CONVERSA SEM OS BOTÕES

Notava-se pelos gestos como pelas expressões que o seu discurso era coerente. Pelo menos de forma aparente, pois toda a gente que com ele se cruzava sorria ou protestava mas ninguém afinal parava de propósito para o ouvir.

Só dois ou três rapazolas, gozões, mantinham-se próximos o bastante para lhe perceberem as palavras mas era óbvio que não lhes dedicavam qualquer atenção que estava toda centrada na figura do orador.

 

No entanto, ele prosseguia a animada conversa como se estivesse na boa, ao balcão do café do costume num dia rotineiro, num dia normal.

A pasta de executivo na mão, impecável, denunciava-o como um quadro intermédio ou superior, talvez alguém com imenso valor no desempenho das suas funções.

A aparência cuidada, embora o que se vê nem sempre corresponda à realidade dos bastidores de cada um, permitia concluir que aquele sujeito conversador teria um estatuto social elevado, classe média superior. Ou mesmo ainda melhor se de uma qualidade falamos. 

 

Pouco mais se poderia extrair a partir de uma mera observação com rigores de mirone circunstancial, alguns minutos apenas que entretanto o espectáculo acabou quando as cortinas tombaram sobre o palco improvisado daquele cidadão, sob a forma de um cobertor cinzento, barato, com que a polícia enrolou aquele homem completamente nu e o encaminhou à pressa para o interior da unidade móvel que alguém solicitara para acorrer ao local.

publicado por shark às 09:49 | linque da posta | sou todo ouvidos