A POSTA SEM TEMPO

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Hoje, a Casa de Alterne conheceu o seu fim.


O tempo tem sido o melhor dos meus conselheiros. Não porque as pessoas que estimo, respeito e admiro e trato como amigas não me mereçam a devida atenção quando me aconselham. Mas porque existem muitas questões que só a passagem do tempo nos permite enquadrar na perspectiva mais correcta. E é essa que deve, por princípio, nortear cada uma das nossas decisões.
O tempo carrega em si uma forma de sabedoria que apenas ele tem o dom de nos conceder. E apenas se estamos atentos, se sabemos identificar com clareza os sinais que o tempo nos expõe.

Eu acredito no tempo como um mestre que deixa rasto da sua passagem. Ensina quem se predispõe a aprender. Ignora os casmurros na mesma moeda. O tempo é assim, indiferente as todas as pequenas coisas que o medem. Como nós, atrevidos, convencidos de que o tempo é mensurável e por isso susceptível de controlar. Mas não. Ele passa pelas pequenas coisas que o medem, as pessoas, e nem vacila no seu caminho para um infinito que não sabemos compreender.

Infinitas são as lições que o tempo nos ensinou, transmitidas de geração em geração. O fogo que nos queima quando o tocamos. A água que nos afoga quando mergulhamos por tempo demais. Demasiado tempo sem respirar. O amor que o tempo se esforça por explicar, fundamental. E a maioria de nós não estuda a matéria, reprova no exame e a raposa tem pele de animal infeliz. É assim que nos desperdiçamos em detalhes que nada servem o objectivo a atingir e que o tempo, que cultivamos nas memórias do que já não pertence à nossa dimensão, insiste em nos provar a toda a hora. No azar dos outros, oportunidades por concretizar, e na miserável constatação de que esbanjamos o tempo mais a preciosidade das suas lições.

Eu acredito no tempo como um viveiro de termos de comparação. Bastam-me alguns minutos num cemitério para me ocorrer a mais fácil das conclusões. Um dia o tempo acaba, nesta realidade que me é dada a conhecer. O meu tempo e o das pessoas que o destino colocou em rota de intersecção com a minha. Todas as pessoas. As que amo acima de qualquer multidão que me distraia. Falta-me tempo para as negligenciar, pois é certo e sabido que um dia deixará de sobrar e não será possível deixar algo para amanhã ou depois. É assim e ainda bem. Devia bastar para nos deixarmos de merdas e mergulharmos na vida com a pressa de quem não sabe de quanto tempo feliz pode dispor.
É isso que o tempo ensina, experiência de vida, mas ninguém parece atribuir importância a essa lição. Até ao dia.

O tempo diz-me que devo ser grato pelo tempo que o acaso me concedeu. E a minha gratidão só é demonstrada quando a felicidade é a suprema prioridade e motivação, a cada instante.
Agradeço ao tempo as bofetadas que me dá, para me acordar no meio dos arrependimentos desnecessários e dos desperdícios sem justificação possível.
Agradeço ao tempo o facto de ter tempo para aprender. E de o poder gastar a ser feliz e a contribuir para a felicidade dos que me rodeiam.
Parece muito simples visto desta forma. E é. Estupidamente simples.

Nem mesmo a esperança pode arvorar-se de intemporal.
publicado por shark às 15:00 | linque da posta | sou todo ouvidos