A VOZ PARA QUE ME LEIAM

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Sabem, gostava de poder falar convosco nesta altura. De saber que conseguiram encontrar uma forma de perdoar e de serem felizes os dois outra vez. Ou mesmo os três, se na vossa dimensão não existir o ciúme e a posse de uma alma seja de facto impossível por não fazer sentido algum num sítio onde as coisas não precisam de acontecer por uma razão.

E depois de vos saber assim, gostava de poder falar-vos de mim para podermos explorar as nossas semelhanças. As coisas que herdei por via indirecta, pela porta deixada aberta por um dos frutos visíveis da vossa relação. Gostava de vos mostrar o meu coração para que nele pudessem rever algumas características fáceis para vós de explicar e que me pudessem ensinar a dar a volta a algumas interrogações.

As vossas explicações seriam valiosas para encontrar em mim as respostas para os factos que vos perturbaram naquele tempo e regressaram sob outras peles nesta existência que a vossa, na prática, viabilizou.
Foram gente que amou e de forma intensa. Desafiaram a moral vigente e não acharam indecente entregarem-se por algum tempo a um poderoso sentimento que resultou numa enorme confusão, abraçaram a verdade e vergaram a realidade à que vos servia melhor quando cederam ao amor, tão proibido então como agora.

As coisas não mudaram por aí além nessa matéria, a maioria na miséria infeliz das farsas impostas pelos outros lá fora e o que possam dizer, ou na ressaca sempre foleira dos caminhos a dois que conhecem o fim quando cedem os laços tão frágeis que unem as pessoas. O mesmo mundo das paixões a fingir, dos rostos a sorrir para disfarçar uma sensação de tristeza ou mesmo a certeza de que a felicidade se tornou impossível como uma utopia ao alcance apenas de loucos, de pobres de espírito e de sonhadores.

E vocês, que tanto lutaram pela vossa até a pressão vos esmagar, têm imenso para me ensinar acerca de resistência e sobretudo da consciência tal como a devemos enfrentar nas piores alturas. Essas, como saberão, são aquelas que nos arrastam para a convicção de sermos responsáveis por toda a infelicidade alheia, cada desgosto uma tareia no ânimo indispensável para nos agarrarmos ao cadáver da esperança que afinal acaba por nem ser a última a morrer dentro de nós.

Sabem, é quando olhamos a sós as imagens em que somos protagonistas de uma história belíssima e nos identificamos com o papel do vilão. E não digo que o são, as pessoas apanhadas pelas repercussões negativas das suas acções irreflectidas mas motivadas pelas mais genuínas emoções. E não vos falo de arrependimento mas antes da frustração que se sente quando entendemos no presente as lições que o passado nunca sabe leccionar na devida altura.

Falo-vos de como é dura, e é disso que esta conversa trata, a estranha noção de que é impossível a absolvição para os culpados de rebeldia.
Como se fosse uma heresia acreditar que qualquer espécie de amor ou da paixão sua filha só pode ser uma maravilha, como quem tal experimenta o diz.

Só pode ser uma história com um final feliz.
publicado por shark às 21:18 | linque da posta | sou todo ouvidos