A POSTA DESCONFIADA

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A traição, como deixo transparecer em muito do que escrevo neste blogue, é uma das minhas mais vincadas obsessões.
E não falo apenas do clássico par de cornos que tanto terror inspira, mas que vale pelo que vale desde que um gajo não saiba ou, sabendo, não se importe. Neste exemplo concreto, para além da premissa de que depois de lavado e enxuto fica tudo como novo, a responsabilidade da coisa pode ser sempre atribuída à condição humana (a monogamia é um conceito muito escorregadio) e não ao fraco desempenho do(a) encornado(a). A tentação pode surgir ao virar da esquina...

Ao longo da minha existência a confiança que depositei nos outros foi sistematicamente abalada por episódios susceptíveis de a minarem de forma quase irreversível. O resultado, ao fim destas quatro décadas de aprendizagem à bruta, foi a consolidação de um critério que não dispenso nas minhas relações com as outras pessoas: toda a gente é suspeita até prova em contrário.
Ou seja, parto sempre do princípio que a cada entrada de alguém na minha vida corresponde mais uma potencial desilusão.

Não é fácil assumir as coisas desta forma, até porque colide com a posição oficial da maioria das pessoas. É mais frequente a malta seguir a onda de bute lá e logo se vê. Eu já vi, mais vezes do que desejaria. E por isso desconfio e fecho-me em copas. Ou disseco o alvo da minha estima até à exaustão, para me certificar da sua integridade de carácter antes de abrir a matraca e entregar à sorte as minhas confidências ou, mais complicado ainda, até me permitir amar sem reservas.
É um processo penoso e exigente, para mim e para quem se aproxime deste gajo cheio de nóias.

E não julguem que falo por falar. Quem conhece de perto a minha história sabe que já reuno uma lista apreciável de pequenas e de enormes traições no meu currículo, episódios que me provocaram grandes perdas e transtornos. Senti na pele a dor de dezenas de falsidades, mentiras, omissões ou meras tábuas rasas aos príncipios que prezo e nunca escondi a ninguém. E esta expressão (dor) não é utilizada à toa: dói mesmo, sentirmo-nos atraiçoados por alguém. Insisto: não estou a falar (principalmente) de cornos.

Sentimo-nos vulneráveis, sempre que alguém nos desilude em matéria de confiança. A segurança com que enfrentamos os outros depende sobremaneira das marcas que a vida nos deixa. Isso bastaria para tornar a lealdade (fidelidade? Nem ao meu cão posso exigir tal garantia...) um ponto assente na essência de qualquer relação de amizade ou de amor. Mas não é.
Nem preciso do meu exemplo, basta-me testemunhar as facadas nas costas dos outros para nelas (re)ver as minhas. Com os valores mais relevantes transformados em empecilhos arcaicos e a pedirem reforma, o mundo não está a evoluír no sentido de me acalentar esperança de encontrar ao longo do caminho meia dúzia de pessoas capazes de me desmentirem o pressuposto.
Em cada nova relação antevejo uma inevitável desilusão. E ajo de acordo com essa perspectiva pessimista.

Isso torna-me mesquinho, rigoroso, atento e desconfiado. Difícil de aturar. Mas é um preço que me obrigo a pagar, para manter alguma margem de cautela. São os meus mecanismos de defesa, nascidos como uma reacção espontânea (e talvez legítima) ao mal que os outros podem fazer-me quando lhes abro as portas. Cada vez menos, aliás, pois um tipo satura-se de lidar com os desgostos que a deslealdade acarreta.
Tenho plena consciência de que não arranjarei muitos amigos com este feitio...

Um dos aspectos que a minha forma de estar mais influencia é o da coerência. E por isso, porque são muito importantes para mim as vossas opiniões em tão delicada matéria, reabro nesta posta a caixa de comentários onde tanto me têm dado a aprender e a pensar.
Aliás, qualquer pretexto serviria para acabar com esta verdadeira tortura... :-)
publicado por shark às 11:12 | linque da posta | sou todo ouvidos