TRAMPA BUILDINGS

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Foto: sharkinho

Às vezes, quando não sei por onde começar uma posta, dou comigo a revistar o arquivo fotográfico em busca de soluções. Hoje encontrei a que podem observar acima, para marcar o abismo que me separa das pessoas que construíram tais habitações.
Sim, trata-se de casas onde vivem pessoas (por gosto e por tradição). Construídas apenas com dois materiais que se encontram com facilidade no local: galhos de árvores e merda de vaca. Exactamente, galhos de árvores. Eu sabia que iam estranhar.

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Foto: sharkinho

Também estranhei um dado curioso: quem constrói estes “condomínios” dos Masai são as mulheres da tribo. Só elas possuem o segredo de como erguer um edifício com base nos materiais que referi. E eles, sábios, entregam-se ao pastoreio e a uma vida passada em serena meditação (pelo menos enquanto não aparecer um predador para fazer a “tosquia” do rebanho ou a "folha" à manada).

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E nós andamos num badanau para aguentarmos a prestação do frigorífico mais a do carro e a do crédito à habitação. Estoiramos, pela tensão que nos é imposta, tornamo-nos menos simpáticos, mais individualistas, gente com pressa e sem tempo para desperdiçar nas coisas boas que a vida nos dá. Como o contacto com a natureza, os seus cheiros intensos e aquela sensação magnífica de conseguirmos inspirar a plenos pulmões.

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Foto: sharkinho

E eu imagino-me a chamar o cão (o animal ia adorar esse novo esquema de vida) e a partir para os campos mais as ovelhinhas, as cabras, uma vaca ou duas, para me estender ao comprido debaixo de uma árvore até ao momento de assistir, queixo no cajado, ao mais belo ocaso. Tudo isto enquanto alguma fêmea recolhia com carinho os melhores excrementos para as obras de ampliação do apartamento para acolher os oitavo e nono filhos das minhas mulheres, grávidas em simultâneo.

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Foto: sharkinho

Mas não. Em vez disso, levo com o despertador número um à hora a que gostaria de me deitar todos os dias. E com o despertador número dois, minutos depois. Toca a levantar, por norma atrasado, e bute na pirisga para uma seca de ofício qualquer. Papelada, telefonemas, gente neurótica em volta de mais uma mesa de reunião. No fim do mês, um só dia, lá pinga a maravilhosa retribuição. A paga que merecemos pelo desperdício evidente das vidas que esbanjamos a concretizar planos sem nexo e a satisfazer as mais absurdas ambições. Uma merda, e nem sequer possível de se tornar num bom material de construção. Merda no sentido restrito da coisa, como se a maior parte do nosso tempo consistisse numa permanente obrigação de defecar.

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Já cheira mal esta conversa, eu sei. Florinha de asfalto a descobrir os encantos do campo onde nunca seria capaz de morar. Desabafos de quem de nada sente a falta excepto das coisas que não fazem falta a ninguém. Com tudo à mão de semear, a casa, o carro, a mobília e até um charro de quando em vez. Dias de festa, está claro, que a vida não abranda e dá pica assapar num veículo sem travões. Assistência médica em condições, hospital privado, de luxo, para atender às macacoas inventadas por um corpo saudável amarrado a uma mona vitimada pela lucidez. Falsos alarmes de uma potencial intrusão. Da morte que levou de repente o vizinho trintão. O que morava no segundo andar.
Sem causa provável ou qualquer justificação. Ataque de coração. Não fumava como eu, ginástica de manutenção num health club baril, bom nível de vida e montes de coisas marcadas para amanhã. E para todos os dias da semana a seguir. Não cumpriu.

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Foto: sharkinho

E eu olho para a vida e apetece-me sorrir. De escárnio, também, pela sua evidente estupidez. Importante é sentir-me feliz, mesmo entalado no povo apressado que apanhou, na hora de ponta, o mesmo comboio que eu.

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O que nos interessa, afinal?
Amor e alegria, parabéns à tia, um sorriso rasgado de quem nos quer bem.
Abraços amigos, prazeres sentidos, pedaços de uma vida em festa no melhor que ela tem.
Sexo selvagem, mais uma viagem, os filhos que amamos, o carinho de que precisamos, os meios adequados para atingirmos o melhor fim. Felicidade total.
Parece poesia, escrito assim, mas é prosa afinal. E a gente com os rostos virados noutra direcção, pura ilusão, alheios ao facto de a vida um dia se esgotar, de vez. A nossa e as dos outros, os que devemos estimar. Aliados numa missão. Derrotar a solidão que este ritmo nos impõe. Recuperar o sentido que o progresso desfez.

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E eu olho para a vida e só me apetece desbundar. Recuso aceitar a corrosão das minhas fundações, edificado sobre o arame, equilibrado de forma precária e sem rede para me sossegar, mais abaixo, acaso me ocorra cair. Exijo a liberdade para o corpo e para o coração. Imponho-me reagir. À custa, se necessário, das facturas que nos cobra esta selva de betão.
A minha casa é o mundo inteiro que anseio conhecer. A minha fantasia é cada livro que começo a escrever, o último capítulo de uma história qualquer. A minha vontade de tomar uma decisão. Radical. Revolução. Já está a acontecer, em redor de mim, no meu interior. Cabeça formatada num duplo mortal, pirueta. Conversa da treta em vias de extinção. Apenas a tesão, para enfrentar com galhardia os desafios que me oferecem a Liberdade e o Amor.
Em paz comigo próprio, sem remorsos ou temor. A aprender.

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Sentado na praia, com o sol a nascer.


Nota: Esta posta é uma cópia descarada (tipo cassette-pirata) do estilo adoptado pelo artista formerly known as Jota Quê. (Eu depois pago-te uma bifana para acertarmos as contas dos direitos de autor. E as agulhas, rapaz...)
publicado por shark às 12:57 | linque da posta | sou todo ouvidos