A POSTA IMORAL

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Foto: sharkinho

Nunca consegui assimilar na catequese aquele conceito bizarro de "dar a outra face". Era um puto, mas lembro-me de me rir à brava quando percebi o fulcro da questão. Levar uma lambada e oferecer o outro lado da cara para encaixar a segunda...
Foram estes aspectos secundários que me levaram a questionar a moral cristã. Daí à crise de fé, incendiada pela reacção hostil que as minhas interrogações suscitavam, foi um tiro. Iniciado este processo, não tardaram as repercussões.
Acabei expulso do templo, diante da multidão de crentes-vizinhos, no que constituiu o primeiro rude golpe na imagem pública do filho dos meus pais, porque perguntei em voz alta o que estava a fazer ali e porque me obrigavam. Foi o advento da ovelha ranhosa de uma família a que em tempos pertenci.

Mas regresso à cena da estalada.
Antes mesmo da entrada (fatal comó destino) para o rebanho da paróquia local, já o meu pai me ensinava os rudimentos de defesa para qualquer puto de um bairro cheio de durões. E não tardei a perceber que a melhor defesa, na maioria das circunstâncias, era o ataque surpresa. Oferecia a outra face mas era para distrair o opositor, enquanto a mão alçada ou uma valente joelhada resolviam a situação. Violência gratuita e tal. Pois é. Mas deu-me um jeitão, quando a rua me provou que o cota tinha razão. O respeito conquistava-se dessa maneira, à viril das avenidas, e não havia lugar para a misericórdia.

É que os gajos normais até caíam em si, se um tipo lhes oferecesse a outra bochecha. Mas os mesmo maus reagiam como os cães selvagens perante uma pessoa com medo. Mordiam a doer. E um tipo aprendia a lição, à custa dos católicos que se deixavam espancar em nome de um conceito de duvidosa aplicação. Na prática, enfardavam que nem coirões e não havia santinho que lhes deitasse a mão nessas difíceis provações. Um nobre sacrifício, mas em vão. Os filisteus não se convertiam e nós agnósticos também não...

Isto para explicar que mesmo nesta fase menos agitada da minha vida ainda não encaixei a coisa, embora lhe reconheça enorme potencial em determinados contextos. Até já pratiquei, só por piada, e confirmei o pressuposto mais acima: mordem que nem cães e não apreciam a beleza de uma atitude tão louvável. E depois um gajo tem que retribuir, ou nunca mais lhe largam as pernas. A ele e a quem se prestar a esses rituais de beatificação que o mundo real, que não reza por aí além, só entenderá quando o Cristo regressar para pôr ordem na barraca em que se tornou esta complicada criação do seu Pai.
Ignorar quem me ameaça ou agride, ainda vá. De vez em quando. À primeira.
Mas quando insistem em repetir a graça, molhando a sopa no aparente bonzão, a coisa muda de figura.
Não me fico.
É que o respeitinho é muito bonito...
publicado por shark às 20:22 | linque da posta | sou todo ouvidos