NÃO ESQUECI

Partilhaste comigo o teu fetiche por mulheres cabeludas, as tuas preferidas na hora de exibir aquela característica que os homens da família se obrigavam por tradição.
A mesma que te puseram à prova quando te mandaram combater por uma "pátria ultramarina" e te fizeram saltar do alto de um pássaro de ferro para o chão onde as balas dos “turras” te ceifaram os amigos e te condenaram a meses de dor num hospital militar.

Os homens da família que nunca viram a cara ao desafio, aceitam o risco e avançam contra o perigo como carne para canhão por causa de uma tradição que algum antepassado tonto criou.
E tu, diferente em tanto e sempre para melhor, abraçavas na guerra como conquistavas no amor e vestias essa pele que nos legou o apelido comum e nos impele para diante quando fugir seria de caras a melhor das opções.
Nunca te confessei o motivo mais forte da admiração que me causavas, não pelas histórias que me contavas acerca do cumprimento desse dever estapafúrdio de nos provarmos heróis mas pela forma subtil como deixavas passar a mensagem da vulnerabilidade a que nos expõe a ameaça das emoções que nos cegam e tu reconhecias sem ver.
A tua coragem no campo da batalha que travamos a sós, a guerra dentro de nós quando nos sentimos arrastados para diferentes lados pelo apelo do que somos contra aquilo que nos obrigamos a ser.

O chamamento de uma mulher, irresistível, e o impulso irreprimível de sentir a vida carpe diem como se pudesse acabar amanhã.
Como a tua acabou, de repente, depois de umas semanas doente em que adivinhavas o pior. A cirurgia que temias e acabou por te matar mais depressa do que o inimigo que insistia em alastrar pelo teu corpo como erva daninha quando a sorte te emboscou.

Partilhaste comigo as linhas principais do compromisso implícito no nosso tronco genético comum, nas entrelinhas do que dizias e na traição sistemática de um olhar que não sabia mentir. Ensinaste-me a agir com maior prudência e a tomar consciência do quanto era preferível investir na paixão do que nas investidas de machão para impressionar o pagode.

Lembro o sorriso maroto dos melhores dias e as rugas na testa que te denunciavam a preocupação quando te ouvi falar pela última vez.

A mesma testa lisa e fria que beijei no único momento em que demonstrei o carinho que o código familiar de conduta masculina nos impedia de demonstrar e tu foste o primeiro a contestar com a assumpção das tuas fraquezas e a partilha das tuas tristezas, sentidas em segredo ou parcialmente assumidas, a medo, pelos outros membros do núcleo a que tu e eu nunca parecíamos pertencer da mesma forma.

Lembro-te, tio, como o sinal de esperança que encontrava quando tantas vezes me revoltava contra a dureza excessiva do nosso “regime beirão” e que tanto me afastava do ideal comum.

Por tua causa, com essa partida acelerada e de todo inesperada do mais jovem de tantos irmãos, contrariaste outra vez a lógica do sistema que nos impunha determinada maneira de ser.

Com a tua perda, tio, a minha esperança que restava também foi a primeira a morrer.
publicado por shark às 12:48 | linque da posta