TALVEZ AMANHÃ

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Na minha secretária um decreto-lei. Mais uma obrigação que o Estado descartou. O Estado é aquele organismo medonho ao qual sustentamos os vícios para que, em contrapartida, a máquina faça a gestão do pecúlio comum e vá fazendo avançar o país. Um pouco como acontece com a administração do nosso condomínio, embora esta execute o seu trabalho sem direito a uma retribuição.
O problema é que a administração do condomínio não pode "deixar cair" as obrigações que lhe competem. Parquímetros a cumprirem o papel dos polícias, clínicas privadas a cumprirem o papel dos hospitais, companhias de seguros a cumprirem o papel da segurança social e toda a gente a tentar exercer a Justiça em nome dos tribunais. É esta a realidade que o decreto-lei na minha secretária traduz. O Estado que nos representa, essa realidade que se criou para cuidar de nós, é afinal o primeiro dos nossos problemas. E cada vez aceita menos responsabilidades em troca do dinheiro que lhe confiamos para gerir, resultados expressos nos orçamentos anuais que disfarçam a falência técnica de toda uma Nação.

Parece uma realidade distante, essa estrutura pesada por nós paga para nos servir. Mas os dramas que nos afligem têm cada vez mais um bode expiatório que ninguém consegue punir. A culpa é do Governo, seja ele qual for. Nunca é nossa, os que pagam nos impostos as mordomias de quem não se abnega em prol do seu país. Senhor do seu nariz, o aparelho burocrático apropria-se dos nossos bens sempre que falha o retorno na colecta ou embica para um rumo que nos atravessa o terreno de sonho em troca de uma indemnização absurda.
Autista, oferece-nos formulários para que expressemos a nossa indignação. Ou encaminha-nos para as urnas, onde a vulnerabilidade da Democracia perante os medíocres nos prepara o funeral. Mais uma desilusão, feita de promessas adiadas, medidas contestadas e uns metros acrescentados no fundo do buracão. Anos a fio, como se o assunto não nos diga respeito, perpetuam-se os mesmos nas rédeas da situação.

Na minha secretária, um conjunto de papéis que me esfregam nas ventas a urgência de uma nova revolução. Mentalidades alteradas, ideologias repescadas e o fim da apatia. Mas hoje não é o dia, refugio-me no trabalho que tenho por fazer.

E lá fora não pára de chover.
publicado por shark às 12:53 | linque da posta | sou todo ouvidos