AMOR IMPOSSÍVEL

Na Única, a revista do Expresso, encontrei uma história de amor daquelas dignas de filme. Uma história à americana, intensa e trágica, como os génios de Hollywood sempre dominaram e souberam espalhar pelo mundo como se vê.
Um dos protagonistas da história é precisamente um Tenente-Coronel do exército dos EUA, destacado no Iraque como tantos outros arrastados para um conflito com contornos ainda mais aterradores dos que desenham os veteranos da Coreia ou do Vietname.

Mas mesmo na guerra o amor consegue, como aquelas plantas que brotam por entre uma simples frincha no cimento ou no alcatrão, singrar. E calhou apaixonar o garboso oficial por uma médica iraquiana, uma mulher encantadora mas inevitavelmente suspeita numa zona do planeta onde até as sombras provocam temor.
Venceram esse medo com a ajuda da paixão e enfrentaram também a barreira colossal da religião que os colocava nos antípodas um do outro, naquela terra de cruzadas onde germina em lume brando um novo choque de civilizações.
O Tenente-Coronel ocidental aprendeu a amar o Islão, converteu-se sem abdicar de um outro amor, à pátria que serviu enquanto militar até ao dia do final da sua comissão.
Regressou à América casado com uma vida nova, bem diferente da que se esperaria em condições normais.

Nos primeiros dois parágrafos tento reflectir a conjugação que prendeu a minha atenção aquela história em particular. Por um lado, a dimensão grandiosa de qualquer amor tido por impossível mas que insiste em prevalecer. Pelo outro, os bizarros desígnios com que o destino molda os caminhos que cada um de nós percorre numa existência.
É impressionante constatar a escassez, a quase irrelevância da nossa capacidade de intervenção naquilo que o acaso produz.
E entro agora no terceiro elemento que me conduziu a leitura daquele texto desapaixonado, pragmático, até ao fim como espero ter conseguido fazer contigo que me lês nesta altura.

Depois de alguns anos de vida a dois, com as inerentes dificuldades que uma relação nascida daquela forma pressupõe e implica com toda a certeza, concluíram que o Iraque, berço daquele amor complicado, precisava cada vez mais de ajuda na sua recuperação como país.
Os relatos que lhes chegavam eram como gritos que incomodavam ao ponto de entenderem que a nova fé do militar de carreira, a sua posição privilegiada enquanto intérprete dos dois mundos em conflito tornava-o fundamental, precioso, para fazer a ponte por onde se pudesse sonhar com a paz que tarda a acontecer.
E ele acabou por regressar, sem ela para a poupar aos perigos de uma hostilidade inevitável por parte dos seus, e abraçou essa missão que o amor lhe dizia indispensável.
E a lógica também.

Embora ela própria se desminta, mais à que atribuam a qualquer guerra, no epílogo da tragédia que esta posta partilha à luz da minha percepção.
Ele morreu numa explosão concebida pelos conterrâneos da sua amada, quando de uma parte de si próprio abdicava para conseguir oferecer-lhes a esperança que afinal o perdeu.
publicado por shark às 12:55 | linque da posta