A POSTA OLHE QUE NÃO

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Há malta que confunde o comunismo com as pessoas que o protagonizam. Eu não sou comunista e, tal como os muitos que manifestaram o seu repúdio às homenagens de que foram alvo Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal, reconheço os excessos e os equívocos na prática política destes dois Homens.
Contudo, e da mesma forma que a maiúscula na expressão acima não é casual, também identifico de imediato estas duas figuras com o restabelecimento e a evolução da Democracia neste país. Se de Vasco Gonçalves parece ter prevalecido a sua conotação com o período conturbado que o arrastou para o turbilhão da nossa história recente (e nem é figura que me inspire simpatia), no percurso de Álvaro Cunhal é impossível deixar de reconhecer o merecimento do estatuto que o país lhe confere.

Álvaro Cunhal foi um político à altura de adversários como Mário Soares, Francisco Sá Carneiro ou Freitas do Amaral (para citar apenas os mais conhecidos). E acrescenta-lhe um passado de luta antifascista que justificaria por si só o respeito que soube merecer à esquerda como à direita do espectro partidário. Só os analistas anónimos e os medíocres inexpressivos fazem de conta que não percebem a dimensão de gente assim. Gente grande, que deixa uma marca sua nas páginas dos livros onde a maioria dos que os odeiam ou desdenham nunca irão constar, nem como mera nota de rodapé.

Mas para lá das grandezas e das misérias que os destacaram, estas figuras públicas viveram de forma intensa os acontecimentos do seu país. Bem ou mal, sacrificaram o remanso dos sofás pela intervenção directa no rumo da sua nação. Não se limitaram a sentar-se diante de uma folha de papel para debitar umas postas de pescada, nem a refilar em surdina nas mesas de café. Acreditaram e foram à luta, mesmo sabendo que perseguiam uma utopia comuna (como a Liberdade também era vista em Portugal na sua época) e, no caso bem conhecido de Cunhal, sofrendo no corpo a tortura e na mente os estragos que a privação daquilo que mais o movia lhe terá causado, como a qualquer pessoa, ao longo de anos de encarceramento com justificação política e, obviamente, sem qualquer fundamento ou legitimidade.

Por isso mesmo se justificam as homenagens prestadas, tal como deveriam ter em conta os figurantes menores com vontade de emporcalhar. Não é uma questão ideológica, já o deixei bem claro, mas sim a rendição à evidência. Portugal perdeu dois Homens que o defenderam contra a obscuridade medieval do regime fascista e prosseguiram o combate, com coerência, quando sentiram a ameaça do enfraquecimento dos ideais da Revolução que amaram. Melhor ou pior, foi assim que a sua existência se distinguiu das muitas que celebraram um dia a Liberdade que Abril nos devolveu. Foram protagonistas e também foram, à época, heróis do povo que gritava nas ruas. Foram a maior esperança que a classe trabalhadora conheceu, com a sua determinação férrea baseada no alegado autismo das "cassetes" que a passagem do tempo tornou roufenhas no tom. Mas cristalinas na mensagem cujos dividendos ainda hoje muitos dos seus detractores beneficiam. Como a existência de sindicatos dignos desse nome, para citar apenas o mais óbvio.

Neste contexto, não faz sentido (des)valorizar as pessoas em função dos anacronismos das suas visões de um mundo ideal, avaliadas à luz do que entretanto se progrediu. Sobretudo sem fazermos a menor ideia das conjunturas em que tomaram decisões polémicas ou defenderam posições insustentáveis aos olhos de alguns.
Aos meus olhos, e será essa a perspectiva que transmitirei aos que me sucederão, o valor das pessoas não se mede pela quantidade de erros ou de acertos que a História poderá ou não desmentir nessa qualidade, um dia. Mede-se pelo legado a que a sua passagem pela vida se associa, pelo que de concreto as notabilizou.
No caso destes Homens, é da Liberdade que se trata. E essa perspectiva basta-me para não me meter em bicos de pés e para assinalar sem problemas o meu respeito por estes dois portugueses de esquerda e a minha lamentação solidária a quem mais sentirá a sua falta.

A História séria há muito deixou de acreditar em papões.
publicado por shark às 17:20 | linque da posta | sou todo ouvidos