PEÇAS SOLTAS

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Foto: sharkinho

Aos poucos, as peças vão sendo encaixadas pela vida. Um pedaço aqui, outro pedaço além. Memórias, experiências, conclusões. Vitórias, coincidências, desilusões. Não escapa ninguém ao julgamento que a vida nos faz, podemos apenas escapar à sentença se alienarmos o realismo ou a corrida por algum motivo se interromper, de repente.
E de repente o desenho fica completo o bastante para nele revermos a realidade que a nossa passagem pela vida produziu. Maturidade, chamam-lhe alguns. Ou outra coisa qualquer.
Sintomas da lucidez que os anos nos impõem, uns atrás dos outros, a correr. Os outros a servirem-nos de bitola e os desacertos a partirem-nos a tola até um dia percebermos o porquê. Ou não, sei lá eu. Tantas peças por encaixar e a existência a escoar pelo calendário fora, folha atrás de folha no outono cada vez mais rigoroso que o envelhecimento acarreta. Na cabeça também.

A careca que se descobre no passado que se revela. Tão diferente, sob a luz titubeante do futuro que o esclareceu melhor, aquele conjunto de certezas que ontem nos davam razão. Nenhuma, afinal, ao sabor das conjunturas como barquinhos de papel, sopradas as conclusões para longe do rumo que hoje reconhecemos menos fiel. Aos princípios, os que se traem no fim, quando certamente amaldiçoamos uma infeliz decisão e os seus danos. Nas convicções. E nas más acções que praticamos sem medo de nos arrependermos depois. Se calhar tarde demais.
A felicidade esbanja-se dessa forma leviana, fazemos a cama onde nos iremos deitar.

Aos poucos, o esboço grosseiro do balanço que podemos fazer (algures pelo caminho) esborrata. Maleitas que ninguém trata, até ao dia em que a doença se revela terminal. Negligenciamos, ofendemos e vingamos, agora. Mas esquecemos o dia de amanhã, o troco merecido. Por alguém mais atrevido ou simplesmente pela imagem que as peças encaixadas nos permitem decifrar. Com maior nitidez, que as dioptrias diminuem e a miopia que nos oculta a dimensão verdadeira da asneira cometida desaparece de vez. As sombras na parede da caverna, alegoria, simples erros de percepção. Falha na tradução.
O filme era outro. Em vez de protagonistas de uma película sonhada descobrimo-nos figurantes de uma cena marada em que, invariavelmente, morrem os maus e morrem os bons. Acaba sempre por acontecer.

E a vida a correr, alheia aos nossos erros e desatenções. O azar no euromilhões e as fantasias por concretizar. Fazia assim, fazia assado. Se acertasse na merda das cruzinhas ou arrancasse as ervas daninhas que dão cabo do melhor jardim.
A vida realizada a alimentar ilusões.
Mas à vida ninguém pode impor condições. Faz parte dela o destino que nos escolhe o momento do fim. A coisa funciona assim. Os canteiros que ambicionamos, expostos às intempéries que ajudamos a criar. Tiros no próprio pé.
E enquanto o puzzle se completa e a consciência se desperta, percebemos que seria fácil até.

Ser feliz.
publicado por shark às 23:41 | linque da posta | sou todo ouvidos