PRÓS E CONTRAS (reloaded)

Ontem faltou-me a pachorra e o cabedal para assistir à totalidade da cena. Ainda assim, pude constatar algumas diferenças relativamente ao primeiro round (que tive oportunidade de vos descrever sob a minha perspectiva assumidamente facciosa).

Saltou-me à vista, por exemplo, o cuidado na escolha de convidados menos "acalorados" na sua abordagem (sobretudo do lado do Não). E aqui ressalta a nova estratégia do Não, decididamente em busca de uma imagem de moderação que desminta os tradicionais fetos desmembrados e as ameaças de excomunhão que acabam por escapar no meio do fervor religioso da ala radical.
Com menor espalhafato, os apologistas do tudo na mesma empunharam as estatísticas da treta que provam o "aumento" do número de abortos subsequente à despenalização noutros países. Claro que se esquecem de referir que enquanto o aborto é clandestino não existe maneira de obter números fiáveis para fazer comparações...

Do lado do Sim, apanhados na ratoeira dos opositores que os tentam fazer passar por extremistas em tom brando enquanto vão soltando expressões "inocentes" como extermínio, bebés, aborto livre e outros chavões emocionais para fazerem valer o seu alegado dilema ético junto da camada menos esclarecida da população (a que maioritariamente lhes poderá oferecer uma repetição do milagre de 98), os convidados pela Fátima Campos (alguns repetentes) embarcaram com demasiada frequência no tom revoltado (revolta um bocadinho, a cara de pau) que terá servido na perfeição a estratégia do outro lado.

Ficou contudo a ideia de que o Não possui propostas para resolver todos os problemas associados a este embróglio, como aliás já davam a entender por altura do primeiro referendo e todos sabemos agora acabou por ficar em águas de bacalhau, excepção feita às instituições costumeiras e o seu meritório mas insuficiente trabalho no apoio a quem dele precisa.

E é essa a pedra basilar da nova face do Não: a de terem resposta para tudo, por oposição à suposta falta de respostas do Sim para atender às consequências de uma vitória da Despenalização. Os "seus" médicos insistem na tónica da incapacidade de resposta do Sistema de Saúde, afastando-se assim do seu dilema hipocrático que por norma conduz às declarações extremadas e às recusas por antecipação em praticarem o acto que sentem como ignóbil. Os "seus" juristas insistem na óptica da defesa da criança(?) em detrimento da mãe, num tomar de partidos que não soa muito consonante com os princípios que a Justiça alega defender, fazendo tábua rasa do facto evidente de que as pessoas não abortam por gosto e de que nenhum médico alinhará num aborto químico ou cirúrgico sem uma prévia análise de cada caso que lhe caia em mãos.

O Prós e Contras de ontem em nada alterou o meu sentido de voto e tenho dúvidas de que o tenha conseguido junto de uma faixa significativa da população.
Porém, serviu para entender a subtileza na mudança do discurso com a qual é nítida a vontade dos apoiantes do Não de conseguirem demarcar-se da imagem radical que é sua marca numa questão que não escondem tratar-se de vida ou de morte (passe o trocadilho) para as suas pretensões eleitorais.
É que escasseiam os tons genuínos de quem efectivamente se preocupa com a questão da Vida, por oposição aos que no discurso evidenciam apenas o tique conservador que os arrepia sempre que está em causa a liberalização de tudo quanto não diga respeito à livre iniciativa empresarial.

São traídos pela argumentação, pois sempre lhes vai escapando o desdém pelo pressuposto de que os cidadãos (neste caso as cidadãs) possuem vontade própria e discernimento qb para gerirem os seus destinos e os dos filhos que, a serem viáveis e desejados, nunca constituiriam o cerne da questão.
publicado por shark às 11:16 | linque da posta | sou todo ouvidos