À CONVERSA COM OS MEUS BOTÕES

Estava lavado em lágrimas, ou então apenas molhado pelos salpicos do lavatório. Mas condoeu-me a sua expressão desalentada.

Aquele botão acabava de se deparar com um drama que consegui entender na sua verdadeira dimensão. Quando se preparava para recolher ao lar deu consigo pendurado, abertura fechada. E ele a chorar a prestação atrasada como causa provável para lhe costurarem a casa onde se habituara a viver.
 
A crise começava a doer onde menos se esperava e eu olhei aquele botão com a minha expressão mais solidária, tentando encontrar uma solução alternativa à tesoura que o afastaria em definitivo do espaço que tinha por garantido até então.
Mas eu não podia deixar ali pendurado um botão sem abrigo no qual toda a gente, implacável, iria reparar. Sentia-me dividido entre a compaixão sincera por aquele botão à espera do pior que lhe poderia acontecer e o meu receio de fazer má figura.
 
Todavia, acabei por reparar que num outro piso do condomínio têxtil dos meus botões residentes, uns andares acima, já perto do colarinho da camisa, uma casa surgia desocupada e de imediato me ocorreu que talvez pudesse constituir uma solução para o problema daquele botão despejado.
Enquanto ponderava o seu realojamento naquele inesperado local deixado vago e o convencia das vantagens de passar a ter uma vista melhor (mesmo que tivéssemos que recorrer a um aluguer) algo me levou a observar a camisa com mais atenção.
 
Foi assim que descobri uma solução, bastando para o efeito corrigir o erro típico de quem acorda sem deixar de dormir e alinhar cada botão com a casa respectiva.
Às vezes basta uma visão mais objectiva para endireitar aquilo que parece sem conserto. E é nas horas do aperto, aprendi com os meus botões, que mais nos escapam a calma e a lucidez e isso às vezes implica o aumento da complicação como aconteceu com o meu botão que agora exibe à janela a sua vontade de sorrir no rés do chão da camisa.
 
É giro como a vida nos avisa com estas indirectas de como às vezes o que nos soam como alertas não passam afinal de simples confusões que as pessoas, como os botões, não conseguem distinguir.
 
O destino que queremos vestir nem sempre joga certo com a roupagem que a vida nos impõe e quanto a isso pouco podemos fazer.
 

Por isso mais vale (vi)vê-la despida dos medos que tantas vezes estão na origem de pesadelos desnecessários que sem dúvida dispensaríamos viver.

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publicado por shark às 11:00 | linque da posta | sou todo ouvidos