DO AMOR APALAVRADO

Palavras levianas que falam de amor fácil, a expressão, palavras que se travestem de emoção e afinal apenas exprimem o eco de coisas de que se ouvem falar, nada mais que palavras repetidas como no registo electrónico de um qualquer gravador.
Palavras que falam de amor, ou apenas o recitam, como se quisessem dizer o que alguém está a sentir no momento em que as soltam ao vento com a mesma convicção com que as árvores entregam as folhas aos caprichos de um sopro, sem saberem qual o destino dessas partes caducas de si, sem se interessarem com isso até.
 
Palavras que gostam de pessoas mas apenas daquelas que as proferem como suas, as vontades, que amam a liberdade de poderem dizer-se sem restrições.
Palavras que deviam exprimir emoções mas apenas camuflam a sua ausência na absoluta inconsciência de quem as cospe sem sequer saber porquê.
O sentimento que se lê sem saber como o decifrar, naquelas palavras que afirmam amar mas afinal não passam de uma coincidência no som.
Palavras semelhantes no tom, palavras intensas, para que não esqueças a referência de tudo aquilo que desaprendeste ao longo do caminho ou ainda não conseguiste, de todo, entender.
 
Palavras que fazem doer, quando as desmascaramos, hipócritas, por detrás do invólucro precário que lhes cobre o sentido despropositado, no absoluto vazio.
publicado por shark às 16:38 | linque da posta | sou todo ouvidos