A POSTA DE CONFIANÇA

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A confiança é talvez um dos temas mais delicados de comentar. Isto porque existem possibilidades infindas de colocação (e de definição) da fasquia, de acordo com a credulidade ou a intuição de cada um de nós. E porque temos diferentes mecanismos de provar a nossa confiança aos outros e de comprovar as suas.
Ou seja, para além de a confiança não ser mensurável (cada pessoa tem a sua escala única) e só poder avaliar-se com base nos actos e nas omissões de quem analisamos nessa perspectiva, temos ainda que contar com o grau de envolvimento e de intimidade entre quem estabelece relações com base no princípio da confiança recíproca. É lixado dizer algo de minimamente consensual acerca de um assunto assim, um pouco como discutir o sexo dos anjos ou coisa que o valha.

No entanto, todos temos uma opinião nesses temas. Até porque lidamos com eles a toda a hora nas nossas relações familiares e sociais (profissionais, também) e acabamos por desenvolver as nossas perspectivas. A minha é certamente diversa da de cada um de vós the few que irão ler esta posta até ao fim.

Eu sou da escola dos que acreditam mais nos actos (ou nas omissões) do que nas palavras. E tento até guiar a minha conduta com base nessa forma de ver as coisas, agindo no momento apropriado quando sinto que preciso de provar a minha confiança a alguém. Prefiro arriscar uma acção desajustada do que uma omissão comprometedora. É esta a minha forma de entender a confiança que quero merecer dos outros e é aí que consiste a minha avaliação das suas.
As palavras são importantes, claro. Até porque quando devidamente registadas na memória ou noutro suporte qualquer constituem um claro indicador da coerência de quem as profere. As malfadadas contradições que traem quem tenta fazer-se confiar sem bases sólidas para o merecer. E tem sido assim que detecto algures as traições a esse pressuposto da confiança que muito prezo e tanta gente próxima me quebrou. Ao pressuposto e à minha capacidade de confiar às cegas.

Porque isto da confiança é uma vara de dois bicos. Se confiamos de peito aberto arriscamo-nos a terríveis desilusões e se, pelo contrário, exibimos a nossa cautela quando expomos as incoerências que nos desnorteiam tomam-nos por desconfiados e afastam-se de nós (nem que apenas para esconderem a fragilidade da sua argumentação).
Estão a ver o problema, não é? Preso por ter cão...

Confesso que as minhas circunstâncias pessoais demoliram a estrutura inicial da minha fé nas outras pessoas. De crente passei a agnóstico e por este andar acabarei ateu.
É impossível confiar sem prudência quando se veste o coiro do gato escaldado ou se possui pouca capacidade de resistência às desilusões. E isso acarreta um fardo insuportável para quem gosta de pessoas como eu, o de se sentirem de alguma forma permanentemente postas à prova, questionadas em cada uma das suas palavras ou acções (ou, repito, a respectiva ausência no momento adequado) sempre que desmentem ou colocam em causa a confiança de que alegam serem merecedoras.
É preciso amar imenso (aplica-se na amizade também) para aturar alguém como eu, não posso colocar as coisas de outra forma. Desconfio até prova em contrário e nunca aplico os princípios gerais do estado de direito nessa matéria. Isso acarreta consequências inevitáveis na quantidade de pessoas que me rodeiam. Mas esta filtragem também me garante a qualidade, o calibre de quem consegue aceder ao melhor de mim, onde se incluem as contrapartidas que tenho para oferecer a esse leque (muito) reduzido de pessoas que considero da minha inteira confiança.

Nunca me beatificarão.

Também falho nesse capítulo e assumo sem vergonha os meus pecados na matéria. A confiança pode trair-se por um simples equívoco ou por uma causa de suma importância, acontece a qualquer um de nós. E é quase impossível recuperá-la, sobretudo quando estão em causa pessoas com atitude similar à minha.
É que pessoas como eu entendem a confiança como um critério infalível de selecção das companhias, em qualquer domínio dos que citei mais acima.

Mas também nunca poderão comer-me por parvo.
publicado por shark às 23:01 | linque da posta