ALMOÇO EM FAMÍLIA

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Olha, o Sharquinho ou Charkinho ou lá o que é já estendeu mais um lençol...

Tenho vindo a ensaiar uma atitude menos emotiva perante quem se esforça por me encolerizar. Não é fácil, acreditem, passar do oitenta ao oito de um dia para o outro. Explode-nos o peito com a pressão. Engolimos em seco, pigarreamos, disfarçamos a ira imediata com uma simples passagem da mão pelos cabelos mais uma contagem mental até dez.
É um exercício excelente na óptica do autoflagelo, ensina-nos a sermos pessoas melhores através da técnica da chaleira entupida. A gente ferve mas o apito não soa, ecoa dentro de nós como uma locomotiva a vapor. É um processo que quase nos leva à loucura, mas só na altura, ficamos felizes à brava depois da coisa passar. Ou esforçamo-nos por acreditar...

...Que vale a pena o sacrifício de não responder em consonância com a estupidez que nos atordoa quando nos inibimos de reagir. É que a cena funciona e evita muitos males maiores, os que nos afloram a mente a um ritmo constante quando nas trombas recebemos uma dose de hipocrisia, uma pessoa com a mania, um discurso infeliz por parte de um parvo qualquer. Às vezes sou eu que visto a pele deste último e safo-me apenas pela paciência de quem me atura, a estoicidade da amizade ou do amor. Tenho mesmo que retorquir na mesma moeda, aprender como se faz, e treino com batráquios que engulo. Sem os mastigar.

Os resultados são do melhor. Não fazemos má figura e enquanto nos mentalizamos para não disparar um "vai à merda" (ou pior) já nem escutamos o que nos tentam dizer. E não nos fixamos no lado mais negro da coisa, transportamos para Marte o que conseguimos salvar da nossa consciência amolgada e de repente já nem estamos ali. Diante do agressor. Retirada estratégica para evitar o pior, um impulso daqueles que nos fazem perder num berro a razão que nos assistiria noutro tom. É disso que tento escapar, das consequências da minha natureza de refilão. Até um certo ponto, onde corto o mal pela raiz, deixo crescer a erva daninha até me roçar com a mostarda no nariz. Aí sou eu outra vez, um exaltado tubarão, e disparo um "bolinha baixa que o guarda-redes é anão" (ou uma mais curta).
O caldo entornado sem necessidade nenhuma.

E na maioria das vezes nem vale a pena, não se justifica uma reacção ao que nos agride ou perturba. Basta o desprezo para ilustrar o que a alma reprimiu. A chaleira sem assobio e um gajo com a tola na morte da bezerra, longe do episódio, concentrado num ponto de luz imaginário ao fundo do túnel em que enfiamos a nossa fúria para que se distraia. E balbuciamos uma trivialidade qualquer, "pois é, o Benfica jogou mesmo mal". Perdeu com o rival e estragou ainda mais a disposição de qualquer verdadeiro lampião, mudar de assunto depressa. Entretanto o pomo da discórdia arrefeceu e na marinha que seguiu embarcou a nossa vontade de partir a loiça. Uma vitória do bom senso e da ponderação. Um orgulho...

Nem sei por quanto tempo aguentarei. E já releio o Dalai Lama.
Para que sempre que faço a minha cama consiga pensar, pelo menos duas vezes, antes de estupidamente nela me deitar.
publicado por shark às 22:45 | linque da posta | sou todo ouvidos