem suscita um lamento mas apenas a progressiva debilidade na reacção.

 

A incómoda sensação de não valer a pena tentar resolver o problema que afinal parece sempre resultar de um mal menor e nunca da agonia de um amor, um equívoco entre tantos que azedam os poucos momentos do contacto possível e desviam a atenção do essencial da questão mesmo quando não sabemos sequer qual é.
A dúvida que prejudica a fé de quem não abraça o cepticismo mas precisa de ver para crer, em si própria, essa pessoa que tenta dizer em vão aquilo que lhe vai no coração mas esbarra numa muralha de pedra que espalha o azedume como regra porque acaba por trazer a lume as questões mal abordadas ou simplesmente relegadas para um amanhã distante ou nenhum.

 

A necessidade de abrandar, ou no mínimo de aligeirar a pressão abdicando aos poucos da vontade de reclamar e antes deixar andar ao sabor do vento o efeito provocado pelo tempo e levar menos a sério tudo aquilo que para os outros seja levado a brincar.
A certeza de não ficar com pesos na consciência apenas por aceitar a influência de factores impossíveis de controlar, agindo a todo o tempo com o sopro do vento de feição para insuflar o coração rumo ao melhor resultado final que é o da vitória total contra a saturação que se desenha na expressão e fica com as costas desnudas nas palavras acaloradas de um pequeno conflito qualquer.

O que se disser a mais serve apenas para depois alimentar a fornalha onde se reacende a tal batalha que não é preciso travar porque não existe algo a ganhar ao longo da disputa onde na prática ninguém escuta o teor da argumentação.

 

E essa é a melhor razão para deixar cair tudo aquilo que se possa sentir mas sirva de pretexto para questionar os factos (alegadamente) bem definidos que possam sustentar todas as certezas, dados adquiridos, e suscite as tristezas que um dia serão invocadas por quem prefira reclamar vitória por assim se sentir melhor do que reescrever, para assim prevalecer, uma história bonita de amor.

publicado por shark às 21:40 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 28.01.10

SEM SINAL DE TI

Espera que te diga aquilo a que me obriga a condição masculina, a iniciativa tem que ser minha (são tradições...) ou serei desacreditado e ficarei posto de lado na tua deliberação. Espera que peça a tua mão para um beijo nas suas costas, o desejo que apostas existir no meu olhar que insiste em fugir para partes tuas que anseio ver tão nuas como a alma que (afinal não) expões.

 

Guarda para mim o que tens de mais precioso, para lá do corpo generoso, essa vontade de amar que te esforças por demonstrar pelos meios ao teu alcance e eu pareço só olhar de relance mas devoro com a ansiedade de quem aguarda cada sinal.
Torna-me indispensável, fundamental, nos teus dias e aproveita as alegrias que te dou e que compensam tudo aquilo que sou de menos positivo.

 

Espera que me torne mais activo neste caminho que precisamos percorrer, este tempo necessário para aprender o outro em toda a sua dimensão. Abre um pouco o coração e aligeira esses filtros que impedem de passar tudo aquilo que quero dar mas hesito por não confiar em mim enquanto capaz de ser assim como me precisas. Ou em ti, na tua capacidade de conviver com a verdade que me define, para lá do que se afirme nos esboços grosseiros que te permito espreitar.

 

Espera por mim num lugar onde nos saibas sossegados, para sentires os teus medos dissipados como vapor da transpiração, uma espécie de (sinais de) fumo dos corpos em ebulição que podemos soprar a dois. Deixa que fique para depois o acerto das agulhas, a devida arrumação desta informação que entulhas para mais tarde reciclares nessa estação de tratamento, esse teu filtro com que avalias os amores em cada tempo que te predispões a viver uma paixão.
Aceita o amor, essa emoção superior que te arrebata, não receies aquilo que escapa à tua atenção e que possa trair a intenção de defenderes com unhas e dentes os teus bastiões mais importantes contra traições e outras ameaças já experimentadas em tempos que são águas passadas e que se lavam com um beijo presente de um amor que seja amante no futuro também.

 

Espera que te trate sempre tão bem que me queiras, por inerência, com toda a certeza possível, afastado jamais do tempo que te reste viver.
Mas não presumas que espere eternamente sentado pela maior clareza, pela imprescindível coerência dos teus sinais que continuo sem perceber.

publicado por shark às 15:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Terça-feira, 19.01.10

POR LINHAS TORTAS

Como um lago tranquilo onde surge, imprevisível, uma imensa ondulação. No calor de uma intensa discussão, inesperada, nunca fica salvaguardada a sensatez e coloca-se em causa tudo aquilo que se fez até então.
No interior do coração agitado pela tormenta, fruto de tudo o que se enfrenta fora do contexto, existe um mecanismo muito lesto a separar as águas que o amor uniu. Parece até que a paixão sumiu num banco de nevoeiro que se instalou a tempo inteiro diante do olhar perturbado pelo mal-estar suscitado e torna-se fácil perder de vista o objectivo que motivou a conquista que tanta felicidade acarretou.
E afinal foi o medo que ocultou esse segredo transmitido por sucessivas gerações que viveram as suas paixões, o receio de perder quem se ama por não se ser muito bom na cama ou qualquer outra razão imbecil, o ciúme ou outra emoção vil das que só servem para corroer sem nexo a relação de confiança que deveria fazer parte de um altar.

 

A segurança de navegar num leito seguro e isento de malícia ou despeito perdida numa carícia que ficou por concretizar. Um desperdício, esse hábito, esse vício que todos temos de confundir aquilo que sabemos sentir mas ficamos baralhados pelas acções inexplicáveis e pelas sensações desagradáveis que em tempos passados alguém nos provocou.
Sinais de alerta que a mente criou com o poder da imaginação a partir de uma má interpretação de algo que aconteceu ou ficou por realizar.
As coisas que ficam por contar pelo temor de poderem beliscar o amor ou mesmo destruí-lo e que agitam o lago tranquilo com tempestades num copo como se provam no rescaldo, dúvidas por esclarecer e o coração a bater acelerado pelo motivo mal explicado no meio da confusão, no seio da ondulação artificial nascida a partir de reacções descontroladas.

 

As vidas assim desperdiçadas na ansiedade de uma flutuação a bordo de tábuas de salvação desnecessárias, destroços marginais às histórias de amor originais que se afogam aos poucos num mar de interrogações.

As respostas e as soluções adiadas até se darem quase por perdidas as hipóteses de reconciliação, o equívoco de uma desilusão sem eira nem beira que pode comprometer uma vida inteira ao longo da qual o arrependimento poderia chegar pelo esclarecimento que não se pode obter quando sopra nas almas o vento da desconfiança, quando se vê arrastada a esperança para o fundo e parece que o fim do mundo chegou.

 

Contudo, é essa aflição que fica, esse aperto no coração que nos indica que o amor não desertou.
 

publicado por shark às 17:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Segunda-feira, 11.01.10

QUARTO CRESCENTE

Deixa o mundo inteiro à porta deste quarto onde te dispo com os olhos e te perscruto com as mãos. Ignora tudo o que aconteça lá fora e confia tudo aquilo que és à minha vontade de te cuidar da cabeça aos pés e acredita que vale a pena entregares a tua mente à tarefa de te concentrares nas sensações a que somaremos as emoções que as sublimem.

 

Fecha os olhos por instantes e deixa-nos sermos amantes neste intervalo da existência que entendemos partilhar, neste quarto onde te quero dar o melhor de tudo aquilo que sou como percebes neste beijo que te dou e espero te transmita a segurança à altura da minha esperança de ser capaz de saber como se faz acontecer a perfeição.

 

Deixa que a tua intuição feminina te confirme que vale a pena seres minha neste lapso de tempo que conseguimos abraçar como o fazemos com os corpos deitados na cama deste quarto onde só tu existes para mim e eu anseio que me encares assim, um homem dedicado a ti por completo, capaz de te fazer sentir no deserto de uma ilha artificial para onde te arrastarei com o meu empenho total, com as coisas que farei para te agradar para assim me certificar que me gravarás na memória e quererás degustar depois esta história que nos une num momento a dois sagrado como o recordarei.

 

Deita-te ao meu lado e não hesites em pedir tudo aquilo que te apetecer nesta altura, aproveita enquanto dura e empenha-te também neste quarto que nos tem disponíveis para saborear os instantes agradáveis que queremos proporcionar ao outro sem medo algum, num espaço em que nos tornamos um, ligados à corrente onde reside a nascente desse rio que desaguas em partes do meu corpo que sentes como tuas quando me acolhes anfitriã sob a primeira luz de uma manhã a sós num mundo em que existimos nós e rigorosamente mais nada no final de uma madrugada feliz.

 

Ouve o que te diz o instinto e lê nos meus olhos o que não (des)minto de cada vez que te toco em busca da libertação de qualquer reserva ou grilhão que te iniba de usufruir em pleno de todo o prazer que nos demos com o amor que se fez.

 

Neste quarto crescente em que nos amamos e depois adormecemos a ver a lua partir até o sol incandescente nos acordar o desejo outra vez.

publicado por shark às 11:54 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Terça-feira, 15.12.09

MAIS ADIANTE, MAIS ACIMA

Caminha sobre as águas rebentadas que anunciam o parto, águas agitadas, e tu dizes eu fico e avanças sem medo sobre o fogo, sobre aquilo que tiveres que percorrer até chegares onde tiver que ser para ser tua a vitória final.

 

Caminha pela glória total e nada menos exijas do que o estatuto de ganhador, sempre que esteja em causa um amor.

 

Caminha sem olhares o chão que cada pé pisar, aproveita.

Em cada paixão existe uma fórmula secreta que te ensina a voar. 

publicado por shark às 00:32 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quinta-feira, 10.12.09

INCONDICIONAL? NÃO HÁ CONDIÇÕES...

Sempre me causou aflição perceber o dilema de alguém entalado pela lealdade que um amor supostamente acarreta.
Em causa está o tipo de situação que envolve pessoas e/ou coisas que por algum motivo entram em rota de colisão e de alguma forma implicam tomar partidos que, sem os vínculos interferirem, nunca corresponderiam à decisão que a pessoa entalada abraçaria.

 

Um amor não pode nem deve ter como regra a obediência cega a qualquer pressuposto que se sobreponha à verdadeira natureza das pessoas envolvidas. Ou seja, ninguém deve ser ou mesmo sentir-se compelido a abraçar causas nas quais não acredita apenas para respeitar uma ligação amorosa. O respeito não se mede dessa forma tal como o amor que deve ser sempre superior, invulnerável às divergências pontuais que forçam as tais manifestações solidárias.
O vínculo que o amor estabelece apenas deve impedir a traição (não estou a falar de infidelidade, claro) aos princípios elementares de qualquer relação humana.
E esses, no amor como na amizade séria, não englobam a obrigação de aderir a causas unilaterais quando (e acima de tudo) estas chocam com as crenças ou as reacções expectáveis por parte de quem se vê entre dois fogos numa qualquer disputa ou quezília. Ou mesmo quando simplesmente deixam a pessoa sem saber para que lado cair e, nesse caso, só pode assumir uma postura neutra.

 

Sei por experiência própria que o primeiro impulso quando amamos alguém é comprarmos as suas dores, contra tudo e contra todos, mesmo correndo o risco de abdicar da coerência ou mesmo de coisas e de valores que se têm por importantes. O amor cega ao ponto de nem ponderarmos as razões e agirmos em função das emoções e dos tais pressupostos a que acima faço referência.
Contudo, esse é um excelente caminho para um dia nos arrependermos e apresentarmos a factura.


Um amor, qualquer amor, não implica a anulação seja de quem for ou mesmo a sua mobilização para as guerras que lhe sejam alheias sobretudo quando estão em causa nos extremos da contenda pessoas de quem se goste e/ou razões que não se perfilham neste ou naquele aspecto.
É bonito, teoricamente, e eu já vesti ambas as peles – a de quem dá e a de quem recebe essa solidariedade incondicional, dedicar a alguém um amor tão forte que nos obriga a abraçar sempre a causa que lhe diga respeito.
Mas pode ser contraproducente à posteriori e entretanto constitui-se como um dilema que ninguém tem que enfrentar pois todos temos o direito a pensar e agir de acordo com a nossa própria consciência.

 

O romantismo de pacotilha, o que mede os amores em função da abnegação e da abdicação de nós mesmos em função do outro, deixou de fazer sentido no dia em que alguém percebeu que as pessoas têm sempre o direito de decidir pelas suas próprias cabeças e que esse direito se sobrepõe à força das emoções mais poderosas pois estas valem por si e, por esse e outros motivos óbvios, não precisam de qualquer ratificação.

publicado por shark às 15:37 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Segunda-feira, 07.12.09

RENDIÇÃO

Sinto-me desarmado perante a força desse teu sorriso encantado, como eu fico, presente de fadas ou de deuses para o mundo que felizmente me inclui.

O risco de ser hipnotizado como eu fui, à solta pelas ruas, uma boca feiticeira que ilumina uma cidade inteira quando se abre numa expressão de alegria ou de satisfação, cada um que a sorte bafeja com a visão dessa boca que um dia vi e que, é mesmo assim, beija ainda melhor do que sorri.

 

publicado por shark às 19:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Segunda-feira, 09.11.09

ESSA MÃO

Essa pele que é a minha, a sensação que o corpo não estranha, familiar, essa mão que acaba de tocar esta pele que é a tua, arrepio.
Esta noite que é a nossa, toda nua, a emoção prateada pela lua, a brilhar, esta luz no teu olhar, tão quente, o amor emergente.

 

Já não resiste.

O frio.

publicado por shark às 22:08 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Quarta-feira, 28.10.09

NA ÚLTIMA FRONTEIRA

A minha boca na tua pele, passageira. Lábios que te tocam de forma ligeira, aleatória, beijos suaves gravados na memória do corpo, alto relevo, pintados como rastos na areia deixados por quem passeia numa praia deserta, em forma de arrepio.

 

Os meus dedos a seguirem o trilho desenhado nesse corpo acordado pela brisa quente da respiração, o bater acelerado do coração nesse teu peito que me chama, o teu olhar que reclama uma passagem por um destino certo desta viagem em que embarco por ti. Toda.
A rota que já percorri, cada passada que fica traçada na tua pele, esculpida a cinzel com a língua que agora te visita onde os olhos pediram, o corpo que se agita em orgasmos que nasceram onde a vida se produz e na mente que se reduz, concentrada, à emergência do prazer.

 

A minha boca a dizer que não é pouca a vontade de te deixar prostrada, quando der lugar a outro caminho nessa estrada que abres para mim enquanto me olhas assim, perdida algures num ponto do mapa que te descrevo com as palavras que sussurro depois, ao ouvido, enquanto viajamos os dois num tapete mágico, encantado, um delírio que soa ilógico, sem nexo, mas é explicado pelo empenho com nos entregamos ao sexo, a estes momentos em que sublimamos, horas a fio, a intensa emoção que acontece nesta ligação à corrente de um rio que começa numa nascente que brilha como o sol.

 

A tua boca que me beija o rosto e depois troca, descendente, para onde mais gosto de a sentir, a tua ânsia, e dizes ser urgente satisfazer-me também, as mãos na tua cabeça em movimento de vaivém e eu logo a seguir no caminho de regresso ao aconchego do teu abraço ao corpo que deito sobre o teu, invado o espaço que agora é o meu porque o ofereces sem hesitar e vejo que até esqueces em que lugar nos encontramos, esta cama em que fazemos o amor sem reservas que permite te atrevas a ir longe demais, tanto quanto puderes. E tu vais. Comigo, onde quiseres. Sobrevoamos um campo de trigo e depois mergulhamos num mar tropical, depois de conquistado o espaço sideral onde o som não é propagado como agora podemos constatar, já em terra, quando ambos não conseguimos evitar um grito de guerra em uníssono que marca o final de mais uma etapa, de mais uma volta pelo país da fantasia onde acontecemos, pura magia, num tempo em que no nosso espaço, no nosso momento, só existe uma condição.

 

Viajarmos sempre para fora deste mundo, numa outra dimensão. 

publicado por shark às 16:10 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)

VOLTA PARA MIM

Tudo começou a desmoronar à sua volta, por dentro, quando deu pela falta do que mais o agarrava à vida. Os olhos levantavam destroços, as mãos ajudavam como podiam. E ele só queria respirar por mais algum tempo para poder procurar a salvação no meio do caos, ensandecido.

Gritava mas parecia que uivava de dor, pedras enormes afastadas sem esforço pela figura grotesca coberta de pó no meio das ruínas do espaço a que chamara o seu.

 

Balouçavam no corpo os farrapos da roupa destruída e na cabeça os pedaços de memória de uma vida aparentemente perdida no instante em que o demónio decidiu aparecer, monstruoso, de surpresa, para lhe injectar uma tristeza que o enlouquecia e não sabia o que fazia no meio daquele cenário desolador mas procurava em vão o seu amor por entre as marcas da passagem do mal, força sobre-humana, indiferente aos gritos que ecoavam lá fora, para lá dos restos de paredes que delimitavam a sua busca insana.

 

Exigia ao coração que não parasse, depois o diabo que o levasse para onde a pudesse encontrar, o malvado que viera para lhe levar tudo quanto precisava para valer a pena bater, no peito que arfava, o músculo que bombeava o sangue pelas feridas que ignorou até que finalmente a encontrou soterrada sob um pedaço de pedra que só um elefante conseguiria mover.

Mas pareceu-lhe vê-la mexer um dedo da mão e agarrou o obstáculo como se de papel se tratasse e invocou toda a força da terra para a concentrar em si.

Rangeu os dentes, alucinado, completamente determinado em salvar as duas vidas em risco naquele lugar infernal.

 

Ninguém assistiu ao milagre que produziu apenas com a força das mãos.

E só quando se certificou que de facto a salvou, gritando pelas equipas médicas na rua que não tardaram a chegar, se permitiu desfalecer e acabaria por desmaiar, tombando ao lado da sua vida que salvara, com um sorriso no rosto e os dedos estendidos numa carícia que a acordou.

publicado por shark às 00:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (21)
Segunda-feira, 26.10.09

A VIDA NO SEU MELHOR

Ver como o amor se revela nas coisas simples, nas reacções espontâneas que o traduzem tão bem, nas emoções instintivas que se produzem em momentos que (quase) nos surpreendem e nos explicam tudo aquilo que precisamos saber acerca da verdade daquilo que sentimos por alguém.

 

E saber que somos amados também.

publicado por shark às 01:50 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 22.10.09

ESTÁS ALI

na linha

Foto: Shark

 

 


 

Reparo na expressão ansiosa daquela mulher tão formosa que parece esperar alguém que deve amar imenso, pelo menos é aquilo que penso reflectir-se nos olhares perdidos no horizonte e na impaciência dos lábios mordidos, a caminhar para trás e para a frente, com a emoção toda a nu.

 

E penso, com um sorriso rasgado, confiante, fosse eu o amor aguardado e aquela mulher tão atraente serias tu.

publicado por shark às 15:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Quarta-feira, 21.10.09

DEIXA-TE AMAR

Senta-te no meu colo e descansa. Pensa que ainda a noite é uma criança e precisas ganhar fôlego para as coisas por dizer mais o amor para fazer, a vida que acontece entre nós quando finalmente nos deixam a sós com a nossa forma de passar o tempo.

Senta-te em silêncio e aprecia o momento, sem medos ou mágoas, os segredos a léguas desta relação de confiança que é a unica que permite a esperança de sermos dois outra vez amanhã.

 

Senta-te no meu colo, deixa-te abraçar pelos meus braços e insiste em aproveitar estes pedaços da existência que preenchemos com a consciência de que a eternidade só existe se a construirmos agora, alheios ao barulho lá fora de um mundo que não pertence a esta realidade que no fundo só acontece porque o acaso o permitiu.

Manda para a puta que o pariu todo o conjunto de aflições que nos instigam as tradições inibidoras da felicidade como a queremos sentir, senta-te no meu colo e deixa-te partir para onde não existam os receios e dá largas aos teus desejos e anseios sem abrires a boca para me dizeres como ficas louca com todo o mal que esta paixão te fez.

Descansa. 

 

Ainda a noite é uma criança e amanhã vamos fazer o amor outra vez.

publicado por shark às 22:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Terça-feira, 13.10.09

SANGUE QUENTE

O corpo parado, distante. O corpo sentado, indiferente ao desassossego do olhar que tenta resistir de pé aos projécteis, autênticos mísseis que bombardeiam sem cessar as resistências do olhar que tenta bater em retirada para um qualquer ponto de fuga distante da imagem que ocupa o horizonte, a paisagem deslumbrante que esse rosto oferece a quem o olha e nunca mais esquece a sensação.

 

O olhar que tenta ocultar a emoção que baralha as palavras nessa batalha pela causa perdida de uma cegueira induzida em vão, a beleza que ignora as pálpebras da razão e invade todos os espaços por preencher e força alguém a dizer as coisas que preferia silenciadas.

 

As reacções apaixonadas que traem as melhores intenções no inferno interior de quem se revela vulnerável ao apelo do amor instantâneo, as palavras proibidas à solta num comentário extemporâneo que apanha de surpresa quem apostava na certeza da imunidade total e se calhar fazia mal em acreditar na resistência do olhar às inesperadas tentações que o destino adora semear pelo caminho a percorrer por quem não respeita linhas rectas.

 

A vontade de tomar as atitudes mais correctas e o instinto a vaguear pelos atalhos da imaginação traiçoeira que encontra sempre uma maneira de desarmar a lucidez e de despistar uma e outra vez o viajante incauto que tapa os ouvidos sem sucesso aos gritos do arauto possesso pelo descontrolo emocional, a descarga hormonal que desorienta a passada e altera a rota traçada com base no que é suposto.

 

E às vezes basta o poder de um rosto para desmentir essa forma de agir que se descobre errada quando a alma apaixonada prevalece sobre a regra definida pela tradição ou pelo costume.

 

Quando o sangue no coração ateia como combustível à mercê do lume.

publicado por shark às 11:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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