O JULGAMENTO DE HIPÓCRATES

Li, no Criancices, da Rosa, um post acerca de um assunto levado da breca mas que deve ser falado com insistência: os cuidados paliativos.
Por cuidados paliativos o leigo entende assistência de médicos e de enfermeiros ao longo da agonia de um paciente que a medicina não consegue salvar.
E essa carga pejorativa reflecte-se na dificuldade de encarar, num mundo onde não faltam os males sem remédio capazes de matarem alguém aos poucos sob um nível de sofrimento quantas vezes insuportável, aquilo que mais do que um problema é uma questão humanitária fulcral.
A dor, uma ameaça terrível para a maioria de nós, não é uma área da medicina acarinhada ou devidamente apoiada em Portugal. E isso implica que os poucos profissionais de saúde preparados técnica e psicologicamente para lidar com pacientes terminais desdobram-se em esforços para atenderem a demasiados casos e quando não conseguem chegar a todo o lado é desnecessário descrever, quem conviveu de perto com a realidade saberá melhor do que eu, a dimensão das repercussões.

Um ser humano sensível deve revirar-se por dentro para conseguir impor o critério e o distanciamento requerido a um profissional da Saúde, sempre que se vê confrontado em simultâneo com a impotência para salvar e com a exigência de minorar o sofrimento de alguém. De uma criança, até. Como a Rosa especificou.

O meu dilema de leigo perante circunstâncias tão dramáticas como ver reduzidas a um milagre as hipóteses de salvação de uma pessoa vítima de doença terminal consiste, resumindo para não entediar, na inversão preocupante das prioridades que defino na questão da pena de morte por oposição à prisão perpétua. Se entre estas duas hipóteses não hesito em escolher a que privilegia a vida como opção, na escolha entre assistir à dor permanente de alguém destinado a morrer ou colocar um fim a esse sofrimento desnecessário para a vítima como para os seus inclino-me para a segunda e o alerta de contra-senso dispara na minha consciência de agnóstico que, nessa condição, decide sem a limitação do temor a Deus e às suas apregoadas intenções.

A eutanásia, que ainda consta como interdita no código deontológico da Ordem dos Médicos, por exemplo, e presumo que o seja também no âmbito dos parâmetros pelos quais os enfermeiros se regem na sua conduta perante tal opção quando esta se coloca, faz ainda mais sentido num país que não possui ainda uma resposta séria e capaz para as situações extremas a que faço alusão.
E eu, que rejeito a simples hipótese de executar um inocente por engano ou apenas por algum Estado arrogante e indecente possuir esse instrumento para se livrar de cidadãos incómodos (o pretexto nem sempre coincide com os termos da acusação), sinto-me próximo dos que defendem que as pessoas devem ser livres de escolher o seu caminho até ao fim. Ou os que as amam por si, se lhes faltar a hipótese de comunicar com clareza aquilo que aos olhos de quem as acompanha é gritante.

Acredito que existe um ponto a partir do qual a mesma humanidade que nos leva a preservar a vida de alguém para lhe conceder a hipótese de se provar inocente se o for, ou a preservar os sistemas judiciais da aplicação de sentenças “divinas” (um poder que a ninguém se pode confiar), essa mesma humanidade obriga-nos a equacionar a hipótese de atender ao pedido de alguém ou de pessoa próxima para acabar com uma vida indigna de tal designação.
Volto a chamar a atenção para o facto de me reconhecer leviano aos olhos de quem entenda a vida como um valor sagrado no sentido restrito e sem excepções. Eu quero respeitar essas nobres interpretações (que já na questão do aborto se evidenciaram), mas não concebo que alguém possa sofrer sem necessidade apenas por uma questão de princípios que, sob condições extremas, se revelam precisamente… extremistas.

A vida que eu defino não começa na fecundação de um óvulo e não existe na agonia de um corpo moribundo onde apenas acontece a percepção de uma dor tão inevitável (os cuidados paliativos também não produzem milagres) como insustentável à luz de muitos dos critérios adoptados na prática por quem invoca um nojo cristão perante a derradeira solução piedosa.
E não vale a pena encaminharmos o discurso para os casos excepcionais, os ressuscitados de coma profundo e outros exemplos clássicos esgrimidos por quem privilegia os dogmas em detrimento da misericórdia que merecem os imensos episódios (que envolvem pessoas de carne e osso) com que convivem de perto os que trabalham em clínicas ou em hospitais.

A questão que se coloca é se devemos continuar a arriscar, cada um de nós, um final indigno numa dolorosa convulsão ou uma “existência” vegetativa sustentada por máquinas ou uma dependência total de terceiros até chegar o fim, sem que nos seja oferecida (e aos nossos) uma opção devidamente enquadrada em termos legais e que permitisse a cada profissional da Saúde optar pela objecção de consciência que a sua ditar.

A questão é a mesma do costume, num país habituado a preferir os males necessários e as justificações por vezes hipócritas e tão contraditórias como a que expus no meu caso concreto.

É aquela mania de privarmos os cidadãos das soluções voluntárias que colidam com as posições instituídas com base em códigos e em crenças que assim se impõe a todos e não apenas a quem os adopte no âmbito de um direito que no fundo cada um exige para si e deveria ser concedido a todos por igual.
O simples (e sempre pintado como radical) direito a cada um ser livre de tomar as decisões que entenda sobre si próprio ou mesmo sobre outros quando estes nos conhecem o bastante ou estudaram o suficiente para as poderem tomar por nós.
publicado por shark às 21:51 | linque da posta | sou todo ouvidos