A POSTA MUITO DEDICADA

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Dedico esta posta a todos(as) quantos(as) conseguiram enganar-me, trair-me, ludibriar-me ou de alguma forma fazem ou fizeram pouco de mim. Dedico-lhes a minha admiração pela sua capacidade e engenho para o conseguirem. E o meu respeito pela habilidade que tiveram para me humilharem, me desiludirem ou simplesmente exporem o lado mais ingénuo do meu quase extinto amor pelas utopias.
Não é fácil obter sucesso em tal empreitada, gostaria de acreditar. Mas desacredito e apenas reflicto acerca das inúmeras ocasiões em que me vi confrontado com uma queda do céu. E perdi. Perdi sempre algo de precioso na ressaca de mais uma desilusão. Para sempre, como o tempo (mais um aliado inesperado dos(as) artífices da minha vergonha) se encarrega de provar. Perdi também o amor ao perdão.

Mas resisti, naturalmente. E aprendi a desconfiar. Em demasia, até. Pura ilusão. Nas manhas dos(as) que intrujam existem trunfos que não consigo combater. Porque o desgosto tem origem nos mais próximos de mim, regra geral. Os de fora apenas assistem, regozijam, ou assumem-se cúmplices da tramóia por simples diversão. O palhaço sou eu, nessas alturas. Assumo-o sem qualquer constrangimento ou embaraço porque apenas me iludem os que gostam de mim. Porque lhes dedico a minha estima e lhes entrego o coração, exponho-me à traição. Ainda que desconfie, afinal. Somos todos assim, os que insistem em acreditar na amizade séria e na paixão duradoura. Vulneráveis à confiança que precisamos de depositar.

Baixei os braços, entretanto, e aceitei a realidade tal como ela se pinta. Uma realidade que não desenhei nem esculpi. Uma ficção, no contexto das farsas em que a vida me obriga a participar. O bobo da corte, quer queira quer não, ao alcance de qualquer mão empenhada em me atraiçoar. Peito aberto, consciente da fragilidade do meu papel de incréu. Como referia, cada vez menos agnóstico, cada vez mais ateu.
A traição pode vestir-se de muitas peles e as palavras são como os folículos que se soltam a cada instante, ferramentas essenciais para arquitectar um engano ou uma omissão. Ou apenas um sinal oposto ao que se pretendia, revelado num simples descuido ou numa mensagem muito fácil de interpretar. Das que ilustram a essência do que se vive na alma de quem a enviou apenas no intuito de sujar o receptor. O destinatário da revelação de uma ideia muito porca acerca da natureza das suas intenções. Para desviar as atenções da culpa que cada um carrega no seu fardo de medos e de realidades difíceis de enfrentar de outra forma, as genuínas.

Mas também eu já traí. E admiti. Pago por isso o preço que a vida me apresentar, a repercussão das minhas escolhas, o descrédito que as minhas confissões acarretam.
O preço de uma forma ambígua de experimentar a solidão.
publicado por shark às 11:27 | linque da posta | sou todo ouvidos