A POSTA NA VELHA GLÓRIA

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O cromo, nascido e criado num bairro popular, contorceu o rosto num esgar de desdém enquanto lhe entregavam o troféu.
Afirmava não ligar a essas coisas, porcaria, partilhadas por tanta gente e por isso conspurcadas como o dinheiro que circula sabe-se lá por que mãos. Vulgarizadas pelo colectivo, as coisas atribuídas sem mérito igual ao seu.

O cromo ambicionava o céu, por entre a espessa neblina que lhe denunciava a decadência nascitura da sua evidente estagnação. E por isso desdenhava, indelicado, tudo quanto lhe era dado sem exclusividade total.
Destilava soda cáustica em cada palavra que exprimia, cínica, o seu repúdio pela merda (como a via) aflorar-lhe a canalização e que estrangulava a ambição cujo caminho tanto queria desentupir.

Sentia-se frustrado por se ver misturado com a ralé, a glória prometida que se via reduzida dessa forma à mais inevitável desilusão.
O cromo estendia a mão e depois mordia as poucas que lhe alimentavam a esperança e consolidavam a confiança em dias melhores. Mesquinho, como todos os derrotados que se revoltam inconformados contra a injustiça da sua banalização.
Perdido na multidão dos inferiores tal como os media na sua escala de valores personalizada.

Olhava para a sala cheia de uma data de gente feia a sorrir e desprezava ainda mais quem mostrava ser feliz, hostilizava com graçolas aqueles que identificava responsáveis pela sua ofuscação incómoda, os vencedores sem gabarito que mais se destacavam de entre um grupo onde se acreditava colocado num patamar superior.

E remoía a dor de se ver arredado da competição a sério, relegado para o esquecimento dos veteranos que no seu tempo davam cartas num jogo para meia dúzia e se deixaram ultrapassar quando o seu pequeno clube privado se expandiu.
O cromo não desistiu, teimoso, antes prosseguiu, raivoso, a sua cruzada inglória pela conquista de um lugar na história que sentia ser seu.

Ambicionava o céu, confortado pela lembrança de um resultado obtido no tempo em que só concorriam os (poucos) melhores.
Eram uns senhores, pensava, enquanto se conformava com o estatuto do passado e se convencia legitimado para puxar dos galões que distinguem os campeões mesmo depois de consumada a descida de divisão, depois de perdida a pedalada para acompanhar o resto do pelotão.

O cromo só pegava de empurrão e com toda a paciência remendava na consciência os furos a que imputava as culpas da sua queda na tabela.
As medalhas na lapela, deterioradas pelo tempo e pelo excessivo polimento que lhes conferia o brilho artificial, eram dores de cotovelo que queria imputar a terceiros nas suas intrigas palacianas.

Mas os seus eram os primeiros a doer sempre que lhe era dado a ver, comparativo aziago, o saldo real das suas contas levianas.
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publicado por shark às 09:46 | linque da posta | sou todo ouvidos