DESCAFEINADO, SEM ÁLCOOL, COM CAMISA E IMENSA MODERAÇÃO

Detesto coisas mais ou menos. Seja o que for. Para mim ou são ou não são. Branco ou preto. Carne ou peixe. Esquerda ou direita.
Tudo quanto se encaixe naquilo que defino como meias tintas nem chegam a um quarto (de tintas, foi um acto falhado de trocadilho).
A cerveja sem álcool é um embuste descarado. Se não posso beber álcool bebo água, bebo 605 Forte, bebo Sumol de ananás. Punhetas a grilos, como já ouvi alguém chamar a estas cenas faz de conta, é que não.
Café descafeinado? Até a designação me arrepia. Vou fazer de conta que tomo um café logo de manhã, depois finjo que bebo uma cerveja ao almoço e ao fim do dia compro uma embalagem de preservativos para me sentir um potencial vencedor.
Desatino com preservativos. Sou um estúpido, bem sei. E até podia refugiar-me na lengalenga cristã, mas toda a gente sabe que os meus hábitos são pouco católicos. Contudo, não me escondo por detrás de um discurso culto e inteligente (todos percebem porquê), nem de uma pala porreira (também me parece óbvio para quem conhece o meu dark side ou já ouviu contar), nem de qualquer outro artifício que me salvaguarde da justiça popular virtual.
A turba que me rejeite ou me mande crucificar.

Nesta linha de raciocínio, chamemos-lhe isso, não consigo esquecer outra variante do mais ou menos que me enerva: a caixa de comentários com moderação, uma moda que está a pegar, simultaneamente para gáudio dos anónimos cobardes que assim obtém uma vitória com a sua estratégia de embirração e uma enorme desilusão porque se vêem impedidos de imprimir o seu cunho imbecil como uma espécie de grafite má onda nos espaços das outras pessoas.
Será uma opção defensável, perante alguns abusos que podem mesmo espantar os comentadores normais de uma caixa.
Pois é. Mas na prática a coisa resume-se a uma cedência, como a porta que antes se deixava aberta e agora é preciso tocar a campainha para poder entrar.

E nem sempre se entra, bastando desagradar a imagem (ou as palavras) da pessoa espreitada por detrás da porta para o dono da casa fazer de conta que não está lá para nos atender. Poucos são os que se dão ao trabalho de definirem critérios para o uso (e o abuso) do filtro moderador. Ou seja, a maioria opta pela sensação de poder, a pica de silenciar as inconveniências no meio do ruído de fundo das “ameaças” reais, evitando as verdades incómodas ou as intervenções de quem menos gostam.
O brinquedo é meu e eu não te deixo brincar.

Pelo menos a hipótese está lá instalada. E sem critérios definidos até “por engano” se filtram “sem querer” as intervenções das outras pessoas.
Prefiro os blogues sem caixa, mais arrogantes mas muito frontais. Não dão pala de defensores da liberdade de expressão, apenas a usufruem.
A moderação de comentários é um instrumento de poder e abre caminho para a censura, tal como constitui um dissuasor das intervenções mais ousadas (ninguém escreve um lençol numa caixa arriscando-se a vê-lo rejeitado pelo lápis azul virtual).
Ou seja, ficamos perante uma liberdade aos bocadinhos, intermitente, ao sabor da vontade e do humor de quem convida a entrar mas coloca-se de sentinela aos portões como o segurança de uma discoteca da moda.

Deixemos instalar câmaras de vigilância por todo o lado, por causa da segurança e do papão dos terroristas.
E depois não nos queixemos se o gajo à frente do monitor abusar do seu poder e um dia lhe der na mona instalar microfones para nos entalar quando falamos demais.

É assim, mergulhada nas meias tintas, que boa parte da nossa liberdade se afoga.
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publicado por shark às 09:51 | linque da posta | sou todo ouvidos