DOIS MUNDOS

Malagueta ou pimenta na língua por dizer palavrões. Urtigas esfregadas no rabo por fazer chichi na cama. Chapadas ou reguadas por falar com o colega do lado na escola. Ameaça (felizmente não concretizada) de colégio interno por fugir de casa.
Muita coisa mudou desde a minha infância em matéria de punições pelos maus comportamentos. E ainda bem.

O famoso papão, personagem mítico que se dizia esconder-se nos armários ou em outros recantos escuros de um lar que deveríamos sentir como uma fortaleza em matéria de segurança, também desapareceu pouco tempo depois de cair da cadeira e transferir a alma penada para o pior dos infernos.

Hoje em dia, o supremo castigo é a privação do acesso ao canal Disney e será essa a referência da minha filha no que concerne a castigos pela conduta inapropriada.
O medo deixou de constituir um instrumento correccional em detrimento de uma forma ligeira de chantagem audiovisual que visa apenas recordar o respeitinho que é muito bonito e manter algum tipo de disciplina que controle os desvarios dos príncipes e das princesas que um mundo bem mais próspero e esclarecido nos permite criar.

É um privilégio poder criar um filho sem os terrores das gerações anteriores. A Pide, a guerra colonial, a inflexibilidade generalizada perante qualquer tipo de irreverência ou simples desvio de personalidade (hiperactivos, por exemplo, eram tidos por maluquinhos) desapareceram do cenário e podemos concentrar-nos no desenvolvimento saudável do potencial das crianças que geramos.

Mas isto de que vos falo não passa da versão eldorada de um burguês. Na maioria dos casos, o tempo não pôde avançar da mesma forma e o papão continua a povoar os armários vazios de comida e de ambição em demasiados lares onde a televisão por cabo não constitui argumento assustador o bastante para demover os mais novos da revolta inerente à consciência da sua condição inferior.
Tal como há séculos atrás, persistem os desníveis e a clara separação entre a “nobreza” representada pela classe média e média alta dos nossos dias e o “povo” que enxameia as ruas com as marcas de uma pobreza menos radical mas seguramente mais insultada pelos sinais exteriores que a tornam mais incompreensível e sem justificação aos olhos de quem a sente na pele.

Esse castigo por si só equivale sem dúvida a todos quantos o passado me infligiu.

E por isso não me permito a ingratidão de uma ideologia conservadora ou de uma indiferença desmazelada em relação ao mundo dos outros que sendo o mesmo é afinal tão diferente do meu.
publicado por shark às 11:00 | linque da posta | sou todo ouvidos