SE OLHARES ASSIM...

Uma pena que desce em suave balouçar do céu. Sem pena da asa que a perdeu.

Uma bola de sabão soprada, pelo vento arrastada para longe dali. Sem saudade da boca que a soprou.
Uma lágrima que percorre um rosto e segue depois em voo picado para o chão. Sem se ralar com a razão que a verteu.
 
Um som distante das ondas, a voz do oceano, o som de um engano que a casca de um búzio produziu para reconfortar um velho marinheiro.
Uma voz diferente do lado de lá de uma parede de betão, uma espécie de ilusão auditiva num espaço vazio de pessoas e refém do silêncio sem alguém para o quebrar.
Um espelho a reflectir sombras criadas pela passagem da luz do sol por entre as janelas fechadas. Silhuetas de fantasmas nascidos na mente de quem os quiser acreditar.
Como se acredita num deus. Ou pior.
 
Uma bigorna martelada sob a forma incandescente de uma espada. Alheia à batalha que algures alguém irá disputar.
Uma mão crispada, sobre uma mesa, de alguém que tenta travar a certeza de uma espiral de loucura, adivinhando a dor e a perda que daí advirão.
Uma casa, santuário, que desaba sobre as vidas que protegeu até então. Vítima de um safanão que lhe corrói as estruturas como a um gigante se derruba pelos pés. De barro ou de outra fragilidade qualquer.
 
A luz de um pirilampo na noite quente, a Natureza extravagante das suas criações iluminadas. A penumbra rasgada com raios devastadores, tempestades terríveis na fúria dos olhares de quem as consegue recriar.
A dança cintilante de um lago resplandecente, pequenas explosões de mil sóis produzidos pelo fenómeno de reflexão que cativa a atenção e maravilha o espectador.
A força de um amor, titânica, a brilhar como o núcleo de um átomo em processo de fusão.
 
A energia de uma emoção mal contida, o estouro de uma manada de gnus na savana quando se faz sentir a presença de um predador.
O ciúme à solta por entre a beleza dos sentimentos que o suscitam, como uma hiena desorienta as presas potenciais com dentadas impiedosas nos membros inferiores.
A traição de todos os amores na inerente desconfiança, a posse reclamada numa atitude estouvada que desmente tudo quanto de bom um amor a sério induz.
 

A orgia de sensações e de imagens que uma vida produz.

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publicado por shark às 00:20 | linque da posta | sou todo ouvidos