LAPSOS DO TEMPO

Cacos espalhados pelo asfalto, de pessoas também. Velocidade excessiva na surpresa macabra que o destino preparara para um conjunto de pessoas unidas de repente no abraço da tragédia que as atingira por igual.

O silêncio absurdo instalado após o ruído final dos motores, corações parados na beira de uma estrada que parecia seleccionada para palco de mais uma perturbação do sossego que habitualmente reinava nas imediações. Um gemido no interior de um amontoado de metal, capotado no meio de uma zona de pasto depois de galgar a vedação. E um outro sinal de vida no ranger de uma porta amolgada que alguém tentava abrir a custo dezenas de metros adiante, na mancha prateada disforme que fumegava com apenas três rodas apontadas para o céu.
 
O último suspiro de alguém que entretanto morreu, o condutor, e a seu lado um olhar embaciado pela dor de quem o acompanhava na sua viagem final.
O sangue que aos poucos ocupava o chão e se misturava com os destroços da colisão inesperada que aconteceu naquela estrada onde o acaso correra depressa demais para os operários da construção civil amarrotados na terceira viatura.
Uma carrinha de cor clara quase despedaçada pela árvore que a travou, sete lugares ocupados pelos corpos inanimados de gente sem sorte cujo caminho acabava ali.
Numa estrada secundária onde nada acontecia, contava quem ali vivia e ainda tentou acudir, minutos após a triste coincidência que ali reunira os desfechos de desconhecidos que jaziam, alguns ainda gemiam, na terra para eles maldita que acabaria assim referenciada pela primeira vez nos telejornais.
 
O apelo mudo de uma anciã no banco de trás de uma das pequenas plateias daquele momento dramático de uma história sem final feliz, nem mesmo ela preparada para receber a morte que se podia prever mesmo antes de o sangue lhe correr pelo leito de rugas como a enxurrada de um rio.
Os pássaros alvoraçados que regressavam aos poucos, a medo, para testemunharem sem pena o desenrolar de uma trama que nada lhes dizia, pousavam nos galhos do arvoredo à entrada da curva de onde surgira o carro descontrolado que todos afirmavam culpado da ocorrência, os mirones entretanto surgidos do nada que trocavam entre si o resultado das respectivas especulações.
 
Os sobreviventes, apenas dois, desencarcerados pelos bombeiros voluntários para tombarem nos braços da esperança que representavam os médicos da urgência que haviam chegado numa ambulância condenada a chegar sempre tarde demais para alguns.
A acompanhante do condutor falecido, a que tinha o olhar embaciado, fechara de vez as pálpebras como antes fazia com as janelas da sua casa para evitar o impacto directo do sol na parede da sala onde colocara a televisão que anunciaria horas depois a sua desdita.
A anciã exangue, tão pálida, cabeça tombada sem vida no contorno irregular de uma janela sem vidro na parte de trás do carro de onde haviam retirado um jovem que parecia recusar-se a ceder. Era ele, um pequeno ruivo sardento, quem parecia merecer maior atenção e cuidado por parte do contingente destacado para atender à situação.
 
Salvar-se-ia, condenado todavia a enfrentar uma vida sem andar, privado do uso das pernas como da companhia da família mais próxima no rescaldo do acidente que o marcou como ferro em brasa e o transformou numa pessoa diferente da que se podia ambicionar até uns escassos segundos antes daqueles que lhe espalharam a vida em cacos no asfalto de uma estrada que pisara pela primeira vez.
Um autêntico milagre, como o referiam os médicos entrevistados nas notícias a que assistia deitado numa cama de hospital.
 

No piso acima, cirurgiões compenetrados tentavam com muito sucesso reparar os estragos no corpo do condutor acelerado cuja imprudência constituíra o pretexto ideal para mais um cruzamento imprevisto de cada vida ceifada pelo simples capricho da combinação de pormenores numa conjugação aziaga de imponderáveis factores.

publicado por shark às 11:40 | linque da posta | sou todo ouvidos