A POSTA SEM CORANTES

Se tivermos em conta a forma como os próprios definem a sua motivação para blogar, cada cabeça sua sentença, não existe uma definição “universal” para o que nos prende a esta plataforma de comunicação.
Uns dizem que blogam para si, transformando o blogue numa espécie de diário “secreto” sem cadeado que se deixa à porta do prédio para toda a vizinhança o ler (quando até existem formas de bloquear o acesso aos outros com a simples exigência de uma password). Outros dizem que blogam apenas porque não gostam de escrever para a gaveta, o meu caso, ou pela simples sede de comunicar sem arriscar alguns contratempos analógicos a que nos podemos poupar neste meio virtual.
Outros nem sequer oferecem explicações. Mas também blogam e não são poucos.
Contam-se pelos dedos de uma mão aqueles que assumem publicamente a atenção às estatísticas, aos contadores que nos indicam quantas visitas o nosso trabalho angariou e assim permitem avaliar o nosso desempenho, pela evolução dos números, aos olhos dos outros. Sim, sim, quantidade não é qualidade e todos sabemos que a malta nem quer saber destas coisas (mesmo os que têm até mais do que um contador e de vez em quando se descuidam com um post acerca da visita número xis ou com o desabafo acerca da curva descendente que o gráfico das “audiências” não consegue esconder).
Contudo, se os que afirmam blogarem para si incorrem no óbvio contra-senso de tornarem público o que afirmam ser privado, os que invocam o gosto de exibirem aquilo de que são capazes também terão alguma dificuldade em explicar-me a lógica de “não lhes interessar” quantas pessoas apreciaram essa exposição.

Em resumo, há muitos bustos na pala de quem bloga e a maioria dos que apontam o dedo aos que não escondem andarem nisto (também) pela pica de chegar ao maior número possível de pessoas só o fazem para disfarçarem o desconforto de se sentirem a falar sozinhos, incapazes de assumirem com frontalidade que ou até têm jeito mas necessitam de alterar o figurino do seu trabalho ou, truth hurts, mais vale irem tentar o Second Life (onde a malta só precisa de ter palheta e nenhum outro talento – ou respectiva ausência – é necessário para dar nas vistas).

E que entendo eu por figurino do nosso trabalho? O tema dos posts, o estilo das gravuras, a regularidade na publicação (as “pausas retemperadoras” são um convite à desmobilização dos visitantes) e a vontade de fazermos o melhor que conseguimos por respeito a quem nos visita. É nestes aspectos que podemos fazer a diferença que se nota depois nos contadores (aqueles em que ninguém repara e até, quando beliscam o ego, são pintados como uma ameaça cheia de papões informáticos para justificar a sua eliminação).

Torna-se por demais evidente que a velha “mama” da troca de linques como se de cromos se tratassem, o comentáriozinho da treta copiado em doses industriais só para marcar presença no máximo de espaços possível (pela estúpida “obrigação” de retribuir um simples olá) e o “empurrão” recíproco de amigos de circunstância já foram chão que deu uvas. A malta diz que sim, muito giro e tal, mas depois não papa grupos e vai visitar os blogues que verdadeiramente interessam…
O amadurecimento da blogosfera está a conduzir as coisas num sentido que não interessa a quem nada tem de novo para dar, a filtragem de quem vale a pena em detrimento da “popularidade” sustentada numa maior ou menor teia de influências que antes disfarçava nos números as lacunas de quem agora se vê relegado para um plano, nas suas ambições desajustadas, confrangedor.

O tempo da projecção indevida está a acabar para quem anda nisto sem argumentos ou sem estaleca para enfrentar diariamente a pressão de fazer bem para garantir o regresso de quem antes observou.

E isso só pode ser boa notícia para quem leva isto a sério, dá o seu melhor e nada tem a esconder.
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publicado por shark às 10:45 | linque da posta