A POSTA NA SALVAÇÃO

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Foto: Mar

É tenue, muito ténue a linha que nos separa da loucura. Em certos momentos, quando a vida nos encurrala em situações aparentemente impossíveis de ultrapassar, quase perdemos a noção da realidade. O desequilíbrio acentua-se a cada sinal contrário à nossa vontade de querer que tudo corra pelo melhor. Aos poucos, é o desespero que se apodera do espaço vago deixado pela nossa incapacidade de raciocinar com clareza. Aos poucos, entregamos-lhe as rédeas e deixamo-nos conduzir por meandros obscuros da nossa mente até ao ponto onde perdemos o caminho de volta à sanidade.

Aconteceu-me por três vezes ao longo da vida. Em cada uma delas, eu que gosto de me acreditar forte e lúcido, estive muito perto de resolver em definitivo todos os problemas que me afectavam e poderiam afectar no futuro de que quase abdiquei.
Olhei a morte nos olhos e ela retribuiu-me com uma promessa de paz. A paz que eu mais desejava, para acabar com a tortura que se desenrolava na minha própria cabeça sem que eu conseguisse controlar o desvario.
Estive muito perto de aceitar esse convite manhoso para o repouso que há anos não consigo encontrar.

É estranho pensarmo-nos assim, capazes de dar um passo tão terrível e absurdo. Capazes de cruzar a tal linha que a vida traça em contornos de infelicidade, desilusão, ansiedade ou depressão. Simples equívocos que se conjugam para nos enlouquecer. Fantasmas que nos passeiam na imaginação, irreais mas corporizados pela nossa fantasia, pelos medos que nos perturbam e nos deprimem ao ponto de deixarmos de nos reconhecer na pessoa desfigurada, tresloucada, diante de um espelho que nos engana ou apenas reflecte o que a nossa cegueira quer ver.

Nesses momentos radicais em que prevalece a tristeza e a desorientação o maior inimigo é a solidão. É uma parceria bem sucedida, em sociedade com a morte feita solução, cheia de exemplos da sua capacidade para nos atrair o corpo para o beiral de um telhado, para o limite de um precipício ou para a linha de um comboio. A sós, é dramática a luta contra o apelo irresistível do fim. Muitos evitaram o pior com uma simples chamada telefónica para alguém que amavam. Ou com o gesto amigo de um estranho que o destino enviou como um anjo protector.
Depois, o choro compulsivo de quem cai em si e reconhece a dimensão da sua estupidez temporária, da sua alucinação.

Envergonha uma pessoa, admitir perante si própria o quão próximo se colocou do outro lado da tal linha imaginária que nos separa de uma dimensão onde deixamos de existir tal como nos conhecemos do lado de cá. Às vezes basta o excesso de pressão, a paranóia, a névoa que se instala e nos priva do horizonte onde podemos descobrir o sentido da vida num simples nascer do sol.

Envergonha, de facto, mas é coisa tão séria e real que nos vemos forçados a partilhar com outros essa fraqueza que nos minimiza aos olhos de quem nos quer bem, para denunciarmos essa verdade difícil mas que pode bater à porta de qualquer um. Sentimo-nos obrigados a dar aos outros a informação que os pode salvar um dia, que pode evitar o desnorte que nos leva ao pior.

É estranho constatar como, por vezes, a nossa vida depende apenas do som de uma voz. Às vezes, dentro de nós.
Mas quando a vida parece encaminhada para nos torpedear as ilusões, as melhores soluções encontram-se na única resposta para todos os males. Numa simples oração.

O amor é a minha religião.
publicado por shark às 13:42 | linque da posta | sou todo ouvidos