A POSTA NA INTIMIDADE

Mais cedo ou mais tarde, isto da blogosfera transforma-nos nuns cuscos. A malta gosta de "espreitar" as cenas uns dos outros, de acumular informação para melhor traçar um perfil ou simplesmente para arranjar tema de conversa com toda a gente menos o visado.
É um tique muito comum, mais previsível numa comunidade fechada sobre si própria como esta se está a tornar. O que está a dar é meter o bedelho, sacar nabos da púcara, criar um ambiente que nos faz sentir... lá fora cá dentro.

Muitos dos visitantes que não blogam evitam arriscar um comentário e estou certo de que poucos regressam. Sentem-se estranhos, marginais aos núcleos que (inevitavelmente) se criam e se traduzem numa linguagem cada vez mais cifrada nas caixas de comentários. Ninguém percebe pevas das nossas referências blogueiras, dos nicks que se convertem em alcunhas, dos episódios que partilhamos aqui ou das ocasiões em que nos encontramos no outro lado da vida que nos uniu em torno disto.
Somos cada vez mais um grupo de grupos herméticos, impermeáveis, desconfiados. E este tipo de congregação tende para a cuscovilhice, claro está, e acabamos por dar connosco a comentar (mesmo em off) os casos e as pessoas (as imagens?) que a blogosfera produz. É o problema dos amores à distância que a Vieira abordou aqui há dias...

A Mar lida com o assunto na sua posta mais fresca, com a novidade de a blogosfera começar a ser também uma espécie de miradouro para os de fora. Como se estivéssemos em pequenos compartimentos vidrados e a malta fosse passando para apreciar o peep show.
Também sinto na pele esse fenómeno e às vezes dá-me vontade de me fechar em copas, sem veia de macaco amestrado para divertir a populaça (à borla, ainda por cima). Ou de cobaia para os pseudo-intelectuais que aproveitam o que escrevemos para nos tentarem dissecar a tola como se faz às rãs. O Eufigénio parte a tola à conta destes problemas da exposição às claras.
Mas servimos também de tema para as conversas da rapaziada, a de dentro e a de fora, o trombone no teclado e o mirone no monitor. "Deixa-me cá explorar os pontos fracos desta pessoa que bloga". E sai mais um comentário anónimo, cobarde, insultuoso, só para nos dizerem "olá, estou aqui de naifa afiada e tu que blogas estás à mercê dos meus devaneios e das minhas taras doentias".

É um lado menos bom desta onda que nos consome algum tempo precioso e que justificaria da nossa parte um esforço para recentrar as atenções naquilo que temos para dizer nas nossas postas, com palavras e/ou imagens, em vez de nos fecharmos em circuitos de relações conversadas até à exaustão.
Gostava que investíssemos outra vez nas ideias, nos talentos, nas coisas que possam interessar a quem gasta o seu tempo a apreciar o que fazemos.

Contudo, ideias e talentos é mais com quem possui disso à brava. Eu defendo-me como posso e se do que o povo gosta é de uma boa espreitadela, dei início com as duas postas anteriores (com a vista da minha casa a denunciar onde moro) a um ciclo alternado de exposição de coisas minhas, a minha vida (parte dela) e a minha pessoa (também aos bocadinhos) aqui postadas para gáudio de quem me quiser conhecer melhor. Basta observar e tirar conclusões. Sem problema nenhum, desde que seja mantido aquele nível de respeitinho que é muito bonito (mesmo quando, na apoteose final, eu exibir uns nus integrais - naturezas mortas - para completar o puzzle).

Claro que não vou maçar-vos com postas sucessivas em torno do meu precioso umbigo pois vai sempre havendo outras cenas para vos mostrar, na periferia. Mas prometo que alimentarei com regularidade o bichinho da curiosidade mórbida em vós. Como o demonstra a foto abaixo, tirada bem no interior do meu wc e que expõe o viveiro das melhores ideias do tubarão.
É até pedirem clemência e (então e só então) eu voltar a esgalhar postas como deve ser...


wcpaper.JPG
Foto: sharkinho
publicado por shark às 14:29 | linque da posta | sou todo ouvidos