A POSTA NO ALEGRE

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Como referi na posta anterior, sinto necessidade de falar um pouco de política. Sob a minha perspectiva, menos doutrinária e mais virada para o mérito das pessoas que a executam por mim (militante do sofá). Ou seja, não tenho paciência para debater as ideologias quando sei que essas pouco diferenciam a prática dos que as corporizam nas estruturas que a democracia disponibiliza.
Sou de esquerda e na maioria das coisas encaixo-me no que se convencionou apelidar de liberal. Por outro lado, sou nacionalista e coloco a Pátria acima de qualquer questão partidária ou ideológica. Interessa-me mesmo o melhor para o país. E o melhor para mim são as pessoas.

Existem gajos que me causam urticária só de os ver. Como o do bolo-rei à boca cheia, arrogante e autoritário. Ou o intelectual armado aos cucos só porque engatou uma gaja boa mas que é capaz de virar as costas à mão que um adversário lhe estendeu. Ou a figura mítica que se desdiz e trai um amigo por motivos que, estou certo, nada têm a ver com a defesa dos interesses da Nação.
Representam, à direita e à esquerda, um tipo de gente a quem nunca confiaria com o meu voto qualquer lugar proeminente na gestão do rumo do meu país. Gente falsa, sem palavra, gente mesquinha que apenas se serve da projecção mediática para subir nas sondagens que denunciam o muito que há por fazer nas mentalidades do eleitorado de papalvos que decide estas coisas. Papalvos sim, e basta citar os exemplos que nos chegam de Gondomar ou de Felgueiras, de Amarante ou de Oeiras.

Vamos falar sério: o dr. Mário Soares destes dias representa tanto os ideais de esquerda, socialistas, como o dr. Cavaco Silva representa os do PSD que há pouco tempo traiu (ou já ninguém se lembra da polémica do cartaz?) ou a direita representada pelo PP. São duas candidaturas tão sérias como o Benfica convocar o Eusébio para a equipa principal, o Sporting repescar o Yazalde ou o Porto contratar o Fernando Gomes (esse não, carago, o outro, o que também sabe jogar de cabeça mas não mete as mãos pelos pés).
Não estão em causa os mui dignos estatutos de avôs destas criaturas, mas sim o anacronismo destes males menores.
Eu sou de esquerda e apoio sem reservas uma candidatura do poeta Manuel Alegre. É nele que revejo a esquerda que gosto de apreciar. A força, a seriedade, o empenho, a ingenuidade de defender uma causa sem entregar a alma às sanguessugas. Não é um santo, o Manuel. Mas leio-lhe nos olhos e na voz uma forma genuína de viver estas coisas, uma sinceridade à flor da pele que lhe terá custado o ostracismo do aparelho partidário. Contudo, eu vou ajudar a eleger uma pessoa e não uma ideologia, vou votar no homem que me parece mais capaz de enfrentar com dignidade o desafio de manter na ordem uma maioria absoluta.
Sem hostilidade, apenas pela honra. Pelo lugar na história que o Manuel Alegre já mereceu e quer consolidar.

A candidatura de Mário Soares tresanda a bafio de bastidores, "apoiamos este, pois o outro não tem hipóteses de ganhar e o marocas até alinha sempre com a malta", tanto quanto a de Cavaco Silva é fruto do desespero de um centro-direita sem alternativas. Tão mau que até o advogado do Bibi sentiu a pressão da sociedade civil para avançar com a sua fantasia. O circo instalou-se de armas e bagagens na cena política nacional. Mas os palhaços somos nós, os que deixamos andar a cena sem ao menos motivarmos as pessoas de bem para recuperarem as rédeas desta carroça desgovernada.
É nesse contexto que apoio o Manuel Alegre, como não hesitaria em apoiar, contra Mário Soares e a desconfiança que me inspira, um candidato decente que a direita pudesse apresentar. É como nas autarquias: voto no partido que melhores provas deu, mesmo que tenha como certo o contrário numas legislativas. São realidades diferentes que as pessoas (e os políticos) confundem.

Sou benfiquista mas não me revejo nas cenas de taberna (apoios eleitorais descarados, trambolhões etilizados ou desacatos nas assembleias) que o clube da minha simpatia atraiu nos últimos tempos. Sou um benfiquista do tempo do Fernando Martins.
Tal como na esquerda não papo este grupo socrático que as circunstâncias favoreceram. Sou do tempo dos homens que lutaram pela Liberdade por convicção e que abraçaram a causa pública, que ainda não desistiram das suas utopias.

O Manuel Alegre é, por isso mesmo, o meu candidato presidencial. E pela parte que me toca, a única opção realista para embaraçar os que avançam pelo umbigo e não pela coerência.
publicado por shark às 18:14 | linque da posta | sou todo ouvidos