A POSTA NA NOVELA

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A posta anterior é um exemplo de um estilo corriqueiro nestes blogues intimistas ou pessoais, como o charco. É um recado enviado a alguém que bloga (como blogueiro/a, comentador/a ou apenas visita regular), camuflado entre uma ilustração ambígua, um texto sem nexo e um título que diz apenas metade do que se pretende dizer. É uma espécie de posta com mascarilha.
A ideia é apenas o/a destinatário/a e mais meia dúzia de "mais próximos" entenderem a cena. E isso até pode acontecer, quando o/a visado/a frequenta todos os dias o blogue emissor. Mas na blogosfera existe um problema com que podemos defrontar-nos: os estilhaços da coisa, a água que transborda na sequência do mergulho de chapão.

Quer isto dizer que às vezes a cena é mal interpretada e qualquer transeunte da blogosfera com um umbigo sobredimensionado enfia a carapuça com base no seu imaculado poder de especulação. "É pá, o gajo tá-se a meter comigo. Ganda cabrão...". E muitas vezes não. Era mesmo para o url do lado e o carteiro electrónico despistou-se um bocado e a mensagem foi cair nas piores mãos. Uma bronca, logo a seguir. A resposta ao recado não demora a sair. E tem início outra escaramuça virtual que pode arrastar blogues aliados, com estratégias como nas guerras a sério e tudo.

Outras vezes não. A "bomba" rebenta no alvo e o impacto é menor, confina-se aos adversários em disputa. Regra geral há um que faz de aldrabão, o contador de histórias. O outro, por norma bem informado, atira-se como gato ao bofe e tenta desmascarar o primeiro sem contudo se exceder na mira quando aponta o dedo. O "mau" é anónimo e não tem piada que possa identificar-se na boa como o alvo a abater. Faz parte das regras deste jogo blogueiro sempre cheio de animação.
O que chateia é que a cena, rebuscada e macabúzia, nem sempre resulta no trocadilho. E se ninguém a percebe, fica o que a envia no papel do maluquinho. Outras vezes é na outra ponta do fio que se instala a confusão, confunde-se bagaço com cagaço e até polícia a coisa pode meter...

Dantes a malta reinava bué com estas cenas fixes, um ganda exercício mental e de coordenação motora (quando um gajo tem o telemóvel entalado entre o ombro e a orelha, uma caneta numa mão e a outra a pressionar as teclazinhas como quem cata milho no chão). E dava pica, ver a malta a esgalhar uma ganda prosa com insultos cheios de rendinhas, depois os amigos da casa a comentarem (mesmo sem fazerem a mínima ideia do que está em causa). E depois a resposta, ainda mais entaramelada no discurso, e os comentadores desse espaço a fazerem bruá. Pingue. E a seguir pongue. Paciência de chinês...
Dou-vos um exemplo concreto, sem merdas. O simples facto de eu falar neste assunto vai merecer uma associação de ideias. E tento explicar o conceito:

"Ah, já tou a ver... O gajo teve um desatino com o tal, até deu merda com fulano por causa do que disse à sicrana. Se ele fala de caridade vê-se logo que é uma metáfora, tás a ver? Ele quer dizer tenra idade, porque o outro é mais novo. Ou coisa que o valha." Ou qualquer outro raciocínio abstrôncio que conduza à ligação mais sumarenta possível e alimente a cusquice que nós blogueiros já provámos apreciar. Generalizei. Não devia, bem sei. Mas é uma das características que me incomodam na blogosfera, esta tendência para a adivinhação no plano das intenções. Assim como andarmos às apalpadelas em busca da lâmpada fundida, cegos pela luz do conhecimento que se apagou no meio de tanta trica e discussão. E a criatividade também se viu afectada, sem tempo nem clima para se espairecer pelo céu destas nossas criações, encoberto pelo manto da interactividade de uma novela mexicana. Que espanta os fregueses "de fora".

A blogosfera amornou. E eu acho que a culpa é do mordomo. Mas claro que isto não passa de sentido figurado.
O recado lá chegou...
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publicado por shark às 01:16 | linque da posta | sou todo ouvidos