A POSTA NO BOM HUMOR

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Foto: sharkinho

Sempre admirei as pessoas inteligentes e com sentido de humor. É uma fraqueza minha, responsável por alguns dissabores. Fico desarmado perante gente assim, capaz de reunir dois atributos tão importantes, e acabo por ceder aos encantos desses(as) fulanos(as) irresistíveis. E claro, às vezes lixo-me. A combinação em causa pode esconder uma personalidade mesquinha que, enquanto eu durmo no ponto, aproveita para me espetar as bandarilhas. Por isso me vejo obrigado a controlar as minhas emoções sempre que me surgem estas criaturas tão atraentes, tentando evitar ser traído pelo canto da sereia...

Contudo, não me é fácil negar ao instinto a firmeza das suas convicções acerca das pessoas. Ele empurra para o lado que julga certo e eu, teimoso, toca a contrariar-lhe a tendência, a vergá-lo pela razão (mesmo quando não me assiste nenhuma). É uma dualidade que me rasga por dentro, como uma faca regada com cicuta. Envenena-me o espírito e tolda-me a capacidade de discernir. Fico vulnerável ao livre arbítrio da minha especulação. Reajo mal, admito-o, e nem sempre me safo com o arrependimento posterior.

Pessoas como eu, facilmente impressionáveis, emprenham com muita frequência pelos ouvidos (e pelos olhos também). Gravidezes não desejadas que nos abortam algumas ambições e nos afastam do diálogo sincero com quem, afinal, nos poderia evitar a desdita. Mas essa é a punição dos que ignoram os conselhos nas entrelinhas e se deixam tentar pela fúria machona (quase sempre descontrolada e sem qualquer protecção). Não será o caso, pois eu, conhecedor de factos que interferem nesse tipo de decisão, protejo-me como posso e benzo-me ainda por cima. Os riscos que corro, calculados, são apenas os que considero de alguma forma valerem a pena por esta ou por aquela compensação. E o critério que sigo é o de optar sempre pelo caminho mais iluminado, às claras, preto no branco para evitar um parto auditivo que qualquer pessoa adivinha atroz.

Isto não invalida algumas revelações, como a constatação de que afinal somos todos uma caixinha de surpresas, capazes do melhor e do pior. Sempre bem intencionados, em teoria, mas susceptíveis de alinhar nas maiores parvoeiras. Faz parte da nossa natureza, tanto como a capacidade intelectual que desenvolvemos e nos permite rir de nós próprios quando os outros têm o condão de nos fazerem abrir a pestana. O sentido de humor funciona como uma gazua para nos desviar a tampa (quando ela não nos salta) e enfiar pela moleirinha as verdades que costumam ficar de fora por causa dos condicionalismos que gostamos de inventar. Às vezes é como uma bóia sorridente que nos lançam para impedir que nos afoguemos no péssimo clima que se gera com uma cara de pau. Às vezes, claro.

Hoje enfrentei no escritório uma dessas pessoas irresistíveis. Um gajo com o qual sempre embirrei, mesmo sem motivo plausível. Apenas por instinto e por ouvir dizer mal. Em causa estavam mais os meus interesses que os dele, mas eu embiquei para o despique na mesma. Só pela pica que isso me dá, pela adrenalina que me viciou algures nas cenas de porrada no bairro (em miúdo) ou nos papos fora de horas na vida académica que frequentei. Em poucos minutos, o tipo aplicou-me um golpe de judo mental e eu senti-me estatelado de costas pelo poder da sua argumentação. Recebi-o com um ar sisudo e despedi-me dele às gargalhadas, depois de uma anedota que me contou que mais parecia um trocadilho do Confúcio. Até engoli em seco, depois de o acompanhar à porta de saída. Só não vos conto porque, como é costume, nunca consigo lembrar-me delas (anedotas) depois.
Mas podem ter como certa uma coisa: depois de uma atitude como a do fulano, vou ver-me grego para algum dia reprimir um sorriso sempre que o receber. Até lhe dei o número do meu telemóvel, quando mo pediu, para combinarmos mais tarde um café por aí (uma excelente oportunidade para trocar impressões).

Bem vistas as coisas, sou capaz de ter naquele cliente que abominava um amigo para a vida. À cautela, porém, vou ficar à coca para me certificar das suas verdadeiras intenções. Como um gato escaldado por água a ferver. Sem vontade de me enfiar no duche às cegas, mas incapaz de resistir à sede enquanto fruto de um impulso tão natural. A do Luso, já agora e por associação de ideias, é a minha preferida.
De resto, das coisas que se bebem só não gosto que me dêem chás. Mas sou homem para degustar uma boa infusão de ervas ou uma postura bem humorada...
publicado por shark às 16:52 | linque da posta | sou todo ouvidos