FUNDO FALSO

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Foto/Imagem: Shark

Tentou agarrar sem sucesso o holograma da sua maior ilusão. Uma verdade que mentia enquanto fugia da sua mão sem se mexer, como um fantasma ou uma nuvem de sonho capaz de se desvanecer em fumo com o simples sopro de uma corrente de ar.
Uma imagem postiça para entreter a audiência sedenta de novas sensações.

E o mágico fingia mas por dentro sabia que não passava de um engano para consumo interno, à vista de um público incapaz de distinguir um coelhinho na cartola de um sinistro furão.
Vivia da ilusão com que mentia a si próprio e depois partilhava no espectáculo a dor maquilhada com lantejoulas e efeitos de luz. Pombas brancas e ramos de flores, a carta de um baralho adivinhada com os dedos mais a rapidez de execução.

Os aplausos efémeros para a actuação, antes do silêncio sepulcral de uma sala vazia onde aconteceu a magia mas agora acabou e o ilusionista no meio da pista imitava o palhaço a abraçar o vazio.
A mentira que o fazia acreditar que o tempo podia parar no meio de um número bem conseguido, um momento cristalizado com a varinha de condão.

Vivia da ilusão que fazia acontecer, tanta gente a ver e ninguém percebia como o fazia tão bem. O gosto que a vitória tem, insuficiente para o compensar daquilo que tentava agarrar sem sucesso. Sorria amarelo e depois empalidecia a chorar, oculto nos bastidores como uma aberração daquele circo amador.
Vencia a solidão treinando a esperança e ganhava confiança no seu dom de prestidigitador.

No palco dominava a situação, controlava a emoção e conseguia serrar uma mulher em dois. Juntava as partes depois, em caixas separadas que pareciam animadas porque se viam uns pés a mexer e uma boca a sorrir da sua assistente contorcionista.
Unia tudo aquilo com pozinhos de perlimpimpim e satisfazia assim o compromisso com os espectadores que exigiam do seu tempo apressado uma contrapartida fenomenal.

E era o que lhes dava afinal, num espectáculo colorido de um mágico travestido em pessoa feliz. Conseguia enganar por obrigação tentando criar a ilusão perfeita, colava a alma desfeita em pedacinhos embrulhada em paninhos multicolor.
Depois oferecia uma flor surgida do nada a uma espectadora encantada e sonhava naquela cara uma outra estampada que não podia tocar.

E insistia em tentar agarrar o holograma que tanto brilhava na escuridão mas que fugia de uma mão enquanto a outra, profissional, esmagava no rosto do mágico as lágrimas que ninguém podia adivinhar.
Como por magia, transformavam-se em borboletas que fazia desaparecer no fundo falso de uma caixa imaginária, inventada, que só ele conseguia decifrar.

Não passava de uma memória forjada, mas o mágico enlouquecido há muito havia esquecido o que isso queria dizer.
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publicado por shark às 20:23 | linque da posta