A POSTA A TRÊS

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Aqui há dias estive a conversar com pessoas amigas acerca de uma das fantasias mais recorrentes entre a rapaziada, a do trio maravilha.
O assunto é mais desconfortável de discutir do que eu pensava, sobretudo quando na conversa participam mulheres. É que nós homens trocamos impressões nesta matéria com a leviandade machona que caracteriza a generalidade das nossas abordagens ao sexo. Fazemos e acontecemos, é tudo muito natural, não custa nada e venha a oportunidade que nenhum garanhão a desperdiçará.
Pois, pois. Mas as raparigas não olham a coisa com a mesma displicência e tocam com o dedo nas feridas mais expostas dos atrevidos, nomeadamente quando se fala no trio um com duas e elas carecas de saber que a maior parte dos parceiros nem de uma conseguem dar boa conta...

Esta foi a primeira armadilha que a conversa proporcionou a alguns. As mulheres são implacáveis no seu discurso e são pouco dadas a excitações verbais, fazendo aterrar os sonhos eróticos mais bem elaborados no domínio do real (onde as coisas não são exactamente como se teorizam). Elas falam com a plena consciência de que é tudo muito bonito, mas na verdade existem limitações e perigos de que nós homens só damos conta depois da bronca acontecer. E isto porque são raras as pessoas capazes de lidarem com as repercussões, como algumas das que uma relação a três (mesmo ocasional) podem acarretar quando os intervenientes param para pensar um bocado sobre o assunto, à posteriori.

Se é verdade que em dadas circunstâncias as coisas até podem conjugar-se para correrem bem, quando brotam de surpresa entre parceiros(as) que nem mantêm qualquer tipo de ligação sentimental, a coisa pia mais fino quando um casal se deixa arrastar para o vórtice do furacão. O problema, naturalmente, reside no inevitável ciúme e no instinto de posse que as pessoas desenvolvem, quer o aceitem como real ou não. Não é pêra doce enfrentar o outro depois de uma sessão de cama com outra pessoa, qualquer que seja o seu género. Se era uma amante adicional, a parceira fica de pé atrás relativamente aos futuros contactos do SEU homem com a dita cuja. E se é de um amante adicional que se trata, o macho da espécie até engole em seco quando recorda algumas passagens do imbróglio em que se meteu. A veia liberal definha aos poucos perante a fotografia do evento que antes parecia tão espontâneo e natural. O dele era maior do que o meu e ela gostou mais e raciocínios do género. Acaba por dar pró torto, claro está...

Por essas e por outras é que as pessoas devem medir bem os passos que dão, sopesando com lucidez os factores a ter em conta nestas aventuras à partida tão aliciantes. Mas arriscadas, como as aventuras devem ser. Se não faltam exemplos de casais bem sucedidos nas práticas sexuais mais arrojadas, mesmo quando envolvem terceiros(as), é igualmente verdade que para a maioria essas incursões por território bravio acarretam danos irreversíveis na estrutura de uma relação. E esse é sempre um preço demasiado alto para compensar umas horas de prazer.
Essa foi a principal conclusão que extraímos do nosso diálogo e note-se que apenas dois dos presentes assumiram que já haviam experimentado essa versão trifásica que preenche os imaginários de muitos de nós e nem seriam esses os mais entusiastas na respectiva defesa.
A intimidade não é um conceito, é uma realidade factual. E não reside apenas na simples troca de fluidos e de carícias, como as componentes femininas do grupo fizeram questão de salientar, para desgosto dos sonhadores mais incautos (e comprometidos) que participaram na conversa.

Desenganem-se os que concluam que a minha perspectiva acerca do assunto é conservadora. Chamo a vossa atenção para o facto de eu ter frisado que são os casais com uma relação a preservar que devem medir as consequências das farras em que decidem meter-se, sob pena de estragarem o que têm de melhor. A título individual, a minha perspectiva é radicalmente oposta e assenta nas experiências que, digamos, vivi de perto ao longo de meses num país do norte da Europa, culturalmente menos condicionado do que o nosso nessa sensível matéria. Contudo, e como a lucidez feminina deixou bem presente na interessante conversa em que participei, uma coisa é teorizar acerca das potencialidades de determinadas extravagâncias quando se desconhecem ou não estão em causa as suas repercussões nas tolas de cada um(a). A outra é arriscar no escuro, sem avaliar previamente as consequências (quase sempre imprevisíveis) das nossas leviandades e excitações.

O sexo, vivido entre desconhecidos ou entre pessoas sem vínculos emocionais, pode cingir-se a uma fascinante e divertida experiência ao nível sensorial. Mas no âmbito de uma relação amorosa a dois, e há até quem procure parceiros(as) em anúncios de jornal, os entusiasmos de ocasião podem ser como fósforos acesos nas mãos de crianças de colo. E ninguém se arvore de bombeiro nessas condições: depois de ateado, é fogo que arde sem controlo e nunca é bonito de se ver...
publicado por shark às 19:29 | linque da posta | sou todo ouvidos