A POSTA NO CLIMA TROPICAL

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As questões climatéricas andam na ordem do dia. Pelas alterações catastróficas que o desleixo humano provoca, pelo calor que se faz sentir nesta altura (e que os bastardos pirómanos aproveitam para exercer o seu hediondo papel) ou pelo simples facto de o clima influenciar sobremaneira o nosso comportamento e os hábitos de vida.
Qualquer das perspectivas acima está ou esteve na ordem do dia, na blogosfera e fora dela. Por isso, a minha vontade de reflectir neste blogue as últimas tendências para que não se torne desenquadrado da realidade impele-me a abordar esse tema do momento (sob a óptica que mais me prende a atenção).

O clima assume maior preponderância no nosso desempenho, à medida que a idade nos ensina a apreciar os prazeres da vida com maior requinte e dedicação. Enquanto não atingimos essa bitola de apreço pelos pormenores, tendemos a negligenciar os aspectos que se afiguram acessórios e só empatam a progressão. Mas após umas décadas de prática e de amadurecimento como homens começamos a valorizar esses pequenos nadas a que, bem mais cedo, as fêmeas da espécie dedicam a maior atenção.

Aos quinze (aos trinta?) anos de idade parecia-me absurdo o conceito de jantar à luz das velas. Velas? Mas praquê? Dez centímetros de pele destapada bastam para brotar o entusiasmo juvenil que nos move nessa fase devoradora. E ainda hoje bastariam, mas eu optei por um culto mais refinado desses momentos especiais e das pessoas que comigo os partilham. O jantar à luz das velas revela-nos, em pequenos pontos de luz ou na troca de gestos e de palavras que apelam à sedução, o encanto da pessoa com quem nos mergulharemos mais tarde na alcatifa ou nos lençóis. É este o clima (tórrido) de que vos quero falar nesta posta de Verão.

A criação do clima ideal para um excelente momento a dois é como um aperitivo para uma intensa sessão de preliminares. No fundo, trata-se da primeira exibição do cuidado e do empenho com que pretendemos tratar alguém que nos interessa impressionar. É estupidamente fácil entender porquê, bastando reparar na satisfação que esses pequenos rituais estampam no rosto de uma amante potencial. E em nós, que antecipamos na preparação desse clima o prazer que nos dará a presença dessa pessoa no tempo que iremos gastar a dois. Tempo passado desta forma nunca é gasto, é investido na melhor qualidade de vida que esta nos pode proporcionar. Vale a pena cultivar a emoção, acarinhá-la com gestos simples dedicados ao amor e à importância da outra pessoa (que merece reconhecê-la na nossa disposição).

O clima aquece com uma troca de olhares, com uma frase lapidar, com o toque suave nas costas de uma mão. O ambiente que nos rodeia influencia o impacto destes pormenores na temperatura da ocasião. Não vale a pena negar o peso destes factores na maioria dos rituais de acasalamento que todos passamos a vida a protagonizar e ainda bem. E nada disto invalida aquelas explosões de loucura ou de saudade que nos empurram à bruta, sem merdas, para cima de uma moita ou de um capot.
Eu prefiro as temperaturas elevadas e gosto de me sentir na origem do calor. Gosto de merecer as minhas ocasiões especiais e de as tornar inesquecíveis para quem as preencha comigo a dois. Não abdico, portanto, da minha intervenção e reparo imenso no carinho que me dedicam também, no "lado de lá" da equação. Com dois em sintonia, as mais deliciosas surpresas podem brotar de forma espontânea num encontro com paixão. É uma questão de disponibilidade para o amor, julgo eu, esta consequência das subidas de temperatura que um clima adequado sempre acaba por fomentar.

Eu falo muitas vezes de amor quando me refiro ao sexo e não é por acaso que isso acontece. São realidades indissociáveis na minha concepção. E isto não porque enquadre um momento de sexo espectacular apenas no contexto de uma relação amorosa estável ou duradoura, mas porque aprendi que o romance é o afrodisíaco por excelência da maioria das mulheres (e o meu, por inerência). A única forma de o romance estar presente em qualquer circunstância que nos envolva é precisamente a que nasce do cuidado nessa questão climatérica primordial. O romance é como o anticiclone dos Açores, afasta para longe as nuvens que podem ensombrar ou arrefecer um espaço e um tempo que queremos bem quente e cheio da luz que dois corpos apaixonados irradiam em plena trovoada de uma relação sexual.
A meteorologia do sexo (do amor) é fácil de condicionar com a intervenção humana, tal como a do clima global. E eu, cheio de preocupações ecológicas, gosto de sentir o meu papel na manutenção de uma temperatura ideal.
Sinto-me mais homem assim e, francamente, nem me interessa perceber porquê.
publicado por shark às 19:14 | linque da posta | sou todo ouvidos