A POSTA MARADA

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Fico sempre surpreso com as manifestações de evidente insanidade mental que me confrontam na blogosfera e na sua componente analógica, o mundo lá fora (que às vezes me entra pela porta).
Eu protagonizo umas quantas e sinto-me por isso legitimado para falar com propriedade acerca do tema. Convivo bem com os meus instantes de loucura, com aquelas “travadinhas” que me dão e justificam alguns episódios que me podem fazer transitar da imagem de algo excêntrico para a de completamente chanfrado da mona.

Contudo, não me preocupa muito esta constatação. À minha volta, os sinais da doideira dos outros (os outros são importantes nestas coisas) multiplicam-se e assumem as mais variadas formas. Por isso não me sinto destoar da multidão, sempre que dou comigo a cometer um acto irreflectido ou perco as estribeiras. Pelo contrário, sinto o prazer único da plena integração. Sinto que pertenço ao mundo que me rodeia, na maluqueira também.

Talvez por isso insista em manter um blogue, em frequentar com assiduidade a blogosfera e mesmo em andar à solta pelas ruas, por mais pancas que a malta revele nas suas exposições públicas das flagrantes lacunas dos seus mecanismos de auto-controlo. E das suas obsessões mesquinhas, qué las hay.
Mas a loucura é necessária para conviver com a sociedade que temos, com o estilo de vida que a vida nos impõe. Até os governos sabem disso e hoje anda cá fora muita gente que antes do 25 de Abril não escaparia a um internamento no Júlio (de Matos, claro), rotulada com um nome moderno para o seu distúrbio e abananada com uma dose cavalar de anti-depressivos para lhes alegrar cada dia.
Nada de preocupante, afinal.

Eu cultivo a minha falta de um parafuso ou dois e tolero essa falta nos outros também. Desde que não se manifeste contra os meus interesses ou de forma hostil à minha pessoa, ciente que estou da minha inimputabilidade no caso de me saltar a tampa numa reacção instintiva de defesa. Não se pode contrariá-los, bem sabemos, mas temos que ter em conta o bom ou o mau feitio dos malucos que nos observam. Aos mais pacíficos, inofensivos e por isso merecedores da maior compreensão, devemos acarinhar-lhes as cenas maradas. Aos outros, os que exibem um olhar ou um discurso manhoso, devemos dedicar-lhes outro tipo de atenção e estarmos alerta para qualquer indicação perturbadora. E devemos ser firmes na nossa actuação.
Nunca se deve cruzar os braços ou virar-lhes as costas.

Felizmente, a maior parte dos malucos que conheci não eram parvos. Sabiam bem quando deviam achantrar, adivinhavam em mim os limites que não deviam transpor sob pena de acicatarem algum desvio não medicado. E por esse motivo, a falta de um parafuso (ou dois) raramente se reflectiu nalguma atitude tresloucada de índole, digamos, mais agressiva. Até pela minha essência de gente boa, incapaz de reagir mal sem provocação (uma característica habitual nos humanos doidinhos com manias de esqualo).
Um paz de alma, como se classificam os mais discretos ou bonacheirões na exibição do seu descontrolo mental. Os que apenas querem estar na sua, felizes e numa boa.

Tenho toda a confiança que conseguirei assim adiar por mais uns tempos a excursão (a que muitos escapam de forma indevida) aos corredores mais compridos do Hospital Miguel Bombarda.
Tenham vocês todos(as) uma excelente semana!
publicado por shark às 10:59 | linque da posta | sou todo ouvidos