COITUS ININTERRUPTUS

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Jogar às escondidas é uma actividade a que sempre dediquei alguma atenção e entusiasmo. No meu Bairro do Charquinho chegava a envolver cerca de cinquenta putos como eu, ao serão, numa algazarra infernal.
Levávamos aquilo a sério, pois envolvia garotas e todas as ocasiões para exibirmos os nossos talentos naturais eram esmifradas até ao sabugo.
Regra geral, o último a chegar ficava no coito. O coito era o local onde o que procurava fechava os olhos para contar até cem para dar tempo aos que se pretendiam esconder.
Mas o coito, sempre tão apreciado, era também uma espécie de fortaleza que o procurador tinha que proteger contando apenas com a sua atenção. A ideia era gritar o nome do(a) avistado(a) antes que este(a) atingisse o coito e dissesse um, dois, três. Se nos distraíamos à procura dos outros, seguindo pistas falsas ou ilusões ópticas, era um fartar vilanagem na retaguarda.

Os primeiros a serem descobertos eram os preguiçosos e os chicos-espertos. Escondiam-se o mais próximo possível do coito. Uns porque lhes faltava a pachorra para buscarem um esconderijo melhor mas mais distante. Outros porque tinham a mania que imitavam na perfeição um candeeiro de rua. Gente doida, claro está.
Os últimos a aparecerem, os que nunca praticavam o coito, eram os mais espertos e os que melhor dominavam a arte de se camuflarem. Julgavam-se vencedores, por serem sempre os mais astutos, mas davam secas de horas ao resto do pessoal e perdiam sempre o melhor da animação.

E depois havia os mais burrinhos, os atrevidos arrogantes e os cobardes, que quando tinham a desdita de vestirem a pele do que procura ficavam a dois metros do coito para terem a certeza de que não se deixavam enganar. Não procuravam ninguém, apenas aguardavam algum distraído que se deixasse apanhar. Ficavam histéricos com a emoção, sempre que isso acontecia. Acreditavam-se no centro das atenções.
Não raras vezes, já todos os outros dormiam a sono solto nas suas casas ainda o panhonha do coito andava a falar sozinho pelas ruas, gritando os nomes dos ausentes, procurando fantasmas, assombrado pela paciência que os outros jogadores exibiam, supostamente escondidos nas trevas até às tantas da matina.
Traídos pelo incumprimento das regras do jogo (que ninguém precisava de escrever, pois todos as conheciam), pela sua forma batoteira de jogar, pagavam o preço em notas de ridículo e alguns trocos da mais profunda desilusão. Quando se percebiam nessa triste figura, sozinhos no coito e cheios de vontade de brincar, coravam de vergonha e tinham vontade de desaparecer.
Mas no serão seguinte estavam lá outra vez e a estratégia era a mesma...
publicado por shark às 20:21 | linque da posta | sou todo ouvidos