SUMO DE PAIXÃO

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Nem era a pressa de a possuir como um possesso, de acelerar o corpo inteiro ao ritmo das batidas do coração que ela alimentava. Queria, isso sim, colar-se de novo à sua pele. Percorria-lhe os contornos com o olhar que desviava ocasionalmente da televisão. E ela fascinante, com um copo na mão, transparente, que distorcia a visão de uma pequena parte de si mas não a escondia. Queria apenas aproximar-se de novo e retomar o que haviam interrompido umas horas de sono e um sumo bebido, sorriso nos lábios e olhos marotos, daquele copo vazio cujo rebordo ela acariciava com as pontas dos dedos.

Já os dele a tocavam, arrepiada, sentia-se desejada e espelhava-o com malícia no brilho dos seus olhos azuis. Não era a pressa e ele assim o provava, buscando no corpo em brasa os pontos mais sensíveis da pele que o fazia vibrar. Com a boca também, com as mãos e com os pés, calor partilhado um pouco por todo o lado pelo resto de si. No rosto a adoração, nariz enfiado nos cabelos doirados pelos raios de sol que despontava, enebriado pelo cheiro que aprendera a amar.
E ela sabia. Encorajava-o com os sons que libertava, na exacta proporção da loucura que se apropriava dela aos poucos, na exacta medida da sua tesão.

Saborearam com calma cada instante daquela fusão, corpos sem segredos nem medos por ultrapassar. Tudo valia, com regras definidas a dois, na intimidade construída pelas palavras e cimentada pelas acções. E era sólida nas fundações.
De concreto o respeito, de mel o beijo no peito que ele lhe dedicou no final de uma viagem espacial em que ambos embarcaram, em simultâneo, antes de na cozinha se espremerem mais laranjas para encher de novo o copo vazio que entretanto rebolara pelo chão e ela apanhou outra vez...


Posta-resposta ao mais recente desafio que a Hipatia lançou.
publicado por shark às 12:54 | linque da posta | sou todo ouvidos