O LADO NEGRO DA CENA

Mais do que política esta crise devia ser é profundamente humana. Deveria ter-nos servido para perceber a nossa infinita miséria, a ténue linha que separa a civilização da barbárie. Enquanto olho para o meu mono inútil de quatro rodas que jaz parado sem força motriz, penso no gajo que encheu dois bidons de 200 litros à minha frente, ou na senhora que passou por mim com um carro de supermercado a abarrotar de ...iogurtes. Reflicto sobre as pessoas que somos e a reacção que temos quando enfrentamos uma ameaça. A de nos salvarmos. A todo o custo. Mesmo que isso implique encher bidons de combustível como se não houvesse amanhã. Por incrível que possa parecer há sempre quem pense que enquanto dure poderá fingir que não estamos à beira que ele se esgote em definitivo.

 
 
 
Cito este trecho de um post da Mar no qual me prendeu a atenção o facto de a ênfase estar colocada não nas questões ideológicas e suas repercussões práticas em termos de agitação social mas sim na própria essência das pessoas e de como essa prevalece sobre tudo o resto quando toca a doer.
É raro apontarem-se baterias para aquilo que pesa mais do que tudo, a natureza humana, quando a coisa dá para o torto. Bem vistas as coisas, e como o exemplo da Mar salienta, a maioria de nós (uns mais outros menos) vira as costas a ideologias, princípios e teorias e embicamos para a estratégia do salve-se quem puder que a rebaldaria vigente nos recomenda.
 
Nenhum Governo deste ou de outro país consegue responder pela “sua” multidão quando algum tipo de ameaça aos bens essenciais se perfila ou manifesta. Se consta que falta a água é a corrida aos garrafões, se falta a comida é o assalto às prateleiras e por aí fora.
E é fácil adivinhar que se algum dia os bens essenciais faltarem pelo tempo bastante para lhes sentirmos demasiado a falta mais vale defendermos as despensas a tiro de caçadeira…
Isto só soaria exagerado se não existissem os factos que o comprovam por antecipação. Ninguém se rala com o próximo quando açambarca, muito menos se ralará quando estiverem em causa quaisquer dos seus interesses vitais.
Que até podem ser supérfluos.
 
No tempo em que existiam valores mais ou menos universais e apesar de vigorar o cada um por si estabeleciam-se entre as pessoas relações de dependência. Agora que estamos todos dependentes de um mundo inteiro vigora o cada um por si na mesma mas a vulnerabilidade substitui a dependência.
Estamos à mercê de algo perigosamente parecido com a lei da selva, com o pequeno detalhe de ainda estarmos sob o primado do mais esperto. A força imporá a sua regra quando e se algum dia chegarmos ao desespero de causa no qual, como se adivinha, contaremos com a eficácia da intervenção do Estado, da ONU ou de qualquer organização terrena com a mesma garantia com que podemos esperar a ajuda alienígena.
 
Se isso soa a todos nós, confortáveis ocidentais, como um facto de outro hemisfério, situações como esta da revolta camionista que poderão repetir-se no futuro com qualquer classe profissional ou actividade fulcral para o funcionamento do país levantam a ponta do véu sobre o que nos espera se descuidarmos a procura de uma nova atitude perante a vida. Uma atitude mais realista e defensiva, necessariamente mais pessimista no que concerne à globalização do absurdo em caso de bronca da grossa.
 
Venha ela de um conflito social, de uma calamidade natural ou simplesmente da falência previsível do modelo económico que prevalece no planeta e cuja agonia está na origem da maior parte destes receios que, como a Mar destacou, em face do que se vê cada vez mais se justificam.
publicado por shark às 16:17 | linque da posta | sou todo ouvidos