A FUGA DAS GALINHAS II

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Acabaram as aventuras promíscuas nos arrebaldes dos galinheiros nacionais. Chorosas, as galinhas veêm-se enclausuradas e assim privadas do contacto esporádico com as aves de arribação.
Para os galos, sempre ciosos da sua exclusividade territorial, a gripe das aves constitui uma boa notícia. Mesmo que lhes custe a perda de um dos seus ofícios, o de despertadores naturais, e assim aumentem as probabilidades de acabarem no tacho. O instinto de posse que os atormentava sempre que as levianas se aproximavam envergonhadas dos patos-bravos, das andorinhas macho e, pior ainda, dos belos cisnes que as impressionavam com a elegância do seu porte, sobrepunha-se ao medo de se verem enfiados no galinheiro a aturarem os cacarejos incessantes do seu harém.

Entristecidas, as ovíparas viram-se privadas de uma das suas maiores alegrias: a de assistirem ao regresso triunfal dos seus amores de Outono, os que escapavam à mira dos caçadores estúpidos e incapazes de distinguirem uma águia de uma perdiz. Nem os carteiros (pombos-correio, claro) quebram agora a monotonia do aviário, dias a fio sem notícias da passarada vai-vem que planava graciosa no céu.
Nem comem, coitadas, entediadas pelo piar ensurdecedor dos pintaínhos e apoquentadas pelo ar machão dos galarós de crista murcha que lhes surgem como única opção. Uma rapidinha à galo e pouco mais, espreitando com tristeza pelas redes de protecção os papagaios selvagens (excelentes conversadores), o imponente pombo torcaz ou mesmo, à falta de melhor, uma codorniz mais atrevida...

Corre-lhes mal a vida e ninguém pode valer-lhes nesta época conturbada. Lá fora, os gansos recordam-lhes aventuras escaldantes que nem de perto viviam (nem mesmo com um galo capão) nos dias saudáveis e livres da gripalhada transmissível e mortal que as privou de se exibirem em feiras e exposições. Nada para lhes quebrar a rotina poedeira, um namorico à maneira, a monogamia forçada numa existência confinada. O sol aos quadradinhos, o adeus aos patinhos multicolor e a todas as aves migratórias (qualquer ave que migre periodicamente - resolução 004, de 18/09/85, do CONAMA, Brasil). Da tia, pensam os galináceos portugas que já nem nas churrasqueiras têm a saída de outros dias...

Os humanos, a braços com a peste suína, as vacas loucas e mais uma carrada de preocupações alimentares, andam alheios ao drama dos galinheiros, na busca desesperada de uma vacina que lhes salve o fricassé e a canja. Mas a solução para o problema das galinhas ninguém arranja, privadas do amor ocasional com alguma ave sensacional e cheia de histórias para contar.
E elas a definhar, num triste cacarejo, aguardam uma porta entreaberta, aproximam-se da mais esperta e espreitam a hipótese de fuga que possa surgir.

Voando baixinho em sonhos, à socapa, anseiam recuperar um dia a boa vida que agora lhes escapa.
publicado por shark às 18:20 | linque da posta