CÃO QUE LADRA

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Foto: sharkinho

Eu gosto de cães. Até tenho um, vadio e rafeiro, que recolhi anos atrás quando me deixei sensibilizar por uma campanha da União Zoófila.
Contudo, existe um cão que me faz gostar menos da espécie. É minorca, arraçado de lulu de uma dona distraída, cruzada com pai incógnito, rafeiro como ele. Feio e cheio de peladas, detesta a vida que leva (vida de cão, claro) e late ao vento as amarguras deixadas pelo pouco de bom que viveu.
Incomoda-me, pois já referi que tenho dó de animais assim. Porém, a atitude deste cão enerva-me e há dias senti-me particularmente desiludido com a sua forma de estar. E passo a explicar.

Como já não podia suportar os apelos angustiados do bicho decidi dar-lhe um suculento bife para o animar. Aproximei-me com cautela, apesar de ter reparado que ele abanava a cauda em sinal de boa disposição. Mas mal lhe estendi a mão para lhe fazer uma festa, eis que a besta arreganha a dentuça armado em barracuda. Traiçoeiro, ingrato e indigno da minha comiseração.
Claro que compreendo que ele tenha captado, com o apurado faro que caracteriza estes "batedores" dos contentores de lixo camarários, o drunfo que misturei com a carne. Pretendia apenas acalmar um pouco o animal, mas parece que lhe caiu na fraqueza.

Fiquei muito entristecido com o carácter exibido pelo canídeo, embora lhe compreenda as reacções tendo em conta o ambiente suburbano pimba que o educou. Apesar de meia leca, pouco maior do que um chiuahua, o seu ladrar grosso intimida quem não lhe conheça a verdadeira dimensão. Nem é o meu caso, pois alguém partilhou comigo a parte da sua triste história que lhe conheceu, feita de intenções não cumpridas e de frustrações típicas de cão com pulgas.
Outro pormenor que me desagrada no sacana do bicho é o cheiro incomodativo que dele exala, algo com que o animal conviveu de perto quando o pároco da freguesia o acolheu, tempos atrás. Julgava-o um santo animal, o senhor prior, mas depressa descobriu que aquilo é cão que não conhece o dono. Virava-lhe o dente a toda a hora e tentava assustar-lhe os fiéis. Resolveria o problema com dois pais nossos e meia dúzia de avé marias, depois de largar o rafeiro na outra banda da minha rua. Azar o meu.

Eu gosto de cães, mesmo os que se comportam como pessoas de baixa categoria, mas não tenho paciência para lhes aturar as madurezas.
Apesar da minha aparente bonomia, saturo-me com as exibições de mau fígado ou falta de tomates venham elas de que criatura vierem. Desagrada-me sobretudo a cobardia, pois apesar de lhe apontar com o dedo o local onde podia tentar dar-me uma dentadinha o baixote não é cão para ir ter comigo à esquina e mostrar o que vale com a boca.
Santa paciência, fartei-me de o aturar e vou seguir o exemplo da minha vizinha, deixando de lhe ligar qualquer importância.

A partir de hoje vou ignorar em absoluto os uivos lamentosos do cão abandonado no lado de lá da minha rua.
E sei que ele vai dar pela falta, pois tem meios (a intuição canina e a fome de conversa) para confirmar a minha ausência futura.
publicado por shark às 16:20 | linque da posta