SANTO NÃO SOU

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Foto: sharkinho

Tinha cerca de oito anos. Acabado de chegar à rua, descobri um aglomerado de malta amiga nem cem metros adiante. Reinava uma estranha agitação na miudagem e eu, claro, apressei-me a chegar junto do acontecimento que tanta algazarra provocava naquela pequena multidão de gaiatos como eu.
E a malta gritava: "Atrasado! Atrasado! Maluquinho! Maluquinho!". E eu juntei a minha às suas vozes esganiçadas, ainda mal percebera a quem se dirigiam as invectivas do pessoal.

No meio da turba, assustado, um jovem com talvez dezasseis anos na altura pedia com o olhar que o deixassem em paz enquanto avançava a custo para uma fuga impossível de concretizar. Todos os que o perseguiam corriam mais do que ele alguma vez seria capaz.
E a malta gritava, gozava, aqui e além uns empurrões. E ele cada vez mais aflito, sem escapatória, procurava em vão alguém que lhe valesse naquele cerco de neandertais.
Ninguém mexeu uma palha, adultos à janela e gente que passava ao largo sem ligar. Indiferentes àquele olhar. Como eu, que o fixava enquanto gritava e não percebia que a loucura estava do nosso lado afinal.

Formou-se uma pequena clareira em seu redor e ele, desesperado, aproveitou para deitar a mão com extrema dificuldade a uma pedra solta da calçada que descobriu no chão. Todos bateram em retirada e eu não, deixei-me ficar a uns dez metros do rapaz, atrevido, desafiador, exibindo mais uma vez a minha ousadia aos putos que precisava impressionar.
A pedra da calçada voou. E pouco tardou até o sangue jorrar em profusão do lenho que na minha cabeça abriu aquela lição.
Como se o destino me quisesse ensinar aquilo que escapara aos meus progenitores, o respeito pelos diferentes de mim.
Aprende-se depressa assim.

Transportado de urgência para uma clínica próxima do bairro, um enfermeiro desajeitado coseu-me a ferida com oito pontos a sangue frio. Mereci a dor que cada um dos furos no couro cabeludo ensanguentado, cabelo rapado, aquela agulha de sapateiro me provocou.

À moda siciliana, logo se preparou o ajuste de contas com a família do agressor. Que não se concretizou. Porque eu, ainda atordoado, troquei as voltas à situação. Avancei para o rapaz e estendi-lhe a mão, pedi-lhe desculpa pela forma bruta como o tratei. E ele, lágrimas nos olhos, retorquiu descoordenado, dedos crispados pela sua paralisia cerebral.
O assunto morreu ali.

Ainda hoje me perturba o personagem que vesti, o mais duro do gang que se reuniu para a vergonha que protagonizei. Nem no arrependimento me consolei. Mas aprendi.
Ainda hoje me revoltam os gestos de gozo dos canalhas como eu fui, as brincadeiras de mau gosto dirigidas por despeito a quem merece o respeito que a diferença ou a desdita nunca justificam renegar.

Ainda hoje não me perdôo pela atitude que tomei.
Da mesma forma não hesito em punir os que ignoram essa regra que a vida me ensinou. Dedico-lhes o ódio que a mim próprio dirigi. A revolta que senti, acumulada pelas injustiças que já testemunhei desde esse dia que me embaraçou e no corpo me marcou a lembrança do castigo, é hoje canalizada para a fúria mal controlada que não me torna um homem melhor.

Assumo que não sei perdoar quem se comporta de forma tão vil.
Assumo que não sei ignorar a chacota debochada de quem algures perdeu o rasto à decência.
Assumo, para minha vergonha, que nessas circunstâncias a violência afigura-se solução.

Para os que abusam da falta de princípios e enxovalham ou agridem (directa ou indirectamente) os que não se podem defender eu assumo: trago sempre uma pedra na mão.
publicado por shark às 10:36 | linque da posta