A POSTA INÚTIL

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Às vezes ponho-me a pensar no que distingue o homem que sou aos quarenta do que fui na casa dos vinte. Claro que me ocorre de imediato a comparação em termos de desempenho sexual, que nós homens só pensamos nessa cena.
Existe um abismo entre essas duas versões de mim. Entre o gajo que dava com ele de cu para o ar na berma de uma estrada nacional, interrompendo uma caminhada de quilómetros com uma loira imparável, e o que hoje desdenha o interior de um automóvel em detrimento de uma autocaravana com duche quente e cama de casal.

Considerando o lado excêntrico da minha personalidade, que os grisalhos não conseguiram exterminar, até me vejo capaz de jogos eróticos no adro de uma igreja de província ou coisa assim. Ou seja, dou largas à loucura quando esta se apodera de mim.
Todavia, tornei-me mais selectivo. Nos ambientes e nas companhias. Não é uma questão de menos... entusiasmo, acredite quem quiser, mas apenas a vontade de ir sempre mais além do que a simples rapidinha ao som das buzinas e à luz dos faróis das viaturas que passam. E essa parece constituir a principal diferença, a exigência da privacidade que me disponibiliza para algo mais.

Ouvia esse discurso dos cotas, na altura, e pensava com os meus botões: "Pois, pois... Tens é falta de força na verga e agora contas-me histórias de encantar". Eles afirmavam que com a idade um tipo fica mais refinado na arte do amor, mais empenhado na qualidade do que na quantidade (sem, contudo, renegar esta última - o que é bom nunca é demais).
Hoje admito que tinham razão. Por muita piada que encontre nas trapalhadas que protagonizei, caçado a toda a hora pela polícia, pelos vizinhos, pelos pais ou pela guarda florestal em pleno desfrutar de uma maluqueira a dois. Ou mais.

Prefiro o sossego de um quarto de hotel, uma noite inteira para explorar (incluindo um sono retemperador, com os pelos do peito agitados pela respiração tranquila de uma amante especial). Um cenário mais intimista, mais privado. Mas que não afasta de todo o ritmo acelerado de uma sessão a roçar o pornográfico nas poses e nos sons. Algo que me seduz mais do que o sexo abafado numa tenda, campista de ocasião que sempre fui, ou despachado numa praia, cheio de medo de hipotéticas intrusões. Quase para cumprir, quando o gozo que hoje encontro reside no prolongamento concentrado de um delicioso ritual. O clima, que tanta importância adquiriu nesta nova fase da minha vida sexual, cultivado na atenção às questões de pormenor. As da outra pessoa também, submetida às suas próprias pressões, e que me esforço por descontrair. Basta fugir às circunstâncias que podem amplificar receios e preocupações, insistir num conjunto de factores que espantam os constrangimentos de ocasião. O tal recolhimento ponderado que evita as surpresas e os embaraços que podem deitar tudo a perder.

Hoje sinto que é essa a forma de estar que mais se adequa ao perfil que me moldei. E claro que isto nada vos diz ou interessa, mas faz parte da minha natureza e eu tenho que preencher as minhas postas com algo de meu para vos dar. Mesmo informação inútil como esta vos deve soar, coisas íntimas que é costume a malta guardar para si.
Mas eu sou assim e foi assim que vos habituei. Sou apenas mais um (o gajo regressou!), mas gosto de escrever as coisas que me definem, que possam nalguns aspectos distinguir-me da multidão.
E este é o suporte ideal para debitar o resultado inócuo das minhas introspecções.
publicado por shark às 11:55 | linque da posta | sou todo ouvidos