A POSTA QUE GOSTAVA DE SER

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Gostava de ter sempre a certeza de cumprir o meu papel no caminho para um mundo mais próximo da perfeição. Gostava de me saber, a todo o instante, capaz de acreditar e de contagiar os outros com a minha fé.
Gostava até de me sentir homem bastante para vergar o mal sob todas as suas formas, sempre que ele se cruza com o meu caminho (comigo mesmo) e com o das poucas pessoas que amo ou alguma vez consegui amar. Um homem forte, imune à corrosão das merdas que nos estragam, que nos tornam inferiores ao modelo que desenhamos nos dias em que o sonho nos conduz.
Mas não sou capaz.

Há sempre algo que me prova o contrário, que me ensina a desacreditar na capacidade de dar a volta por cima das inúmeras barreiras que a realidade do que somos e de tudo quanto nos rodeia consegue criar. Existe sempre um senão.
E eu sinto-me mirrar nesses momentos em que colido contra os muros das coisas tal como elas são, sinto-me aquém do melhor de mim e definho perante a desilusão que me dou e a que dou a quem me consegue acreditar.

Não abdico desta permanente exigência de ser uma pessoa diferente, uma pessoa melhor, de me moldar à imagem do gajo capaz de alcançar objectivo que tracei. E não me concedo qualquer forma de perdão quando me revejo numa pele distinta da que ambiciono, a pele ideal para mim. Não tolero o fracasso das ilusões nessa matéria porque são expectativas que me imponho, arrastando quem me rodeia para um patamar elevado e mal sustentado pela minha natureza irregular.
Depois, é maior o trambolhão.

Às vezes as coisas correm bem e permito-me ser estupidamente feliz, sobretudo pela felicidade que inspiro nas outras pessoas. E é este o segredo dos meus dias melhores. Os dias em que me sei na origem dos sorrisos, da beleza, da magia, da confiança, da alegria e de todas as emoções positivas marcadas pela minha presença nas existências de quem me quer bem. Só assim consigo apreciar o homem que sou. Só assim me considero merecedor.
Mas nem sempre é assim.

Gostava de estar sempre à altura do melhor que espero de mim. E nunca me arrependerei de manter a fasquia tão alta ao ponto de passar a vida a repetir o salto, vezes sem conta, até ter a certeza de que a consigo transpor em cada instante. Até ao dia em que morte me impeça de tentar.
publicado por shark às 18:43 | linque da posta | sou todo ouvidos