O CONTO DE REIS - Uma Novela no Espírito do Quadro (Cap. II)

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Natália encolheu os ombros perante o olhar alucinado de Nicolau, convencido como nos anos anteriores de que havia recebido a bênção da paternidade na figura daquele bebé nas palhinhas gelado e agora iluminado pela luz quente da lareira.

- Tás bom, JC? – inquiriu ela sem grande entusiasmo.

Com as gengivas a baterem castanholas, o pequeno visitante respondeu com um aceno afirmativo de cabeça. Entretanto, o velho das barbas ruminava as siglas tentando associar o nome à pessoa enquanto ateava a braseira com um fole.

- Olha lá, ò Gepeto da tanga: tens a coisa organizada para este ano? – perguntou JC, agasalhado com um xaile de Natália (“não babes essa treta outra vez, menino, ou amanhã tenho outra vez uma chusma de beatas a snifarem-me o estendal”).

- As prendas? – retorquiu Nicolau – Sim, sim. Falei com os gajos da Manpower e eles desenrascaram-me um bacano da Associação de Reformados e Pensionistas da Pampilhosa. Eu tinha contactado o Centro de Emprego, mas só me mandam putos novos sem carta de condução de trenó…

- Mas quais prendas, pá? Achas que eu ainda ligo a essa tanga? A malta já nem faz presépios nem o camandro, compram aqueles muita farsolas das lojas dos trezentos e metem-nos num canto…
A passagem de ano, meu! É a tua vez de organizar a cena, lembras-te?


Nicolau esbofeteou a testa.

- Pois é, no ano passado foi o… o…
- O Manitu, sim, e já sei que adorou a tua fatiota e que te chamou irmão, ò pele-vermelha de trazer por casa. Mas já que falaste na cena das prendas, vou abrir o jogo contigo. Ando um bocado chateado com a onda do pessoal andar a curtir o meu aniversário sem me ligar pevas.

Natália levantou os olhos do tricô e fixou o pequeno traquina.

- E o que é que o Nicolau tem a ver com isso, ò fedelho?
- Fedelho? Olhe que o respeitinho é muito bonito. Eu já sou falado há dois mil anos e aqui o barbas ainda nem completou um século de impressão em papel de embrulho…
- Deves-te julgar muito importante… Tu tens é dor de cotovelo. Vai mas é fazer chorar imagens da mãezinha prás missas do galo, ò milagreiro da treta.

Nicolau, aflito, balbuciava palavras de concórdia mas nenhum dos dois parecia querer amainar o tom.
E o pequeno JC prosseguia:

- Ganda lata a sua… É por causa do patrocínio da marca? Mas olhe que também vendem Coca-Cola em garrafa. Se calhar anda distraída a promover o consumo dessa zurrapa para arrotar…

Nicolau apanhou logo a deixa.

- Olhem, e por falar em bebidas: vamos tomar qualquer coisinha?
- O puto bebe suminho. É proibido servir bebidas alcoólicas a penetras de fralda. E desmonta do xaile que tem dona, ò meia-leca!

Natália não suportava o miúdo e via nele uma ameaça à estabilidade financeira do seu agregado. Podia lá agora vir um rapazola dar cabo da reforma dourada ao seu Nicolau…

(continua)
publicado por shark às 23:20 | linque da posta | sou todo ouvidos