A POSTA NO IPIRANGA

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Aos poucos, a corda foi-se enrolando em torno do seu corpo incauto. E da sua mente, que esvoaçava livre entre sonhos e fantasias até ao aperto final num nó. Deu por si manietado, atrofiado, com dificuldade de respirar. E de pensar, cansado de embater com violência contra as paredes da gaiola que o confinava à escuridão.

Parou de resistir sem rumo e sem pequenas vitórias a que se pudesse agarrar para justificar a insistência. Inspirou o mais forte que conseguiu, tentando aliviar a pressão. Depois expirou. E repetiu vezes sem conta o exercício respiratório que o acalmou e afrouxou a liana que lhe limitava qualquer movimento que pudesse executar. A mente, contudo, reagia com lentidão ao choque da mudança, demasiado brusca para facilitar uma readaptação. A mente tardava em colaborar na sua nova e surpreendente missão.

Acenou-lhe, à mente, com o espectro do fim. O que a esperava caso não sacudisse a letargia, caso não combatesse a apatia, se porventura insistisse no torpor que cedo ou tarde os sufocaria. À mente e ao corpo que o constituiam, em risco partilhado naquela inédita situação.
O aceno resultou.
Aos poucos, a mente deu início ao processo imparável de aceleração. Só o seu melhor desempenho poderia valer de algo em condições tão dramáticas. A mente concentrou-se na liberdade de que se sentia privada e depressa a revolta alastrou. O grito abafado agigantou-se junto à porta de saída que lhe tentavam amordaçar. Os olhos abriram-se de par em par e viram por entre as frestas a verdade que a venda improvisada lhes tentava ocultar. Audição mais apurada, já os sons imperceptíveis ganhavam contornos de palavras e de ideias que podiam ajudar na luta pela libertação.

Os músculos começaram a empedernir, cada vez mais tensos. O corpo tremia em convulsão, uma força irresistível mesmo à beira da tampa ilusória na cratera incandescente do vulcão. Ouvia os estalidos secos dos fios de corda que cediam, um a um, à energia poderosa que a mente lhe transmitia. Super poderes alimentados pela imaginação, tão reais como a sede de libertação. Células unidas em torno de um objectivo comum. A força multiplicou.

Enfurecido contra a corda que o oprimia e quase o estrangulou, aguardou com frieza o momento da explosão. Deixou-se estar, toque a reunir calado no interior, a mente entretida a sacudir os restos de medo, de dúvida e de hesitação. Desprevenido o carcereiro, quando da boca do prisioneiro soaram mil sirenes e dos seus pés rufaram os tambores, tropas que marchavam, regimentos de esperança em dias melhores.

A corda desfez-se como um vulgar fio de costura. Demasiado esticada, partiu. Livres de novo, corpo e mente num só, determinados em escapar do cativeiro com o menor preço a pagar. A liberdade devia ser de borla, adquirida no acto de nascer, colada à nossa pele como uma tatuagem que nos acompanha até ao fim. A liberdade noutra forma, eternidade na terra ou no céu. O inferno estava ali, na masmorra que o rodeava e na sua fúria devastadora para dela se libertar. No urro que soltou quando lhe acabou a paciência e a mente o avisou de que estava preparada, acordada para lutar. No olhar tresloucado que lançou a quem se pudesse opôr à caminhada que iniciou. Passo a passo, sempre alerta, até recolher do carcereiro a chave dos grilhões imaginários que a corda simbolizava. Para a lançar pela janela, para o fundo do rio onde ninguém algum dia pudesse reencontrá-la. Para nunca mais alguém repetir a façanha.

Foi a mente que o alertou para essa ameaça futura, escura, que sempre penderia sobre quem ignorasse a urgência de preservar a liberdade sob todas as suas formas. Até roçar a anarquia, cada um sabe de si. Demasiado atento era agora uma expressão vazia de sentido. Na demasia. No troco que a vida lhe daria, caso tardasse em pagar o preço que a liberdade lhe exigia.

Apenas um pouco mais de atenção. Praticamente de borla, concluiu.
publicado por shark às 21:41 | linque da posta | sou todo ouvidos