A POSTA GREENPEACE

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Nunca nutri qualquer espécie de animosidade contra os Estados Unidos da América. Reconheço até as similaridades "ocidentais" que nos aproximam de alguma forma e chocam-me as tragédias sofridas por aquele país como as ocorridas em qualquer outro ponto do planeta.
Todavia, quando o furacão Katrina despejou a ira da natureza em território norte-americano não consegui afastar um raciocínio muito simples: se este tipo de fenómenos tem na origem a negligência humana, então que prejudiquem os que mais contribuem para o destrambelhamento da coisa e que ainda por cima boicotaram Quioto. Ou seja, na óptica do utilizador-pagador...

Isto não é ironia e eu nunca brincaria com coisas sérias. São as vidas de pessoas comuns no prato desta tenebrosa balança. De um lado os todo-poderosos interesses económicos (e sociais, convenhamos) e do outro o irreversível caminho para o fim da civilização tal como a conhecemos. Na raia do absurdo, ao boicotarem as medidas de que o Mundo necessita para evitar o apocalipse os americanos privilegiam, por exemplo, a utilização desregrada dos seus magníficos automóveis. Para os verem arrastados pelos ares ou por caudais incontroláveis na sequência das catástrofes naturais que exponenciam com a sua incúria.
No final, contas feitas aos rastos crescentes de devastação e suas repercussões na indústria seguradora, no turismo e em basicamente quase todas as actividades económicas, é a galinha dos ovos de ouro a devorar-se aos bocadinhos.
E todo o planeta a suportar, directa ou indirectamente, a mais pesada das facturas.

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Foto: sharkinho


Só para terem uma ideia das proporções que isto já assumiu em 2005, avanço com uns factos associados às mais recentes catástrofes mediáticas. Da passagem do Katrina e do Rita, resultou aquilo de que todos temos apenas uma noção aproximada. Resultou o caos. Entre estas duas tempestades violentas, o Atlântico produziu outras cinco de igual teor. Não fizeram notícia porque não chegaram à costa.
Todos os anos, o National Hurricane Center prepara uma lista de 21 nomes para baptizar as "anomalias" que o clima produz. Para acautelar um ano menos bom, a partir do vigésimo-segundo o nome consiste numa letra do alfabeto grego. No momento em que escrevo esta posta, em plena época alta dos furacões, já só restam quatro nomes na lista e isso faz prever que não tardará a entrar em cena o furacão Alfa. O que não se verifica há 52 anos...

Os dados acima são públicos e vêm escarrapachados na Time desta semana. Depois de passado o efeito do choque provocado pelas imagens dantescas do que se passou em Nova Orleães, começam a surgir as vozes dos que associam estas borrascas de grau 5 em catadupa ao desrespeito pelos sábios conselhos dos ambientalistas.
Cientistas de renome arriscam, em nome do bom senso, apontar o dedo à relação causa-efeito entre esta fúria crescente dos elementos e a insensatez que nos ameaça com o aquecimento global (e posterior era do gelo) real e irreversível.
E não arriscam pouco, se tivermos em conta o pânico dos mandantes na nação mais abastada do planeta e a sua relação próxima com o tecido empresarial de primeira linha que, nos EUA, financia boa parte da investigação científica. Um dilema cruel para quem tenha escrúpulos e conhecimentos científicos ou dados quanto baste para corroborar as piores previsões.

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Foto: sharkinho

Em 1970 o número médio de tempestades de grau 4 ou 5 era de dez por ano. Desde 1990 esse número quase duplica (18). E é aqui que reside a fonte de preocupação: não se trata de uma questão de frequência mas de intensidade dos furacões. Os que acontecem são cada vez mais devastadores e surgem na mente de muitos como o sinal óbvio do descontrolo da mãe-natureza, meio grau centígrado mais quente no ar e nos oceanos (onde estas broncas em rodopio se formam).
O efeito estufa há muito deixou de ser um papão apocalíptico sem bases científicas. E mesmo que essas faltassem, os indicadores não cessam de dar à costa em turbilhão.

O pesadelo que os americanos viveram e que as condições climatéricas no Golfo do México (a temperatura da água, três graus acima do normal) parecem favorecer na repetição é apenas a ponta de um qualquer iceberg à deriva em resultado do degelo nas calotas polares. Isto não é ficção científica. É o caos a desenhar-se em directo enquanto nos refastelamos no sofá e aguardamos pela nossa pancada, sem levar a sério as mais elementares medidas de contenção do problema.
É mentira? Quantos de vós, conhecendo de perto o impacto da seca no nosso país, já afinaram os autoclismos ou reduziram o volume das respectivas descargas? E estou a referir uma catástrofe conterrânea que, embora menos espalhafatosa na acção, deixará marcas bem visíveis no país e ainda nem sabemos exactamente até onde farão sentir-se as suas consequências.
É este tipo de negligência global que dá força a idiotas como George Bush para travarem com o seu veto encapotado todas as iniciativas que possam por cobro a esta espiral de loucura.

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Foto: sharkinho

Estamos numa boa e nem com o pandemónio a instalar-se de armas e bagagens à nossa volta (esperem só até a seca vos atingir as torneiras) nos sentimos compelidos a levar estas cenas a sério.
Perante isto, um gajo quase torce para que dobre o preço do petróleo e assim encostem às boxes os excessos que nos andam a tramar.

Há dinheiro ou (ilusão de) conforto que justifique esta hipoteca do futuro das gerações posteriores à nossa?
A resposta sincera a esta pergunta deveria bastar para encher de juízo as nossas cabeças e moldar-nos o comportamento.
Será?
publicado por shark às 00:27 | linque da posta | sou todo ouvidos