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CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

11
Set05

ALMOÇO EM FAMÍLIA

shark
outro lencol.JPG
Olha, o Sharquinho ou Charkinho ou lá o que é já estendeu mais um lençol...

Tenho vindo a ensaiar uma atitude menos emotiva perante quem se esforça por me encolerizar. Não é fácil, acreditem, passar do oitenta ao oito de um dia para o outro. Explode-nos o peito com a pressão. Engolimos em seco, pigarreamos, disfarçamos a ira imediata com uma simples passagem da mão pelos cabelos mais uma contagem mental até dez.
É um exercício excelente na óptica do autoflagelo, ensina-nos a sermos pessoas melhores através da técnica da chaleira entupida. A gente ferve mas o apito não soa, ecoa dentro de nós como uma locomotiva a vapor. É um processo que quase nos leva à loucura, mas só na altura, ficamos felizes à brava depois da coisa passar. Ou esforçamo-nos por acreditar...

...Que vale a pena o sacrifício de não responder em consonância com a estupidez que nos atordoa quando nos inibimos de reagir. É que a cena funciona e evita muitos males maiores, os que nos afloram a mente a um ritmo constante quando nas trombas recebemos uma dose de hipocrisia, uma pessoa com a mania, um discurso infeliz por parte de um parvo qualquer. Às vezes sou eu que visto a pele deste último e safo-me apenas pela paciência de quem me atura, a estoicidade da amizade ou do amor. Tenho mesmo que retorquir na mesma moeda, aprender como se faz, e treino com batráquios que engulo. Sem os mastigar.

Os resultados são do melhor. Não fazemos má figura e enquanto nos mentalizamos para não disparar um "vai à merda" (ou pior) já nem escutamos o que nos tentam dizer. E não nos fixamos no lado mais negro da coisa, transportamos para Marte o que conseguimos salvar da nossa consciência amolgada e de repente já nem estamos ali. Diante do agressor. Retirada estratégica para evitar o pior, um impulso daqueles que nos fazem perder num berro a razão que nos assistiria noutro tom. É disso que tento escapar, das consequências da minha natureza de refilão. Até um certo ponto, onde corto o mal pela raiz, deixo crescer a erva daninha até me roçar com a mostarda no nariz. Aí sou eu outra vez, um exaltado tubarão, e disparo um "bolinha baixa que o guarda-redes é anão" (ou uma mais curta).
O caldo entornado sem necessidade nenhuma.

E na maioria das vezes nem vale a pena, não se justifica uma reacção ao que nos agride ou perturba. Basta o desprezo para ilustrar o que a alma reprimiu. A chaleira sem assobio e um gajo com a tola na morte da bezerra, longe do episódio, concentrado num ponto de luz imaginário ao fundo do túnel em que enfiamos a nossa fúria para que se distraia. E balbuciamos uma trivialidade qualquer, "pois é, o Benfica jogou mesmo mal". Perdeu com o rival e estragou ainda mais a disposição de qualquer verdadeiro lampião, mudar de assunto depressa. Entretanto o pomo da discórdia arrefeceu e na marinha que seguiu embarcou a nossa vontade de partir a loiça. Uma vitória do bom senso e da ponderação. Um orgulho...

Nem sei por quanto tempo aguentarei. E já releio o Dalai Lama.
Para que sempre que faço a minha cama consiga pensar, pelo menos duas vezes, antes de estupidamente nela me deitar.

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