A POSTA PINTADA

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Foto: sharkinho

Lisboa, 2005.
Um grito pintado em tom azul na fachada de um edifício recorda-nos que nem só na França existem fenómenos de desespero provocados pela exclusão social de uma faixa significativa da população urbana.
O problema já não se confina aos subúrbios. E não afecta apenas as minorias étnicas, os "de fora", todos aqueles a quem assumimos marginais como se existisse uma espécie de convenção que lhes imponha uma faixa na manga, um sinal que os distinga dos demais.

Cidadãos de classe média atolam-se nos resquícios de uma fartura que acabou, deixando para trás a pesada factura das prestações do deslumbramento fatal. Penhoras, execuções, vidas esfrangalhadas pela tensão das contas por pagar. Casa onde não há pão...
Podemos, claro, fazer de conta que o problema não é assim tão grave. Podemos confiar na capacidade das pessoas controlarem a sua revolta, de a limitarem a umas pinturas murais. Alguns, mais discretos, até reservam os desabafos para uma pequena folha de papel. Não se dá por eles enquanto acreditam no milagre que tarda ou nunca chega a aparecer.
Depois acordam, fartos da espera por quem preste atenção aos seus gritos pintados no frontespício da indiferença geral.

Tal como acontece em França e noutros países europeus (e não só), podemos um dia despertar ao som do motim.
E a miséria pode tornar-se muito barulhenta quando se acaba a tinta...
publicado por shark às 11:34 | linque da posta | sou todo ouvidos